CULTURA / Quinta, 21 Abril 2022 13:05

Maioria dos temas que as escolas de samba levam para a avenida são relacionados à negritude

Das 26 escolas que compõem o Grupo Especial de 2022, no Rio de Janeiro e São Paulo, 15 exaltam a história e elementos que formam a identidade sociocultural da população afrodiaspórica; ícones da literatura, música e divindades de religiões de matriz africana estão entre os homenageados

Texto: Victor Lacerda I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Reprodução / RioTour

Imagem mostra passista da ala em referência à África, levantando um dos braços e sorrindo. Ela está com adornos étnicos e com maquiagem dourada
Introdução:

Das 26 escolas que compõem o Grupo Especial de 2022, no Rio de Janeiro e São Paulo, 15 exaltam a história e elementos que formam a identidade sociocultural da população afrodiaspórica; ícones da literatura, música e divindades de religiões de matriz africana estão entre os homenageados

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Texto: Victor Lacerda I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Reprodução / RioTour

Indo na contramão do último levantamento realizado pela Alma Preta Jornalismo, que revela que a maioria das rainhas de bateria das escolas de samba do Grupo Especial, neste ano, são brancas, os assuntos a serem explorados nos desfiles das escolas de samba pretendem exaltar as raízes negras. Em 2022, os temas relacionados à negritude são maioria entre as agremiações de São Paulo e Rio de Janeiro. 

Ao todo, das 26 escolas que compõem o Grupo Especial de 2022, 15 exaltam a história e elementos da identidade do povo negro. No Rio de Janeiro, das 12 agremiações que irão desfilar pela categoria, oito abordarão temas associados à história e cultura da população, representando 66,6% dos temas escolhidos. Já em São Paulo, das 14 escolas, sete farão o mesmo trabalho de valorizar a cultura afro diaspórica, ocupando 50% dos temas. 

Entre os temas, estão homenagens a figuras que foram importantes na base cultural brasileira, na música ou literatura, a reverência aos elementos das religiões de matrizes africanas e aos orixás, além da história contada além do processo de escravização. 

No Rio de Janeiro, três escolas levam à avenida as particularidades e a importância das religiões de matrizes africanas, como a Mocidade Independente de Padre Miguel, que trata como tema a divindade da caça e da fartura, Oxóssi; já a Acadêmicos do Grande Rio, traz para a avenida a força e a história de orixá responsável pela comunicação e abertura dos caminhos, Exú; e a Portela, aborda a ‘árvore da vida’ essencial para os cultos afros, o baobá.

Na Sapucaí, outras quatro escolas retratam ícones negros: Mangueira, celebra a vida e obra de Cartola, Jamelão e Delegado, grandes nomes do samba; a Unidos de Vila Isabel homenageia Martinho da Vila, importante figura do samba carioca ainda vivo; a Paraíso do Tuitui, retrata a "negritude e seus ícones"; além da Beija-Flor de Nilópolis, que apresenta a história sob a ótica negra e seus personagens.

A Salgueiro também não fica de fora, sendo a única que vai trazer o tema “Resistência negra” como central, ao abordar as maiores mazelas enfrentadas pela população negra no país.

São Paulo

Já no Sambódromo do Anhembi, uma escolha se assemelha à escolha da agremiação carioca citada anteriormente. A tradicional agremiação Gaviões da Fiel traz, para este ano, a temática da desigualdade social, com destaque para a frase “Vidas Negras Importam” incluída no seu samba-enredo, fazendo alusão à campanha “Black Lives Matter”. O movimento ganhou força após o assassinato do americano George Foyd,  em 2020, pelo policial branco Derek Chauvin.

Dois grandes nomes de mulheres negras também serão destaque no carnaval paulista. A escola Colorado do Brás traz como tema a vida e obra da escritora da Carolina Maria de Jesus. Já a Mocidade Alegre homenageia a cantora Clementina de Jesus. 

Com cunho religioso, a Acadêmicos do Tatuapé contará, em seu desfile, a história e a importância do café para o Brasil através da simbologia do Preto-Velho, relacionando à história do povo negro ao arquétipo de idoso africano, que é cultuado como entidade em religiões como a Umbanda. Da mesma linha de reverência às entidades, a escola Barroca da Zona Sul vai à avenida reverenciando Zé Pelintra, uma das mais importantes entidades de cultos afro-brasileiros, especialmente entre os umbandistas.

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Já a Vai-Vai e a Águia de Ouro apresentam, respectivamente: “Homenagem aos povos africanos” e “Cultura afro-brasileira”. 

Para os estudiosos e representantes do movimento negro, o protagonismo de temáticas que envolvem a negritude entre as escolas do Grupo Especial em 2022 é sinônimo de resgate e exaltação do movimento originário da população negra. O professor de etnomusicologia da Escola de Música da UFRJ e mestre e licenciado em Música pela UFPE, Tiago Sá, no entanto, aponta que as escolas de samba nunca deixaram de tratar temas sobre negritude e sua identidade. 

“É claro que, em alguns momentos, essas questões ficam mais evidentes do que outras. Entretanto, esse ano veremos a pauta da negritude e sua identidade não apenas nas questões técnicas e rítmicas, mas também, estará presente na dança, na roupa e nos textos cantados com uma outra evidência”, aponta. 

Segundo ele, o impacto desse protagonismo é a possibilidade de ampliar o debate sobre essas temáticas por meio de uma manifestação cultural de origem negra, o samba.  

“É comum assistirmos matérias sobre ‘Exu’ em programa jornalístico da TV aberta, em plena hora do almoço? Não. Além de tratarmos da intolerância de uma outra maneira, também pautamos o racismo e a violência contra nós. Assim, o samba, enquanto música, se apresenta como mais uma forma de chamar a atenção para esses temas que continuam urgentes, mas a forma como ela vai impactar e exaltar vai além dos enredos”, ressalta. 

O posicionamento do especialista é compartilhado pela militante negra, Elisa Lucas, 68, que há 40 anos atua na luta pelos direitos da população negra e no combate à discriminação racial. Hoje, atuando como Secretária Executiva Adjunta de Igualdade Racial de São Paulo, ela analisa que os dados levantados apontam um “momento de expansão”. 

“O que estamos vendo agora é uma amplitude das nossas temáticas, também voltadas à valorização dos artistas negros, da nossa luta histórica e das intolerâncias vividas contra os nossos cultos, que, aqui no país, são os mais atacados. Acredito que este protagonismo entre as escolas é uma resposta à sociedade e reafirmam que a nossa história está viva, é essa e se faz presente”, dispara.

Questionada sobre os impactos sobre o alcance das temáticas através de um evento veiculado na mídia brasileira e no mundo, Elisa afirma que o movimento negro avalia como medida eficaz e positivida, principalmente diante do cenário político dos últimos anos.

“O governo atual trouxe diversas tentativas de esquecimento da nossa história, do nosso valor, mesmo nós, negros, representando a maioria da população do país. Sem representatividade em espaços de poder, como o parlamento, o que nos resta é a negação dos nossos valores. As escolas de samba, enquanto agentes das nossas manifestações, portanto, tem a força de fazer aderir, entender e convocar à população a reverenciar, por exemplo, os nossos heróis que, por vezes, são esquecidos", finaliza. 

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