Texto: Greice Luiz / Foto: Greice Luiz

 Greice Luiz, jornalista e uma das organizadoras do Turbantasso em Bauru, SP, relatou as suas impressões sobre o debate Solidão da Mulher Negra

A solidão da mulher negra inflama todos os dias. Sendo assim, é necessário promovermos movimentos afirmativos para fortalecer a nossa identidade. Se reunirmos uma dezena de mulheres negras de todas as gerações, certamente o histórico e experiências serão semelhantes, porque a nossa sociedade reproduz, realimenta e reforça os mesmos valores e condições em que a mulher negra deve permanecer na sociedade.

Há 128 anos a abolição foi o corte das correntes, o grito de liberdade, esperança, sonhos e ao mesmo tempo o medo do futuro incerto. Muitos escolheram permanecer na fazenda trabalhando, outros foram para o mundo lutar a sua tão sonhada liberdade, mas na verdade a princesa Isabel “determinou” a abolição e esqueceu-se de realizar um planejamento para acolher os negros que foram roubados da mãe África.

Você há de concordar que os negros foram trazidos da África em péssimas condições, foram escravizados, mortos e sofreram tortura de várias maneiras.

Como após a liberdade o Estado não tinha nenhum planejamento para reorganizar a sociedade? Após a abolição o correto seria que o Estado acolhesse esta população com moradias dignas, saúde, educação, profissão, enfim, uma estrutura que recebesse os negros, porque já haviam lhes roubado todo tipo de sorte. O mínimo seria este planejamento, mas como isto não aconteceu até os dias de hoje, a sociedade permanece estagnada quando o assunto é direitos iguais.

Foto3Se nesta época os negros recebessem tratamento digno, certamente não teríamos este grande número de favelas, falta de oportunidades e conflitos sociais como nos dias de hoje. Quando não existe investimento em educação, é obvio que todos lutam para sobreviver e neste caso a violência atinge a todos. Se lhes é negado o direto de ter escolas de qualidade, moradia, saúde, cultura, entre outros, o caos atingirá toda a sociedade e não adiantará apontar o dedo sobre aquele que vive à margem da sociedade. Fica claro que enquanto o país permanecer apático com estes problemas sociais, conservaremos a tortura psicológica que vaga pelo ar atingindo negros e não negros.

Neste caso a solidão da mulher negra atinge vários aspectos. Por exemplo, desde a infância a falta de representatividade nos brinquedos e contos de fadas (todas as personagens não negras possuem final feliz). Na escola, em período de ensino infantil, fundamental e médio a verdadeira história do negro no Brasil é excluída, a luta e vida de Zumbi, Luisa Mahin, Dandara, Carolina Maria de Jesus, André Rebouças, Cruz e Souza, Aqualtune, Mãe menininha dos Gantois, Tereza da Benguela entre vários heróis e heroínas que lutaram por justiça, igualdade e dignidade, não são informadas causando um abismo entre a identidade do negro e a sociedade.

Se mais da metade da população brasileira é negra, porque as oportunidades são diferentes? Porque a nossa verdadeira identidade não é valorizada?

A solidão é implacável no orfanato a espera de família que aceitem as doações. É injusta quando a maioria das meninas abandonadas pelo pai são negras. Quantos hospitais públicos as mulheres negras gestantes passam pelo processo da maternidade sem apoio do companheiro, quantas mulheres deixam de acreditar no amor. Neste caso, é interessante lembrar o quanto a nossa literatura brasileira reforça algumas atitudes machistas e racistas, incentivando algumas pessoas a enxergarem a mulher negra como objeto/amoroso, não tendo o cuidado de ama-la e muito menos valoriza-la.

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Auditório da Unesp, campus Bauru

Isto não vai muito longe. No passado a mulher negra era violentada pelos senhores, depois eram usadas como reprodutoras de maneira fria, automática e cruel. Se isto não bastasse, foi rotulada em sua sexualidade como mulher desregrada, indomável e animalizada. Era usada pelo senhor reduzida a objeto sexual e sofria com ataques cruéis de ciúmes das senhoras não negras. E se isto não bastasse, em algumas obras da literatura brasileira reproduziram o conceito de que mulher branca é pra casar, mulher “mulata” para fornicar e mulher preta para cozinhar.

Conseguimos a liberdade, mas as correntes invisíveis do machismo e do racismo permanecem até os dias de hoje. Se for pra citar obras de literatura brasileira que rotula as mulheres negras ficarei horas escrevendo. Passo o desafio: faça você mesmo a pesquisa e veja como a personagem da mulher negra era vista por quem escrevia as obras. No caso do Jorge Amado a personagem Gabriela é incapaz de respeitar as normas de um casamento, na obra de Monteiro Lobato a tia Anastácia é solteirona, negra e cozinheira. No livro O Cortiço de Aluísio de Azevedo, a personagem negra Rita Baiana seduz o Português Jerônimo que tem uma vida exemplar até conhece-la. A outra personagem negra é Bertoleza, que vive nas condições de amante sendo excluída por não fazer parte da ascensão social e matrimonial. Ela então se suicida e deixa o caminho livre para João Romão.

Nestes exemplos observa que os escritores sempre colocam as condições das mulheres negras como sensuais, amantes, cozinheiras, resistente a trabalhos, enfim, rotulam o conceito da mulher negra sugerindo pra qual papel elas servem.

Infelizmente, este tipo de pensamento atinge homens e mulheres e fatalmente influenciam na hora de sermos representadas, na mídia, na indústria de beleza, mercado matrimonial, consumo, literatura, medicina, mercado de trabalho. Até os dias hoje a mulher negra sofre privações e diversos tipos de sofrimentos que precisam mais do que nunca sair da invisibilidade. A mulher negra não é vista como musa, heroína ou romântica, é uma grande passo você refletir e perceber que os fatores elencados aconteceram e permanecem no cotidiano, merecendo uma reflexão sendo um ponto de partida para novas realidades, novas histórias, contos e representatividade.

A receita ideal para conseguirmos eliminar a discriminação, o preconceito e o racismo, é o próprio individuo saber o conceito destas três palavras. O segundo ingrediente é este individuo conseguir formar professores na universidade que também possuem esta visão crítica, investindo em uma formação de qualidade para estes docentes. O terceiro ingrediente é levar para a sala de aula a verdadeira história que formou o país. Certamente teremos alunos que no futuro serão conscientes sobre a verdadeira história do país e ajudarão a prosperar esta realidade que nasceu nas mãos dos indígenas e cruelmente foi explorado e exploraram-se muitos povos causando este desiquilíbrio que atinge a todos, porque se você não é negro, têm primos, tios (as), pais, avós, ou como diz o Renan do Inquérito “É o Brasil da mistura, miscigenação, quem não tem sangue de preto na veia deve ter na mão”.

Texto e Foto: Divulgação

 Todas as apresentações são gratuitas

A Prefeitura de Niterói realiza, entre os dias 7 e 17 de abril, as primeiras atrações do projeto Encontros com África, que celebra o parentesco cultural entre o Brasil e diversos países do continente africano. Artistas angolanos, beninenses, sul-africanos e brasileiros farão apresentações de música, dança, teatro e debates. Os eventos acontecem no Teatro Municipal de Niterói, com entrada franca.

O projeto Encontros com África pretende estreitar os laços entre Niterói e as diversas culturas africanas que se mantém e se renovam, no constante movimento entre tradição e modernidade. “Neste momento em que o mundo inteiro observa o aumento da intolerância, promover a aproximação com um continente tão presente na nossa história é fundamental. Agradecemos a todos os que estão vindo, generosamente, apresentar sua arte em nossa cidade, dando início ao projeto”, afirma Marcos Gomes, coordenador geral dos Encontros com África.

No dia 7 de abril, o projeto Encontros com África iniciou de maneira oficial as atividades com a apresentação do grupo de jongo Folha de Amendoeira, em frente ao Teatro Municipal – o grupo apresenta-se preferencialmente em praças e ruas. No palco, a primeira atração internacional foi a Companhia de Dança Contemporânea de Angola. Também houve o lançamento do site Malungo eu, que reúne informações atualizadas sobre artes africanas e que facilita encontros e intercâmbios virtuais entre artistas e públicos dos dois lados do Atlântico.

Com perfil colaborativo, o site tem atualizações constantes e também divulga outras ações e atividades do projeto durante o ano.

CulturaAfroBrasileira2 Apresentações visam recordar e estreitar os laços entre Brasil e África

Primeira semana 7 a 10 abril

Na quinta-feira, 7 de abril, às 18h30, o grupo niteroiense Jongo Folha de Amendoeira abriu a programação fazendo uma apresentação na calçada em frente ao Teatro Municipal. Após a cerimônia de lançamento do site, marcada para as 19h, subiu no palco a Companhia de Dança Contemporânea de Angola, um dos mais importantes grupos de dança africanos. O espetáculo escolhido para a apresentação em Niterói, “Mpemba Nyi Mukundu”, inspirou-se em um conto angolano e utilizou projeções e outras tecnologias. A CDC voltou ao palco do Teatro Municipal João Caetano na sexta-feira, dia 8.

No sábado e domingo, 9 e 10, as atrações são o músico niteroiense Elias Rosa, com o espetáculo “Vida de Vassoureiro”, em que narra causos, superstições e tradições brasileiras; e o cantor beninense John Arcadius, que mostra seu trabalho mais recente, “Vaudou-Mahi”, uma combinação de elementos africanos e jazzísticos.

Segunda semana 13-17 abril

Entre 13 e 17 de abril, Encontros com África dedica-se a Angola. A Fundação Sindika Dokolo realiza em Niterói parte da III Trienal de Luanda, que tem como tema: “Da utopia à realidade: da escravidão ao apartheid”. Na quarta-feira, dia 13, acontece o Fórum sobre Cultura Angolana abordando literatura, artes visuais e música.

Na quinta, 14 de abril, o grupo teatral Elinga apresenta a peça “Laços de Sangue”, do autor sul-africano Athol Fugard. Sucesso internacional, a obra apresenta uma metáfora da segregação racial então vigente na África do Sul: em cena, dois irmãos, Zacarias, de pele negra, e Morris, de pele mais clara, filhos da mesma mãe, partilham um modesto quarto num subúrbio pobre de uma cidade sul-africana no tempo do Apartheid; a diferença de suas peles fez com que a mãe lhes desse uma educação diferente e vai determinar suas trajetória e também a relação entre eles.

CulturaAfroBrasileira3A música volta ao palco do Municipal na sexta-feira, dia 15 de abril, com o cantor e compositor Ndaka Yo Wiñi, jovem talento que mistura ritmos tradicionais e novas sonoridades. A cantora Anabela Aya faz uma participação especial neste show e também no de sábado, a cargo do cantor Gabriel Tchiema. Um dos mais populares músicos angolanos, Tchiema apresenta um show tão empolgante quanto sua música. Os DJs do grupo sul-africano “Obrigado” encerram esta série dos Encontros com África fazendo a abertura do show do rapper Emicida no domingo, 17 de abril, às 17h, na área externa do Teatro Popular Oscar Niemeyer.

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

Questionamentos feitos pela torcida do Corinthians  reforçam estigma de "time do povo" e motivam repressão policial dentro e fora dos estádios

No dia 31 de janeiro, a torcida do Corinthians fez um protesto em frente à Federação Paulista de Futebol. Na época, a principal organizada do clube, a Gaviões da Fiel, cumpria uma punição de 60 dias distante dos estádios, por acender sinalizadores na final da Copa São Paulo de Futebol Jr. contra o Flamengo. Os torcedores repudiaram a medida e se manifestaram contra o deputado estadual Fernando Capez (PSDB), o principal investigado de um escândalo de fraude nas merendas escolares.

Na partida válida pelo campeonato paulista contra o Capivariano, na Arena Corinthians, no dia 11 de fevereiro, três faixas foram estendidas com novos questionamentos. Dessa vez os escritos atacavam o monopólio midiático da rede Globo e exigiam que a diretoria divulgasse as contas da construção do estádio do clube.

TorcidaCorinthians Torcida do Corinthians é a maior do sudeste

As principais pautas dos corintianos têm sido as contas do estádio, o controle do futebol pela Globo, a Federação Paulista de Futebol (FPF), a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o roubo das merendas escolares.

A Polícia Civil e o Ministério Público Estadual estão na 2° fase das investigações da Máfia da Merenda (Operação Alba Branca). A suspeita é de que 22 cidades paulistas estejam envolvidas no caso. Mesmo com o andamento da apuração do caso, não há previsão para que a alimentação nas escolas se regularize.

O principal investigado é o Deputado Estadual Fernando Capez (PSDB). O político está na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, ALESP, desde 2006 e em 2014 foi o candidato mais bem votado. A sua principal bandeira sempre foi o combate às organizadas. Capez já conseguiu ações para proibir a entrada das uniformizadas nos estádios e chegou a fechar a Mancha Verde, principal agremiação do Palmeiras, depois de uma briga com são-paulinos em 1995.

Conceição Lourenço, jornalista e vencedora da medalha Theodosina Ribeiro, na Assembleia Legislativa de São Paulo, comenta que “quem comanda a máfia da merenda é o deputado Capez, que sonha acabar com as torcidas organizadas e conseguiu impedir a entrada das organizadas nos estádios na capital. A organizada quer o fígado dele”.

Histórico

Os corintianos foram os primeiros entre os grandes brasileiros a se manifestar de maneira sistemática contra o roubo das merendas e outras questões de interesse popular. As exceções foram as manifestações da torcida do Santos no clássico contra o Corinthians e do São Paulo, na partida desta terça-feira, pela Libertadores da América. O vanguardismo dos corintianos em defender os interesses populares alimentam o estigma do clube de “o time do povo”.

Juarez Xavier, coordenador geral do núcleo negro da UNESP para pesquisa e extensão, NUPE, afirma que em 1910, data de fundação do clube, a população negra vivia o seu período mais duro na cidade, entre 1870 e 1930. Na mesma época, as organizações esportivas tinham ou marcas étnicas, Palestra Itália, ou de classe, São Paulo da Floresta ligado à elite. Desde então há uma forte identificação entre o Corinthians e a população pobre e negra.

NegritudeCorinthians Torcida do Corinthians tem presença marcante da população negra

Juarez Xavier lembra que “na periferia da zona Norte de S. Paulo, Vila Mazzei, onde nasci e fiquei parte da minha adolescência, os jovens negros eram corintianos [na maior parte] e santistas [os boleros]. Os torcedores palmeirenses eram ligados à colônia e a torcida são paulina era insignificante”.

A relação com a negritude se fortalece quando o clube adota Dona Eliza, mulher negra e empregada doméstica, como torcedora símbolo do clube. A imagem de Dona Eliza faz o time de base popular e operária estreitar o seu envolvimento com a comunidade negra. “Minha mãe e minhas tias [todas empregadas domésticas] eram/são corintianas fanáticas, muito em razão dessa origem e dessas relações: ele era, hoje menos, o time identificado com empregados subalternos, pobres e moradores das periferias, situação em que se encontravam a maioria das negras e negros”, recorda Juarez Xavier.


Para Alex Minduin, membro da Gaviões da Fiel e vice-presidente da Associação das Torcidas Organizadas, Anatorg, é natural que haja uma identificação entre a população negra e o clube pelo fato da maior parte da sua torcida vir de regiões periféricas ou classe média. Ele recorda porem que o Corinthians ultrapassa todas as fronteiras, inclusive as raciais. “O Corinthians é o time do povo e é o time da nação brasileira, que aglutina negros, brancos, mestiços, orientais, que aglutina toda e qualquer tendência religiosa. Tem o católico, tem o evangélico, tem o protestante, tem o espirita, tem o candomblecista, o umbandista. O Corinthians não é só o time dos negros, ou dos pretos, é o time de uma nação inteira”.

Quebra de paradigmas

Charles Miller trouxe o futebol para a capital paulista e fundou o São Paulo Atletic Club, SPAC, em 1888. Naquele período, o esporte era exclusividade da elite e os principais clubes da época tinham seus torcedores e jogadores provenientes das classes sociais mais abastadas.

O Corinthians foge dessa lógica e é fundado em um bairro operário, Bom Retiro, onde a indústria da tecelagem foi muito presente até a década de 1980. Alex afirma que, mais do que dar espaço para a negritude na arquibancada e nas quatro linhas, o Corinthians abriu o clube para outros cargos e posições. “O Corinthians na verdade foi o clube que quebrou uma série de paradigmas existentes na nossa sociedade ao dar espaço para uma parcela da população negra, não só de se expressar nas arquibancadas, mas também compor os quadros técnicos, administrativos, gerenciais do clube”.

Gaviões da Fiel

A principal torcida organizada do Corinthians surge com um gene reivindicador, como defini Alex Minduin, e com o objetivo de romper tabus sociais. O grupo nasce em 1° de julho de 1969 para exigir a saída de um presidente, tido como ditador, Wadih Helu. Ele se utilizou do clube para ser Deputado Estadual, apoiar a ditadura militar e o general Geisel.

Alex acredita que o questionamento político da torcida faz a Gaviões seguir os passos do clube: quebrar paradigmas sociais. No dia 9 de março de 2014, a Gaviões da Fiel levantou uma bandeira no estádio se posicionando contra o racismo. “Eu creio que quando a Gaviões coloca uma faixa no estádio pedindo o fim do racismo ou contrária ao racismo, na verdade ela está colocando o anseio de boa parte, senão a grande maioria, da nossa sociedade. A Gaviões é uma torcida que coloca o dedo na ferida”.

Biro Biro, ídolo do time nos anos 1980, exalta a postura dos corintianos, mas acredita que “não só a torcida do Corinthians, mas qualquer ser humano decente tem que se posicionar contra esses casos, em especial contra o racismo”.

Um dos períodos políticos mais sombrios do país foi a ditadura militar, que vigorou de 1964 a 1985. É nesse momento em que muitas torcidas organizadas do clube são criadas e se tornam um importante espaço para a manifestação política da juventude. Juarez Xavier afirma que “algumas nascem com forte componente político. Outras vão se politizando ao longo dos anos, em razão da multiplicação de enfrentamento de uma torcida: políticos no interior do clube, com as forças politicas vivas da cidade, com o ordenamento legal e político e com as estruturas de poder políticas nos territórios urbanos”.

Defesa dos interesses populares

No ano de 1983, o time do Corinthians de Wladimir e Sócrates abriu uma faixa em pleno Morumbi lotado, durante o regime ditatorial do general Figueiredo, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita a todos os presos políticos do país.

Esse foi apenas mais um dos capítulos da história corintiana de defesa dos interesses populares. Alex Minduin recorda que “a torcida do Corinthians foi uma das primeiras a colocar na arquibancada, no final da década de 30, década de 40, uma faixa sobre o direito da mulher votar. Ela foi também uma das torcidas que apoiou a reforma e as constituições na CLT”. Corintianos e integrantes da Gaviões da Fiel participaram também da campanha das Diretas Já e do processo de redemocratização do país.

Torcida corintiana pede anistia ampla, geral e irrestrita a todos os presos políticos Torcida corintiana pede anistia ampla, geral e irrestrita a todos os presos políticos


Repressão

Desde que começou a se manifestar contra o roubo das merendas, preço dos ingressos, CBF, Federação Paulista, conta dos estádios e o monopólio da rede globo, a torcida corintiana e em especial a Gaviões da Fiel tem sido durante reprimida.

Jefferson Anikulapo, Analista de Implantação, esteve presente no jogo entre o Corinthians e o Linense. Ele relata que, ao final da partida, a polícia começou a agredir todos os torcedores até a entrada do metrô Itaquera. “Desde quando começaram as manifestações da Gaviões, a Polícia Militar já se porta de forma mais agressiva. Assim que foram levantadas as faixas, a PM já se posicionou em frente à torcida e, normalmente, eles esperam acabar o jogo para agir”. 

Contra o Cerro Porteño, jogo válido pela Libertadores da América, a história foi a mesma: novos protestos e mais repressão militar.



Na tarde da sexta-feira do dia 1 de Abril, a polícia civil e militar invadiu a quadra da Gaviões da Fiel. Apesar de não ter o motivo específico para a intervenção, Alex Minduin pensa que essa é uma reação às manifestações feitas pela Gaviões. “A presença policial dentro de qualquer instituição deve ser justificada, fato que não ocorreu. Depois que uma instituição se propõe a lutar pelos seus direitos, ela tem total ciência que tal ação sofrerá uma ação contrária. Nesse caso, os Gaviões da Fiel sofreram uma investida no sentido de inibir uma ação tão louvável que ele vem fazendo pra cobrar do governo do Estado e seus deputados uma apuração sobre o processo de desvio de dinheiro público”.

Alex completa e expõe que o diálogo dentro da Gaviões da Fiel deve se intensificar e que as manifestações não devem parar. “Penso que eles não devem parar, mas sim, conscientizar ainda mais os seus associados sobre esse momento tão delicado que passa o Estado de São Paulo e o seu governo que está à frente a mais de 28 anos”.

O ser corintiano

Todo esse conjunto cria a especificidade do Sport Club Corinthians Paulista e da sua torcida. Alex Minduin define o corintiano como aquele a favor da justiça social e contrário ao preconceito. “Isso é ser Corinthians. Isso é amor pelo Corinthians. É uma filosofia de vida. Já dizia um jogador que é um estado de espírito. O Corinthians é a própria poesia estabelecida na prática”.

Juarez destaca que em muitos clubes existem núcleos políticos organizados, mas que a história do clube e a sua relação com a torcida são únicas. “Como disse o corintiano Washington Olivetto, ‘os times têm torcidas, mas as torcida corintiana tem um time’. É uma inversão! Por isso, única! Oxalá, num futuro próximo, as torcidas se tornem referências políticas da juventude, para a consolidação da democracia no país, como reivindicado pela Democracia Corintiana, num passado recente”.

Biro Biro prefere enaltecer a singularidade da torcida do clube nas arquibancadas. “No meu modo de ver, todas as torcidas cresceram muito, mas a do Corinthians continua torcendo com paixão, com o coração, com a alma. E vai Corinthians!”.

Corinthians negritude Para Alex Minduin, a torcida corintiana nasceu com o gene contestador

Machismo e homofobia

Apesar da intensa luta protagonizada pela torcida do clube em defesa dos interesses populares e de grande repúdio a qualquer ato de racismo, o machismo e a homofobia são uma realidade.

Corinthians - ManifestoConceição Lourenço repudia e não enxerga graça em piadas que associem o São Paulo e a homoafetividade. “Os programas de humor usam isso a favor e as pessoas riem do Seu Peru, do Zacarias, Pit Bicha etc. Os são paulinos são chamados de bambis. Veja que ignorância: Bambi é o veado da Disney. A palavra viado (para gay) vem de transviado, nada a ver. O São Paulo deveria usar um veadinho de mascote como fez o Palmeiras com o porco”.

Durante os jogos do clube, assim como acontece nas partidas dos demais times, ofensas machistas são corriqueiras, como associar a fraqueza de uma finalização ao chute de uma mulher, entre outras. Conceição Lourenço completa e diz que “o homem brasileiro é homofóbico, xenófobo, missogenco (não confia em mulher). Já comandei homens, é bem difícil, ainda mais sendo negra. Tem de falar grosso”.

Apesar da continuidade das ofensas, em 12 de setembro de 2014, o clube emitiu nota oficial repudiando a homofobia e clamando pelo fim do grito de “bicha”, quando o goleiro adversário cobrar o tiro de meta. “Aqui não há, e não pode haver, homofobia. Pelo fim do grito de ‘bicha’ no tiro de meta do goleiro adversário. Porque a homofobia, além de ir contra o princípio de igualdade que está no DNA corintiano, ainda pode prejudicar o Corinthians. Aqui é Corinthians!”, diz a nota.

Violência nos estádios

O histórico de violência nos estádios de futebol é uma realidade brasileira. No clássico entre Palmeiras x Corinthians disputado no dia 3 de Abril, ambas torcidas protagonizaram cenas de barbárie. Além de muitos feridos, uma pessoa foi morta.

O Secretário de Segurança Pública do estado, Alexandre Moraes, anunciou que até o final de 2016 os clássicos em São Paulo terão torcida única, a do clube mandante e que as organizadas estão proibidas de entrar nos estádios com faixas, ou instrumentos. A partir de maio, os clubes serão proibidos de repassar ingressos às organizadas.

Em nota oficial, a Gaviões da Fiel coloca-se contra a violência nos estádios e faz críticas ao poder público, por responsabilizar as organizadas por um problema da sociedade: a violência. A torcida questiona também a invasão arbitrária a sua sede no dia 1 de Abril e à vontade do Estado de proibir a entrada das organizadas no atual momento político. “Além disso, causa estranheza o fato de tal cruzada repentina pelo fim das organizadas vir "coincidentemente" após meses de intermináveis protestos por parte dos Gaviões da Fiel contra alicerces conservadores da sociedade, não habituados com a contestação - como FPF, CBF, Rede Globo, dirigentes do Corinthians e o Deputado Fernando Capez, ex-promotor e um dos investigados no esquema das Merendas”.

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