COTIDIANO / Segunda, 07 Fevereiro 2022 19:48

Pelo menos oito bairros de Franco da Rocha ainda correm risco de deslizamento

Moradores em áreas de risco farão protesto na sexta-feira (11) na cidade; foram 15 mortes no deslizamento na rua São Carlos, no jardim Paulista, na manhã do dia 30 de janeiro

 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Juca Guimarães

equipes de resgate em zona de deslizamento na cidade de Franco da Rocha
Introdução:

Moradores em áreas de risco farão protesto na sexta-feira (11) na cidade; foram 15 mortes no deslizamento na rua São Carlos, no jardim Paulista, na manhã do dia 30 de janeiro

 

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Texto: Juca Guimarães I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Juca Guimarães

A maioria dos bairros de Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, têm áreas de encosta com casas ameaçadas de desabamento. Nas áreas planas do centro, onde fica a prefeitura, as chuvas fortes trazem alagamentos acima de 1,5 metro. Os moradores estão apreensivos com o risco de vida.

Foram 15 mortes no deslizamento na rua São Carlos, no jardim Paulista, na manhã do dia 30 de janeiro. “Teve um estrondo bem forte e a rua ficou toda cinza. Comecei a gritar para avisar as pessoas, ainda estava chovendo muito, a lama derrubou o poste e explodiu o transformador. Algumas pessoas se salvaram, mas muitos conhecidos morreram”, lembra o auxiliar de manutenção Gilmar Moreira dos Santos, 40 anos, que mora a poucos metros do deslizamento e teve a casa interditada pela Defesa Civil.

No Jardim Paulista, foram 188 casas interditadas e as famílias só puderam retirar os seus móveis, documentos, roupas e objetos pessoais na última sexta-feira (4), quando a equipe do Alma Preta Jornalismo esteve no local.

O analista jurídico Alexander Pereira da Silva, 27 anos, mora também na rua São Carlos e é voluntário para ajudar os desabrigados, como ele, desde o primeiro dia da tragédia. “Vivo aqui há dez anos e a única coisa que a gente vê é a prefeitura vir retirar a lama depois das chuvas. Não foi por falta de aviso, eu mesmo já tinha telefonado para a Defesa Civil. Os governos do município, do estado e federal nunca apresentaram uma proposta real para resolver o problema dos deslizamentos ou dar uma alternativa digna de moradia”, conta Silva.

Além do Jardim Paulista, as casas de centenas de moradores estão com risco de desabamento porque o volume de chuva está maior que o normal para esta época do ano. A situação é mais grave nos bairros do Lago Azul, Vila Bazu, Jardim Cruzeiro, Parque Vitória, Parque Pretória, Vila Palmares e Vila Lemar.

A instrutora de Yoga e arte-educadora Stefani Bertolize Santos, 27 anos, mora na Vila Lemar, onde 26 casas foram interditadas. “Não nos deram nenhuma explicação do que será feito ou quando, apenas disseram que era para os moradores saírem de suas casas”, comenta.

O bairro existe há quase 50 anos e já passou outros deslizamentos de terra. As casas ficam ao lado das encostas de um vale, com nascentes e árvores nativas. Os moradores querem que sejam feitas obras de contenção nos barrancos para proteger as casas e um parque para preservar a área verde e o meio-ambiente.

“Com as últimas chuvas já houve algum deslizamento e diversas árvores caíram. A situação é mesmo de bastante perigo”, diz Deogracia Souza, a professora Graça, que mora no bairro desde 2009.

Em 2019, a prefeitura chegou a fazer uma pequena obra de reforço no barranco, na rua Canárias, perto do local onde já tinha acontecido o desmoronamento de uma casa. A obra, porém, não foi suficiente e outras casas da rua e também da rua Madagascar, que circunda a boca do vale, continuam ameaçadas.

O coletivo Barroka, formado por artistas da região, organizou um abaixo-assinado para que sejam feitas novas obras. Na  sexta-feira, dia 18, os moradores de diversos bairros com risco de deslizamento farão um ato no estacionamento da prefeitura de Franco da Rocha, a partir das 9h.

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Local com risco de desabamento de terra na Vila Lemar, em Franco da Rocha I Imagem: Juca Guimarães

A prefeitura de Franco da Rocha informou aos moradores que vai liberar o auxílio-aluguel de R$608 por um período de 12 meses por familia desalojada. “O valor de R$600 é inferior aos valores médios do aluguel na região. Uma casa com três cômodos custa de R$ 700 a R$ 800. Até agora, o que deram de alternativa é o auxílio-aluguel por pouco tempo ou o abrigo, que também é temporário”, aponta uma moradora que pediu para não ser identificada.

Algumas das famílias da rua São Carlos, que não podem voltar para as suas casas e ainda não conseguiram um local para ficar estão recebendo donativos pelo pix 11 99841 4835 (no nome de Evelin).

Na quinta-feira passada (30), o governador João Doria esteve em Franco da Rocha para conhecer o local do deslizamento e anunciou a liberação de R$3 milhões para obras emergenciais de problemas crônicos urbanos que tenham ligação com deslizamentos e alagamentos na cidade. Ao todo, segundo o governo do estado, a verba liberada para a recuperação urbana e social da cidade é de R$8 milhões. Além de Franco da Rocha, as chuvas causaram estragos em outras nove cidades da região, com cerca de 800 pessoas desalojadas e 4.700 desabrigadas.

Outro lado

Em resposta à Alma Preta Jornalismo, a prefeitura de Franco da Rocha explicou que existem 300 áreas de risco na cidade, segundo levantamento concluído em 2021. Essas áreas são monitoradas pela Defesa Civil. 

A diretoria de habitação informou ainda que trabalha na regularização fundiária de 37 núcleos habitacionais do município, em um total de cerca de oito mil moradias irregulares. Cerca de 600 títulos de propriedade definitiva foram entregues em 2020 e outros 300 já estão em fase final de escrituração.

A obra da rua Canárias, na Vila Lemar, foi projetada em 2016 e concluída em 2018, em parceria com o governo federal, com a contenção da encosta e a recomposição do pavimento. Mas em 2019, com a obra já concluída, houve outro deslizamento mais adiante, na rua Madagascar, cujo projeto aguarda disponibilidade de recursos para ser executado.

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