ÁFRICA & DIáSPORA / Segunda, 01 Agosto 2022 16:05

Gana registra os primeiros casos do vírus Marburg

Doença provoca febre hemorrágica semelhante ao Ebola e já circula esporadicamente em alguns países do continente africano

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ Médicos Sem Fronteiras

Imagem mostra médicos com aventais e roupas para se protegerem do vírus Marburg.
Introdução:

Doença provoca febre hemorrágica semelhante ao Ebola e já circula esporadicamente em alguns países do continente africano

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Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ Médicos Sem Fronteiras

Gana registrou em julho o seu primeiro surto do vírus Marburg. Essa também foi a primeira vez que o país da África Ocidental registrou casos da doença, que é semelhante ao Ebola. Segundo a última atualização do Serviço de Saúde de Gana (GHS), publicado quinta-feira (28), após repetição de testes, foram identificados um total de três casos no país, sendo que duas pessoas morreram.

“Segundo a OMS, a doença causada pelo vírus Marburg, ou MARV, é altamente virulenta, podendo levar à febre hemorrágica, com uma taxa de mortalidade de até 88%”, explica Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e divulgadora científica pela “Rede Análise” e “Todos Pelas Vacinas”.

Todos os casos são de pessoas de uma mesma família. Ainda segundo o GHS, o primeiro caso foi de um homem de 26 anos de idade que adoeceu em 22 de junho, teve um sangramento pelas narinas e boca e faleceu 28 horas após ser internado em 26 de junho na região de Ashanti. O segundo caso é do filho de um ano e dois meses do primeiro infectado. A criança faleceu três dias após a internação ocorrida em 17 de julho.

Já o terceiro caso é da mãe da criança, de 24 anos de idade. De acordo com o GHS, ela está bem e segue e, desde 26 de julho, em um centro de isolamento designado pelo governo, sendo acompanhada por medidas de prevenção e controle de infecções.

Saiba mais sobre o Marburg

O Marburg é um vírus altamente infeccioso que causa uma febre hemorrágica semelhante à provocada pelo vírus Ebola. Entre os sintomas observados em pessoas contaminadas estão diarreia, febre, náuseas, vômitos e dor de cabeça intensa, com pacientes desenvolvendo sinais hemorrágicos graves dentro de sete dias. O período de incubação da doença varia de dois a 21 dias.

“Esse é um vírus agressivo que causa febre hemorrágica, podendo haver sangramento por diversos orifícios do corpo. Não possui vacina ou tratamento específico. É transmitido por meio de sangue e demais fluidos corporais infectados, bem como superfícies contaminadas por estes fluidos”, informa a epidemiologista Aline Almeida da Silva, também mestranda em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília.

O médico infectologista Fabrício Rodrigues Torres de Carvalho - que atua no Hospital Israelita Albert Einstein e é doutor em ciências médicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - pontua que por ser transmitido pelo contato com secreções, como saliva, sangue, urina e diarreia de contaminados, a transmissibilidade do Marburg é um pouco mais controlável do que uma doença de transmissão respiratória ou de transmissão por um vetor como mosquito.

“A manifestação começa com sintomas constitucionais habituais como febre, dor no corpo e depois pode evoluir para as formas graves que são as febres hemorrágicas. Então as formas de manifestação clínica podem ser sangramentos espontâneos, acompanhados de febre. Pode ter sangramento gengival, sangramento nas cavidades do corpo. A mortalidade da doença é muito alta e mata as pessoas de uma forma relativamente rápida, o que torna difícil o controle da doença”, explica o médico.

Apesar da falta de tratamentos específicos para a doença provocado pelo Marburg, os cuidados de suporte e o tratamento dos sintomas que aparecem reduzem os riscos de morte. Estão sendo avaliados no momento tratamentos potenciais e candidatos a vacinas para o vírus.

Pode se transformar em uma nova emergência global?

De acordo com a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, é muito importante que governos locais façam uma boa vigilância epidemiológica e que a população evite a exposição a possíveis animais reservatórios do vírus, como morcegos. Ainda pessoas infectadas devem se isolar para evitar espalhamento do vírus e buscar auxílio médico.

Sobre o risco do vírus Marburg se tornar um caso de emergência de saúde global - quando há o risco de se espalhar pelos países do mundo -, como a Covid e a varíola dos macacos, a biomédica enfatiza que tudo depende de como ocorrerá sua contenção.

“Já houve surtos em outros momentos e, em geral, as epidemias de Marburg têm sido historicamente menores e mais bem contidas do que as de Ebola, por exemplo. No entanto, esses casos detectados recentemente nos trazem um importante alerta sobre circulação de agentes infecciosos”, destaca.

Além das medidas de isolamento, os cuidados podem incluir o uso de luvas e máscaras de proteção, também esterilização e descarte adequado de agulhas e dejetos das pessoas infectadas.

A epidemiologista Aline Almeida da Silva também ressalta que especialistas apontaram que existe um potencial pandêmico neste vírus, no entanto, ter o potencial não significa que ocorrerá uma pandemia. “Quando há a tomada de medidas oportunas, o controle do surto é possível e a sua propagação reduzida”, complementa a epidemiologista.

Já segundo o médico Fabrício Rodrigues Torres de Carvalho, é difícil fazer qualquer tipo de previsão se a doença vai virar uma emergência mundial ou não, mas acredita que é pouco provável por conta da forma de transmissão, que não é aérea ou por aerossóis.

“É preciso o contato das pessoas com as secreções, o que facilita o trabalho de isolamento de pessoas doentes. O que precisa para evitar que isso seja um surto ou epidemia é que isole rápido a área em que se encontrou os casos. A outra forma de evitar também é fazer com que os rituais de higiene nos processos fúnebres sejam respeitados, que os rituais fúnebres sejam em locais preparados para receber”, pontua.

Doenças negligenciadas podem se tornar uma pandemia

Essa é uma doença disseminada entre animais e que passou a contaminar também as pessoas. Segundo informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença é geralmente transmitida por morcegos frugívoros (que se alimentam de frutos). A primeira vez que o vírus foi detectado aconteceu nas cidades de Marburg e Frankfurt, na Alemanha, e em Belgrado, na Sérvia, em 1967. Na ocasião, funcionários de laboratórios foram infectados após o contato com macacos contaminados importados da Uganda.

Posteriormente, a doença chegou a ser identificada nos últimos anos em eventos esporádicos e de forma controlada na Guiné, Quênia, África do Sul e Uganda. Os maiores avanços, com mais de cem mortes registradas, aconteceram na República Democrática do Congo, entre os anos de 1998 e 2000, e em Angola, entre os anos de 2004 e 2005.

A epidemiologista Aline Almeida da Silva destaca que existe uma rede de resposta às emergências em Saúde Pública Global. A OMS monitora os casos de doenças letais, com potenciais pandêmicos e doenças que possam se configurar como de importância em saúde pública.

“No caso desta doença, por não haver tratamento específico, a prevenção está no não contato com pessoas infectadas, medidas de higiene rotineiras, bem como a limpeza de superfícies. Com a globalização mundial que possibilita a circulação de pessoas pelo mundo, em casos de situações de emergência, a vigilância precisa estar bastante sensível nos locais de chegada destas pessoas nos diferentes países. Quanto mais restrito um surto estiver, maior são as chances de prevenção e controle de novos casos”, pontua.

A biomédica Mellanie Fontes-Dutra enfatiza que uma doença negligenciada não pode se tornar importante só porque começou a circular em países de alta renda, sendo que ela já estava circulando há anos em países de média/baixa renda.

“Além de todo o impacto sobre essas populações, que em geral acumulam muitas vulnerabilidades, esses agentes infecciosos que mantêm uma circulação sustentada nessas populações podem se adaptar com o tempo e ganhar um espalhamento maior”, comenta.

De acordo com a biomédica, se não houver monitoramento para avaliar e acompanhar essa circulação, e se não houver estratégias de controle, contenção e prevenção da doença e seus riscos, todos estarão à deriva de um fenômeno como uma nova emergência de saúde pública acontecer, e suas dimensões podem sempre ser significativas.

“Doenças negligenciadas podem ser as epidemias e pandemias do amanhã”, complementa.

Casos estão sendo monitorados em Gana

O órgão de saúde de Gana informou que 116 pessoas que tiveram contato com as pessoas infectadas completaram um acompanhamento obrigatório de 21 dias e estão todos bem. Dezesseis contatos, incluindo profissionais de saúde, foram testados aleatoriamente e são todos negativos. Um novo conjunto de 81 contatos dos indivíduos infectados estão atualmente sob acompanhamento.

“Estão em andamento esforços para identificar contatos adicionais, se houver algum. O Centro Nacional de Operações de Emergência de Saúde Pública de Gana foi ativado e está em primeiro plano no planejamento e implementação de resposta em colaboração com parceiros. Equipes nacionais de apoio foram enviadas às regiões afetadas para fornecer o apoio necessário para garantir a contenção do surto”, informou o GHS em comunicado.

A OMS também informou que contatou países vizinhos e que estão em alerta. Alegaram também que apoiam uma equipe nacional conjunta de investigação na região em que foram identificados os casos da doença. Foram enviados especialistas e equipamentos para reforçar a vigilância.

Leia também: África do Sul identifica primeiro caso de varíola dos macacos

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