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Em entrevista exclusiva, atriz e cantora reflete sobre as mais de cinco décadas de carreira artística, fala sobre o momento que o Brasil vive, e aconselha jovens artistasnegras a terem perseverança

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Vinicius Belo

Zezé Motta fez uma live no dia 25 de julho para comemorar o Dia Nacional da Mulher Negra e Dia de Tereza de Benguela, líder quilombola. Atriz e cantora, ela usou seu canal no YouTube para falar da vivência como uma mulher negra. Aos 76 anos, a pandemia impôs uma nova realidade para ela em vários aspectos. “Eu não tenho intimidade com a tecnologia. Acho que me acomodei. Como trabalho muito, eu tenho uma secretária que me ajuda. Mas, como ela está em home office, eu precisei vencer mais uma barreira. A live foi uma experiência maravilhosa”, conta.

Zezé conversou com o Alma Preta sobre o momento que o Brasil vive, em que a pauta antirracismo ganhou manchetes de jornais em escala nacional e internacional. A artista também fez um balanço da carreira artística de mais de cinco décadas. “Eu estava falando disso hoje, que assim como na Consciência Negra, não é mais só um dia, mais um mês inteiro. É tão importante falamos de racismo, desigualdade, que um dia é pouco, precisamos de mais tempo. Isso é uma conquista maravilhosa! Enquanto enfrentarmos esses problemas, eles precisam ser debatidos e combatidos”, destaca.
Zezé Motta. Credito Vinicius Belo 19Nascida no Rio de Janeiro, Maria José Motta de Oliveira ganhou destaque no mercado artistico na década de 1970. Para isso, ela teve que enfrentar as dificuldades de uma jovem no início de carreira e também houve as situações impostas pelo racismo, que podem limitar e vincular artistas negros a estereótipos. “Eu agradeço a Deus por conseguir realizar o meu sonho e me manter assim: pagando as minhas contas com o meu trabalho. No começo, me chamavam sempre para os mesmos papéis. Era abre a porta, fecha a porta, serve o café. Nada contra quem faz isso. Mas eu havia ganhado uma bolsa de estudo em um dos melhores cursos da época e eu ficava pensando que eu poderia explorar melhor isso”, recorda.

“Uma das piores coisas é que eram personagens sem pai, sem mãe, sem marido, sem filho, em que a casa era a da patroa, não tinham sequer roupa de passeio. Eu não queria ser só isso. Enfim, só posso agradecer por viver da arte há mais de 50 anos” analisa a artista, lembrando que uma vez foi homenageada por uma escola de samba e havia uma ala só com empregadas domésticas com várias cores de uniforme.

Zezé conta que foi aluna de Lélia Gonzalez, intelectual, feminista e antropóloga brasileira, na disciplina de Cultura Negra, com quem aprendeu que “não havia mais tempo para lamúrias, que era preciso arregaçar as mangas e fazer por nós mesmo”. Foi assim que ela se uniu a outros artistas, que lançaram juntos o Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan).

O objetivo era expandir a inserção dos artistas negros no mercado, uma vez que os autores, diretores, entre outros alegavam não conhecer. “A gente sempre via surgindo artistas brancos, mas os negros eram quase sempre os mesmos. Então, disponibilizávamos o catálogo com quase 500 nomes”, detalha a atriz e cantora. O projeto está paralisado por falta de patrocínio, mas há planos de reativação.

Ao longo das últimas décadas, Zezé acumulou mais de 40 projetos na TV, mais de 50 filmes e 14 discos gravados. Para quem quer trilhar a carreira artística, a atriz e cantora orienta que é preciso se manter firme, principalmente no caso de mulheres negras. “Eu gosto muito da palavra perseverança, porque no fim, é isso que faz com que não desistamos dos nossos sonhos”, define.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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