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Engenheiro mecânico de formação foi condenado a seis anos e oito meses de prisão; imagens levantam suspeita sobre ação da polícia durante o flagrante e família acredita se tratar de vingança

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

O comerciante Segun Adesina Ososami, de 43 anos, nasceu na Nigéria e está no Brasil desde 2004. No começo de 2019, ele discutiu com um segurança que revistava meninas negras dentro de uma galeria no centro de São Paulo em uma suposta busca por drogas. Na ocasião, Ososami, que tem um comércio dentro da galeria, interviu e disse que o segurança não tinha autoridade policial para revistar as meninas e que a ação dele se tratava de racismo. O segurança xingou o comerciante e ameaçou se vingar.

Em julho deste ano, policiais militares invadiram a loja do comerciante nigeriano, sem mandato judicial e fizeram uma busca no local. Pessoas que estavam circulando pela galeria e outros comerciantes começaram a filmar a operação. As imagens mostram um policial da Força Tática carregando nas costas uma mochila de pano estampado que pertencia ao comerciante e era onde ele guardava a carteira, chaves, carregador de celular e documentos pessoais, e por cima uma outra mochila preta que não era do comerciante. Na mesma operação, a polícia prendeu um outro homem que trabalhava na loja ao lado.

“Na delegacia, disseram que tinha drogas na mochila do meu marido. Eles entraram na loja e algemaram ele. Depois foram na loja do lado e pegaram o outro rapaz, um tablet, cadernos e dinheiro. A mochila do meu marido estava vazia até então. Os policiais ficaram parados por quase uma hora em um posto de gasolina antes de irem para a delegacia registrar o flagrante”, conta Maria*, esposa do comerciante.

No boletim de ocorrência feito no dia da prisão, os policiais afirmaram que haviam encontrado com Ososami 28 cigarros e 74 porções de maconha embaladas em trouxinhas escondidas dentro de uma caixa de comprimidos analgésicos. “É inconcebível que a quantidade de droga descrita por eles caiba dentro da caixa de remédios que pegaram na loja. Mesmo assim, o meu marido foi preso e condenado”, destaca Maria.

Ososami é engenheiro mecânico de formação e veio para o Brasil porque a empresa norueguesa em que trabalhava tinha negócios no país para a manutenção de motores de navios. Depois de um tempo, ele conheceu a esposa que é brasileira e abriu o comércio na galeria, onde trabalhava há 12 anos e tem uma grande concentração de imigrantes africanos.

Família acredita em vingança

A família acredita que a prisão de Segun tem relação com a discussão que teve com o segurança no início do ano passado. “Ele tem um coração muito bom. Na época, ele nem quis fazer a denúncia de racismo contra o segurança. Eu tive que insistir e ligar para o disque 100. Depois começaram a surgir boatos dando conta que meu marido tinha batido e matado policiais, que era uma pessoa perigosa. Tudo mentira”, conta a esposa.

O comerciante afirma que é inocente e foi condenado a seis anos e oito meses de prisão. A família abriu um processo na corregedoria acusando ilegalidade na operação. A investigação concluiu que havia indícios de irregularidade. “A corregedoria concluiu que tinha algo forjado no caso. Depois o processo foi encaminhado para o mesmo batalhão onde trabalham os policiais que prenderam o Segun”, lembra Maria.

A esposa do comerciante conta ainda que fez um depoimento de quase quatro horas no batalhão e que foi resumido em uma declaração de seis linhas. “Depois de um tempo, o processo foi arquivado sem nem considerar a avaliação da corregedoria e as provas dos vídeos”, detalha.

Um vídeo apresentado como prova pela defesa mostra que um policial chamado Paulo, durante a revista na loja, põe a mão no colete e tira uma substância embalada em saco plástico e, em seguida, coloca o objeto na cena do crime. A ação pode ser vista entre os segundos 36 e 41 do vídeo abaixo.

Durante o julgamento, o policial disse que colocou a mão no colete porque o celular tocou, mas ele desistiu de atender. No entanto, a imagem mostra o agente de segurança pública tirando algo de dentro do colete e colocando na cena.

A defesa do comerciante entrou com um pedido de recurso, que ainda não foi julgado. Dois pedidos de habeas corpus para que ele responda ao processo em liberdade foram negados. Na apelação, o advogado pede que seja revista a sentença que condenou o imigrante nigeriano.

O Alma Preta procurou a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado de São Paulo e a Polícia Militar e questionou sobre o vídeo que levanta a suspeita de ilegalidade na ação dos policiais e sobre a possibilidade de ter se tratado de uma vingança.

A Ouvidoria das Polícias de São Paulo informou que abrirá um procedimento para apurar o caso. A SSP, por sua vez, informou que o caso do policial suspeito de forjar o flagrante foi encaminhado para à Justiça Militar Estadual.

* O nome utilizado é fictício para preservar a identidade da fonte.

* Texto atualizado às 18h32 de 7 de agosto para inclusão da resposta da SSP.

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