Texto: Angela Davis / Tradução: Jaqueline Conceição / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida

Poesia, liberdade e revolução: o legado de Erika Huggins para a luta das mulheres negras no mundo

O texto a seguir foi extraído de uma das edições do jornal quinzenal produzido pelo Partido dos Panteras Negras nos Estados Unidos. Trata-se de uma apresentação do livro de poesias bibliograficas da militante negra Erika Huggins.

O texto foi escrito por Angela Davis e expressa toda a beleza, a singularidade, a força e a vivacidade das mulheres negras, que a partir de suas experiências pessoais, buscavam construir um mundo livre de opressão, seja de raça, seja de genero ou de classe.

As contribuições trazidas, em forma de poesia por Erika, no livro intitulado “Insigths and poems”, foi fundamental para o inicio da sistematização da luta das mulheres negras dentro do campo do feminismo.

O texto escrito por Angela Davis, no final da primavera de 1970, sobre sua camarada de luta Erika Huggins, é um brinde para nossos sentidos e reforçam a certeza de que sem amor, não pode haver luta.

Angela Davis apresenta o livro da camarada Erika Huggins
Jornal do Partido dos Panteras Negras
Edição de 26 de Maio de 1970 – Los Angeles/Califórnia – EUA

Tradução e revisão: Jaqueline Conceição da Silva (Mestra em Educação: História, Política, Sociedade pela PUC-SP, Articuladora e Professora pelo Coletivo DI Jejê).

Jornal Texto Erika Huggins

Ericka é uma revolucionária. Para muitos que devem contar com as fantasias elaboradas pelos meios de comunicação, onde se conta que um revolucionário é um ser humano sem paixão, que pouco se importa com a humanidade e está se esforçando para implementar objetivos de poderes e dominação. Para os meios de comunicação, controlados pela burguesia, a vida de um revolucionário ou uma revolucionária seria totalmente incompatível com um amor humano multi-dimensional e com a compaixão; assim, o amor passou a ser visto como algo restrito aos mundos irreais do pacifista romântico, sonhador utópico ou mulher / homem apaixonado.

Mas, a beleza e humanidade da poesia de Ericka nos ensina exatamente o contrário. Sua poesia eleva a vida, o amor e a revolução para o domínio da arte, sem nunca os encerrando em um reino estético impenetrável. Como arte, ele pode ter um forte impacto sobre o mundo real da pobreza, do racismo, da alienação que já foi poeticamente transformado.

A publicação destes poemas é singularmente importante, não só porque eles transmitem a essência de uma mulher negra, mas também porque a imagem estereotipada do revolucionário é um golpe significativo nestas páginas. Cerca de quatro anos se passaram desde que eu conheci Ericka, durante um período de pico das atividades no Movimento de Libertação Negra. Mais tarde, eu trabalhava em uma base com a unidade de Los Angeles do Partido dos Panteras Negras, e sua liderança foi fundamental: ajudou o impulso de um coletivo em busca de liberdade. Eu posso vê-la agora: seu corpo em crescimento, com o bebê em sua barriga, o escritório central pulsando com sua presença. (O escritório L. A. mais tarde foi demolido durante uma batida policial fascista). Ericka sempre recebia novas irmãs e irmãos que desejavam unir-se em direção à libertação, amor e solidariedade.

Alguém poderia pensar que as pessoas negras, tendo crescido sob influências opressivas dos brancos americanos, teriam se tornado incapazes de expressar sentimentos de afeto e amor para com aqueles que supostamente são estranhos. Mais Ericka tinha uma maneira de se relacionar com outras pessoas e, especialmente, os que ainda não faziam parte do Partido dos Panteras Negras, que quase poderia trazer lágrimas aos seus olhos: lágrimas ao mesmo tempo felicidade e dor - felicidade por causa das ligações coletivas fortes que ela estava criando e de dor, porque cada vez que sentiamos o amor em nosso ser, lembrávamos do quanto ainda precisávamos lutar para romper com o que o racismo, a exploração, o machismo e a violência, nos legou como herança.

Ericka sempre foi incisiva e defendia ferozmente as nossas aspirações para a Libertação dos pretos e das pretas. Ela discutia com muito amor sobre os processos de organização revolucionário, que os oprimidos do mundo todo, vêem travanado em seus países. Ao fazer isso, ela nunca foi fria e manipuladora, na forma como o opressor nos significa com seus estereótipos propagandísticas. Ericka estendeu a mão para os outros; fazendo com que esses movimentos políticos assumissem imediatamente intensos contornos pessoais. O pessoal não diminuiu o impacto da política, pelo contrário, deu novas dimensões, novas faíscas de vida a um movimento cujo sucesso depende muito da profundidade e da solidariedade humana para anima-lo. Quando eu passei um breve período trabalhando e viajando em Cuba, a beleza indescritível das pessoas lá, o amor que os soldados emanam em conjunto nos esforços comuns para o socialismo evocou em mim memórias de Ericka.

Naquela época, ela foi trancada na prisão Niantic, onde esrceveu muitos dos poemas contidos no presente volume. A partir do momento que conheci Ericka, ficou claro para mim que seu compromisso era autêntico e total. O mesmo deve ser dito de outros excelentes revolucionários negros desta era, que foram brutalmente arrancados do seu povo. Refiro-me a George Lester Jackson, que amou e lutou para "todos os inocentes." O amor e a luta eram os únicos, mas infinitamente ricos sentidos da existência de George, expressando-se em sua convincente defesa literária dos oprimidos. Grande parte de George agora vive em Ericka.

Ericka passou mais de dois anos de prisão sem direito à fiança, a espera de um julgamento cujo resultado revelaria a retaliação política e a repressão inerente à acusação de si mesma e Bobby Seale.

Seus poemas revelam uma miríade de experiências de vida na prisão e são uma crítica feroz e persuasiva sobre o impacto especial do sistema penal sobre as mulheres. Nos últimos meses, muitos episódios cruciais na continuidade da libertação se desenrolaram em torno de prisões. Estes incidentes têm incorporado a intensidade particular que flui das características brutais do próprio sistema prisional.

Em 07 de agosto de 1970, prisioneiros se revoltaram numa convincente necessidade de expor e contestar a opressão e a repressão, tidas como a rotina "normal" da vida na prisão.

Em 21 de agosto de 1971, George Jackson, nosso líder, foi finalmente atingido por aqueles que tinham implacavelmente o perseguido e os ideais revolucionários que ele representava e eram transmitidos através de seus escritos e prática. Outros revolucionários em San Quentin foram indiciados. Dias depois, a penitenciária de Attica irrompeu numa revolta, como que para provar que a repressão na prisão não poderia desmontar e destruir os desejos e os esforços para quebrar as correntes da falta de liberdade.

Em meio às agitações e explosões de tensões e contradições nas prisões em todo o país, as prisões das mulheres e os problemas específicos das mulheres presas são ainda largamente ignorados. Neste contexto, a importância da poesia de Ericka adquire outra dimensão.

Muitos de seus poemas estão se movendo, evocando aspectos das realidades visíveis, bem como aqueles que são sutis e invisíveis, que é a realidade das mulheres na prisão, tornando a opressão consciente. Assim devemos nos esforçar cada vez mais para combater e transfigurar essa realidade de dor e sofrimento. A canção do Coletivo Sisterlove evoca a solidariedade fraternal, o caminho comum para a consciência e, afiado a partir das vissicitudes de cativeiro, ressignifica suas motivações e práticas do amor e luta. As mulheres estão quebrando as correntes. Ericka é uma mulher presa. Ericka é uma mulher negra.

Para todos os clichês e mitos através dos quais nós, mulheres negras, somos intensamente condicionadas e duas vezes mais oprimidas, Ericka e seus poemas são uma desmistificação da nossa invisibilidade. Tais clichês foram convocados para desacreditar, mas os transformamos numa força incrível com a qual as mulheres negras têm de se contrapor, que é o sofrimento e a opressão interminável. Para esta força e realidade, os poemas de Ericka são um testemunho incontestável. Eles fornecem vislumbres marcantes em uma viagem dolorosa: o assassinato de Jon, seu marido camarada, quando Mai, sua filha, tinha apenas algumas semanas de idade; a prisão de Ericka e sua vida de dois anos no cárcere.

Esta dor, a dor da escrava, de Rosalee Ingram, de Gist Norma, das mulheres pretas presas, de mulheres negras em todos os lugares, é repetidamente dita como uma força cada vez mais indomável. Este é o processo em que a resistência em seu mais alto nível está enraizada. Esta é a experiência exemplar de mulheres negras, o grupo mais oprimido de cidadãos norte americanos. Os poemas de Ericka atestam fontes profundas e poderosas de energia, amor e orientação revolucionária que, totalmente liberada, certamente podem começar a quebrar a órbita de opressão.

 Serviço:

O Coletivo Cultural Dijejê oferece curso de formação sobre os Panteras Negras. Essa e outras obras fazem parte da bibliografia do curso.

As incrições podem ser feitas aqui. Para mais informações sobre o curso, leia a matéria do Alma Preta.

Entrevista: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

1 – Como foi o processo de construção da sua identidade, bicha preta trans?

Eu cresci sob uma educação muito religiosa, sob os preceitos e normas das Testemunhas de Jeová. E quando eu fui desassociada, por ser vista saindo com roupas ditas femininas, me perguntaram se eu queria ajuda com isso. E eu disse que não. Acho que a partir desse momento eu tomei pra mim o bastião de decisão do meu próprio corpo. Como se, então, eu tivesse experimentado do fruto da árvore do conhecimento, do que é bom e do que é mau. E então eu mesma tomaria e escolheria quem eu seria dali pra frente.

A partir desse dia eu comecei a fazer aulas de dança e teatro e a vivenciar meu corpo enquanto movimentos e experiências que até então me eram negadas. A minha sexualidade me era proibida. Passei primeiro a ter um corpo, com diversas possibilidades de movimento e relação que eu estava descobrindo naquele momento. Mas quando uma amiga, que estava se reconhecendo travesti naquele período, me disse que não sabíamos o que significava 'se olhar no espelho todos os dias, e ter certeza de que o que tá sendo refletido não é você'; nesse dia algo em mim se transformou.

Então eu passei a experimentar quantas mais eu poderia ser. Quantas de mim eu estava negando, pra que se refletisse no espelho a imagem do "homem", feito à imagem e semelhança de deus. E a partir daquele dia eu passei a experimentar outras possibilidades estéticas. Dentro e, principalmente, fora da sala de ensaio, questionando as normas de um suposto corpo neutro, no teatro, e nas ruas, sob os olhares de vigilantes do gênero. E a cada dia eu sinto que fui me apropriando mais do meu corpo, do meu contexto, me reconhecendo, bicha, preta, trans, transitória, nem homem, nem mulher, nem ator, nem atriz, atroz, roteirista de minha própria história, protagonista da minha vida. Sem mais tentar alcançar um corpo ideal que não era eu, mas caminhando comigo, nesse corpo inacabado, com fronteiras e limites não tão fixos.

2- Qual é o seu espaço e qual é o espaço, de maneira geral, das pessoas trans nos diversos movimentos sociais (negro, feminista, entre outros)?

Acredito que o meu espaço, assim como de todas as outras pessoas trans, deve ser participativo. Temos que nos fazer vistas e ouvidas. Temos de trazer as nossas existências e pautas à tona. Se até agora nossas mortes não valiam a pena nem de serem choradas, hoje nossas vidas têm de ser levadas em conta. Em todos os espaços, e principalmente estes de participação social.

Linn da quebrada

3- O povo negro é extremamente marginalizado socialmente. Quais são as suas expectativas diante do avanço do pensamento e da prática conservadora?

Eu sinto que estamos no meio de um processo. Para que as mudanças realmente se efetivem, temos que invadir todos os espaços. Temos que falar sobre nossas histórias, de estar nos filmes, na música, nas mídias. Temos que produzir conhecimento. Destruir esses velhos mitos que nos condenam a determinados espaços e posições. Temos de criar novos mitos, formar redes, conexões e assim nos proteger, fortalecer e ganhar espaço. Porque realmente somos existências perigosas, porque colocamos em risco toda a fragilidade desse sistema. Mas para isso precisamos estar juntas e saber pra onde estamos indo, sabendo que vão tentar nos brecar. Precisamos ter e estar nos meios de produção, e não permitir que nossas histórias e existências sejam apagadas.

4- Como você enfrenta todas essas violências sociais com a sua música?

Eu sinto que desde que coloquei meu corpo em evidência pra mim mesma, seja no teatro, na performance ou na música, estas são formas de enfrentar toda essa violência. Pois na maioria das vezes a violência começa em casa, com a família, na escola, na igreja, nas ruas, no mercado de trabalho. E quando eu decido trabalhar, ou melhor, atuar minha existência nesses espaços, essa se torna minha arma, e também minha fragilidade. É tudo que eu tenho, meu corpo, com toda sua potência. Então, independente de onde, eu preciso existir, resistir, enfrentar e afrontar essas violências que nos apagam. E na música eu encontrei esse espaço: de ser ouvida por mais gente, de conectar pessoas com histórias muito parecidas, e assim saber que não estamos sozinhas nessa.

5- Quais expectativas você tem para a sua carreira artística?

Sendo muito sincera, eu quero conseguir trabalhar. Quero conseguir fazer isso que venho fazendo em outros espaços. Quero ser ouvida, para então pensar em onde ir. Esse lance pra mim não é mero jogo de aparências. É questão de sobrevivência, da minha existência estética, física e financeira. É questão de sobreviência para muitas outras como eu, a escória, que pra conseguir sobreviver tem de abrir mão de si mesma. Então eu quero cantar para poder viver. Quero fazer muito barulho ainda.

LinnCantando

6- Você já foi lida pela sociedade como homem negro e agora é lida como bicha preta trans. Consegue perceber a diferença do racismo ligado aos diferentes gêneros?

Sim. Já fui lida como homem, e compulsoriamente ainda sou. Acho até que o fazem na tentativa de tirar o poder de decisão do meu próprio corpo, como se eu não tivesse autoridade suficiente para decidir quem eu sou.

E claro que percebo as diferenças do racismo ligadas ao gênero, principalmente porque durante o processo de feminilização do meu corpo, essas violências vieram ainda com mais força. Porque enquanto eu correspondia a um gay preto, a violência já se impunha, mas quando eu fui me tornando a bichinha preta, afeminada, parece que as pessoas não sentiam vergonha de demonstrar seu ódio. Parece que eu deveria me envergonhar de estar me aliando a esse lado da margem. Eu estava me tornando uma traidora. Não bastava ser preta, tinha que ser também afeminada. E isso ainda não acabou. Parece que quanto mais feminina eu me torno, quanto mais eu borro essas fronteiras pra mim, mais as violências se apontam.

Texto: Divulgação / Edição de Imagem: Pedro Borges

Local do debate é onde se concentra o acervo do Fundo Clóvis Moura

“Clóvis Moura e a Imprensa Negra no Brasil: jornalismo de resistência” é tema do Debate Centro de Documentação e Memória (CEDEM) que ocorre no próximo dia 10 de novembro de 2016, às 18h30, na Praça da Sé, 108 – 1º andar, próximo ao metrô Sé.

O tema vem sendo objeto de pesquisa de diversas áreas do conhecimento. Neste debate, pretende-se analisar a contribuição do sociólogo, historiador e jornalista Clóvis Moura (1925-2003), considerando que essa imprensa é secular no país e as aproximações desse autor com os periódicos perpassam diversas de suas obras, entre as quais a publicação em fac-simile do título Imprensa Negra, em 1984.

Busca-se, ainda, a compreensão da maneira pela qual o estudo do “jornalismo de resistência,” praticado por Moura, foi influenciado por seus compromissos e vinculações políticas, presentes no diálogo, entre intelectuais e ativistas, relativo à chamada Questão Negra no Brasil e ao enfrentamento do racismo e sua inserção na cultura política no século XX.

Participam do evento os professores Teresa Malatian, Cleber Santos Vieira e a historiadora Soraya Moura. Teresa é mestre em História pela PUC-SP, doutora em História pela USP e livre-docente em Historiografia. Professora Titular aposentada da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp, Câmpus de Franca, onde desenvolve trabalho no Programa de Pós-Graduação em História e Cultura. Tem realizado pesquisas na área de História política, com ênfase em biografias e temas ligados a história dos negros no Brasil.

Vieira é mestre em História pela Unesp, Câmpus de Franca e doutor em Educação pela USP. É professor adjunto da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp, onde atua no Departamento de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência. É membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-Unifesp).

Filha de Clóvis Moura, Soraya é graduada em História pela USP e proprietária da empresa Armazém de História Projetos Culturais. Há mais de vinte anos atua na área de pesquisa histórica e organização de acervos institucionais.

A condução do debate estará a cargo da historiógrafa do CEDEM Solange Souza. Graduada em História pela USP, possui experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em Arquivologia.

Serviço:

Clóvis Moura e a Imprensa Negra no Brasil: jornalismo de resistência Data e horário: 10/11/2016, 5ª feira às 18h30; Local: Praça da Sé, 108 – 1º andar (metrô Sé); Certificado de participação a ser retirado durante o evento - Duração: 2h30; Informações: (11) 3116–1701- Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Inscrições gratuitas: http://www.cedem.unesp.br/#!/form/ www.cedem.unesp.br / www.facebook.com/cedemunesp

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