COTIDIANO / Segunda, 20 Junho 2022 16:22

“Onda silenciosa” da Covid-19 é um alerta para comunidades quilombolas e indígenas

Com a alta de casos de contaminações pelo novo coronavírus no país e diante de muita subnotificação, profissional da saúde incentiva comunidades tradicionais e originárias a voltar com medidas emergenciais para se proteger do vírus

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Elias Santana Malê | Imagem: Cesar Lopes / PMPA

Imagem de quilombolas e indígenas sendo vacinados contra a Covid-19.
Introdução:

Com a alta de casos de contaminações pelo novo coronavírus no país e diante de muita subnotificação, profissional da saúde incentiva comunidades tradicionais e originárias a voltar com medidas emergenciais para se proteger do vírus

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Texto: Fernanda Rosário | Edição: Elias Santana Malê | Imagem: Cesar Lopes / PMPA

Os casos de contaminações pela Covid-19 voltaram a subir no Brasil após um período de aparente tranquilidade da pandemia e do fim das medidas emergenciais contra o novo coronavírus. Diante de um contexto de subnotificação de dados e afrouxamento de medidas de controle em todo o país, comunidades tradicionais e originárias, como as quilombolas e indígenas, ficam ainda mais vulneráveis com o novo aumento.

Até o último domingo (19), segundo dados reunidos pelo consórcio de veículos de imprensa, são aproximadamente 670 mil óbitos e quase 32 milhões de casos conhecidos registrados de Covid-19. A média móvel de mortes nos últimos sete dias foi de 133, um aumento de 73% em comparação com o registrado há 14 dias. Já a média móvel de contaminações no mesmo período foi 32.581, um aumento de 10%. No final de maio, o estado de São Paulo chegou a uma alta de 120% de novas internações por Covid-19, segundo a Secretaria da Saúde.

De acordo com o médico, escritor e divulgador científico Adriano Vendimiatti Cardoso, a alta de diagnósticos positivos observados indica que estamos diante de uma quarta onda da Covid-19. O médico explica que, ao contrário do que foi dito pelo Ministro da Saúde Marcelo Queiroga - que chamou também de “anticristo” médicos que falam sobre 4° onda -, não tem como se minimizar a tendência de alta de contaminações apenas como um aumento esperado durante o inverno.

“Daqui para a frente todo o inverno vai ter um aumento dos casos de Covid, sim, como todo o inverno tem aumento nos casos de gripe e de pneumonia. Agora os números e a quantidade de casos da Covid-19, de longe, não são simplesmente um aumento de inverno. Nós temos estados como Santa Catarina que estão tendo falta de leitos de UTI. Tem cidades no estado de SP que já estão relatando falta de medicamento”, explica o médico.

Segundo Adriano Vendimiatti, a situação fica mais complicada diante de um contexto em que foi decretado o fim da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) e de suas medidas de prevenção à doença.

“Muitos locais estão com uma estrutura que não é a mesma de seis meses ou até um ano atrás, porque muito daquela estrutura emergencial foi desmontada. Existem muitas prefeituras que foram obrigadas a desmontar hospitais de campanha. Então teve muito hospital e muito leito de UTI desativado, porque não tem mais verba especial para isso”, destaca o médico.

Subnotificação e ameaça a comunidades tradicionais e indígenas

O divulgador científico Adriano Vendimiatti também ressalta que um fenômeno específico dessa 4° onda é que há um aumento de casos não notificados, podendo ser chamada de “onda silenciosa”

“A notificação no Brasil foi extremamente dificultada pelo governo federal. Ela só pode ser feita por profissional de saúde em sites específicos e todo e qualquer exame autoteste não tem uma maneira da pessoa se autonotificar. Aqui no Brasil a pessoa para poder se notificar tem que procurar um serviço de saúde e ninguém faz isso. A burocracia é proposital e então você não tem uma real noção de quantos casos estão tendo por dia”, ressalta.

O médico também acha importante que comunidades tradicionais e originárias voltem a se preocupar com medidas de prevenção contra a Covid-19, como barreiras sanitárias.

“Eles são grupos extremamente vulneráveis por vários motivos, como sociais e até genéticos. Se você tem uma comunidade que tem geneticamente uma tendência por uma doença, eles vão sofrer muito mais. Se você tem grupos que são mais isolados e não tem contato com outras populações, não tem imunidade a outras doenças, eles morrem muito mais. Eles foram extremamente atingidos e não houve nenhuma política real de proteção”, relata.

No último dia 7 de junho, foi publicada uma medida provisória no Diário Oficial da União dispondo sobre o estabelecimento de instalação de barreiras sanitárias protetivas de áreas indígenas para controlar o trânsito de pessoas e de mercadorias direcionadas a essas áreas, com a finalidade de evitar o contágio e a disseminação da Covid-19.

“Essa medida veio um pouco atrasada, porque já há algum tempo que a disseminação do vírus voltou com muita força e a gente já vem orientando as nossas comunidades antes da medida”, destaca Tanawy Xukuru-Kariri, liderança indígena da Mata da Cafurna, em Palmeira dos Índios/AL.

A liderança, que também integra a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), também explica que houve uma baixa de mortes dentro das comunidades, mas reforça que há uma falta de dados reais sobre como anda a contaminação nas comunidades indígenas de abrangência da Apoinme.

“A Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) não testa mais indígena, só a equipe de trabalho dela. Fica complicado sabermos o número exato de testagem na comunidade, mas a gente tem muita gente gripado, com febre, com alguns sintomas dentro da comunidade. Sobre a vacinação, fizemos tudo direitinho. Tivemos algumas resistências por conta de publicações falsas, mas a gente conseguiu contornar essa situação e tivemos 100% da vacinação”, pontua Xukuru-Kariri.

Tanawi também ressalta que há comunidades no Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo que estão regulando a visitação nas comunidades.

“A minha aldeia exclusivamente recebe muita gente de fora e a gente não está recebendo ninguém para que não seja necessário fazer a barreira sanitária. Voltamos com a medida agora há duas semanas devido a essa volta da disseminação do vírus. Estamos com cerca de 68% das aldeias com essas medidas. Tem algumas aldeias que são de muito difícil acesso, aí não tem necessidade de fazer barreira sanitária nem outras medidas, porque já não recebe visitação”, explica.

Segundo levantamento independente da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), até hoje foram contabilizados 71.854 indígenas contaminados e 1.311 mortos, afetando 162 povos. 

Leia mais: Covid-19: qual a melhor máscara para usar diante da variante Ômicron?

Barreiras sanitárias e campanhas

Diante da alta de contaminações, barreiras sanitárias e campanhas de educação podem ajudar na prevenção contra o vírus | Crédito: Apoinme

A Alma Preta Jornalismo também entrou em contato com lideranças quilombolas para saber como está a disseminação do vírus dentro das comunidades e sobre as medidas de prevenção. Foi ressaltado pelas lideranças a ausência de dados oficiais que façam um levantamento sobre a situação quilombola no momento.

Segunda Graça Epifânio, integrante da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos), atualmente, após as vacinas, o controle de infecção dentro das comunidades foi alcançado.

“Quanto ao governo, a atualização dos dados não nos é passada, temos nós mesmos que dar continuidade com o trabalho que nos propomos a fazer no colapso da pandemia. Temos que fazer a nossa parte, apesar do governo ainda estar devendo a chegada das máscaras que eram para ser destinadas às comunidades. E, principalmente, tomar a 4° dose ou quantas forem necessárias para que possamos estar imunizados”, explica

De acordo com dados da Conaq, reunidos na plataforma “Quilombo sem Covid-19”, até 12 de janeiro deste ano, eram 5.666 casos de quilombolas contaminados e 301 óbitos registrados, além de 1.492 monitorados. Há uma falta de dados governamentais sobre o assunto sendo disponibilizados. Em resposta à reportagem, o Ministério da Saúde disse não ter os dados estratificados para divulgar a quantidade de quilombolas contaminados e mortos. Também alegaram esbarrar em questões de anonimato para fazer essa publicização.

Resta aos próprios quilombolas fazerem o levantamento para saberem um pouco da dimensão da disseminação da Covid-19, como os dados levantados pela Conaq ou por boletins como da Malungu (Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará), que até 11 de março deste ano tinha identificado 2.736 confirmados e 96 óbitos entre quilombolas do Pará. Sem apoio de órgãos oficiais de saúde, o boletim depende exclusivamente de informações fornecidas diariamente pelas próprias comunidades quilombolas.

Leia mais: Como o racismo estrutural dificulta o acesso dos quilombolas à saúde?

Falta de previsibilidade

De acordo com o médico Adriano Vendimiatti, a Covid-19 ainda está imprevisível, sendo por isso ainda impossível dizer que é uma doença endêmica.

“A endemia tem uma característica simples que é a previsibilidade. A partir do momento que eu sei quando aquilo vai aumentar e sei quando aquilo vai cair, isso é endêmico. Agora a Covid ainda está imprevisível, pode ser que a gente saia dessa onda e tenha mais uma onda no final do ano”, explica.

Diante da imprevisibilidade, o médico destaca que medidas de educação sobre se prevenir do vírus, sobretudo dentro de comunidades quilombolas e indígenas, são de grande importância. Segundo ele a retirada de medidas emergenciais foi precoce no país e não foi substituída por nada, como regras sobre uso de máscaras e qual a melhor a utilizar, distribuição de máscaras e campanhas massivas sobre os riscos em cada local.

“O que eu acho que precisaria começar agora é trabalhar com as pessoas dentro da educação. Se tivesse um movimento vindo de cima para baixo, com o governo federal, de educação da população em relação ao uso de máscara e a vacinação, isso faria sentido. Você não vai mais conseguir fazer lockdown como a China fez. Você não vai conseguir mais fazer o uso universal de máscaras. Então é uso em locais perigosos, uso para grupos de risco”, explica.

Sobre as comunidades tradicionais e originárias, o médico pontua que, como são comunidades que possuem senso de união muito forte, teriam que considerar a volta às barreiras sanitárias, principalmente com educação diante dos mais jovens, que são as pessoas que transitam mais entre grupos. Também considerar medidas como obrigação de uso de máscaras e comprovante vacinal seriam interessantes para comunidades que tem no turismo importante fonte de renda.

“Reforçar muito a vacinação de 4° e, dependendo, de 5° dose para população deles é fundamental. Se tem uma coisa que vai salvar vidas dessa população hoje em dia é elas estarem o máximo vacinadas possível. Se tem uma coisa que não pode existir numa comunidade quilombola e indígena no Brasil é movimento antivacina ou dúvida em relação à vacinação”, finaliza o divulgador científico.

A reportagem também entrou em contato com a Fundação Cultural Palmares e a Funai para saber como estão sendo implementadas barreiras sanitárias em comunidades quilombolas e indígenas e sobre outras medidas de prevenção que estão sendo implementadas ou recomendadas pelos órgãos, mas até o fechamento do texto as respostas não foram enviadas. O texto será atualizado caso as notas sejam encaminhadas.

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