Escolas não desfilam juntas no Grupo Especial há 12 anos; Para Claudia Alexandre, “sem elas não tem história, é como se a festa partisse de lugar nenhum”

Texto / Simone Freire | Imagem / Reprodução | Edição / Pedro Borges

Carregando, cada uma, importantes marcos da história do Carnaval paulistano, as escolas de samba Nenê de Vila Matilde, Vai Vai e Camisa Verde e Branco não desfilam juntas há cerca de 12 anos. Em 2020, elas irão disputar as duas vagas para voltar ao Grupo Especial do Carnaval de São Paulo.

Segundo a jornalista e pesquisadora Claudia Alexandre, que estuda o samba e as escolas de São Paulo há 30 anos, pela importância histórica que todas elas têm - mesmo antes do que chamou de “Carnaval espetáculo” que existe hoje em dia -, todas deveriam ter lugar especial no desfile.

O que devemos prestar atenção, diz ela, não é na disputa pelas duas vagas no grupo de acesso, mas no resgate do legado negro no carnaval, uma vez que as três escolas formavam territórios negros na cidade.

“Cada uma destas agremiações conta uma parte da história social do Carnaval paulistano e como o povo negro negociou sua presença nessa sociedade a partir do século XIX. Não dá pra falar em crescimento do Carnaval das Escolas de Samba de São Paulo sem a presença da história. Vai-Vai, Nenê e Camisa deviam ter lugar de honra nesta festa. Sem eles não têm história, é como se partisse de lugar nenhum”, diz.

Claudia explica que ao passo que a midiatização do carnaval na cidade acontecia, houve um processo de branqueamento, inclusive de de direções. Com o passar do tempo e a apropriação pela indústria cultural, se esqueceu que a história do carnaval começou com os negros em um contexto de desigualdade, repressão e perseguição à manifestações negras. “Ter um grupo de carnaval da rua era proibido porque tinha negro ali sambando”, explica.

Ela também lembra que as mulheres não podiam participar da festa nos primeiros anos dos cordões. Elas ficavam nos bastidores, eram muito importantes para a produção do carnaval, mas não podiam brincar nas ruas. Uma questão de machismo, diz ela, e uma questão de segurança, segundo justificavam alguns dirigentes de blocos. “A Lavapés é a primeira escola de samba da cidade fundada por uma mulher negra, Madrinha Eunice, em 1937”, conta a pesquisadora.

O negro não foi impedido de participar da festa, mas foi constantemente afastado. Hoje, as indústrias que sobrevivem do carnaval não priorizam a cultura popular que originou cada um dos produtos carnavalescos. O Carnaval se tornou uma das festas mais importantes do país, movimentando a economia, o mercado de trabalho e o turismo nacional e internacional.

Levantamento preliminar da São Paulo Turismo (SPTuris) mostra que os gastos dos foliões que curtiram o carnaval na capital, em 2017, cresceram 55% na comparação com a festa de 2016. Também houve um crescimento de 167,5% no número de turistas no Sambódromo e de 203% no carnaval de rua. Em 2018, a capital paulista teve a maior quantidade de desfiles da história. Foram 516 blocos em 556 desfiles por 300 trajetos diferentes.

“Há toda uma cadeia produtiva nessa festa cuja a arrecadação não se destina aos que fornecem ou forneceram a matéria-prima, nesse caso, os grupos tradicionais que estão sempre à margem das programações e dos palcos principais”, lamenta Claudia.

História

A Associação Cultural e Social Escola de Samba Mocidade Camisa Verde e Branco é descende do Grupo Carnavalesco Barra Funda, que data por volta de 1914, sendo o primeiro grupo carnavalesco negro organizado e fundado por Dionísio Barbosa.

Logo depois o cordão se transformou no Cordão Camisa Verde, Camisa Verde e Branco, e, já nas mãos de seu Inocêncio Thobias, se formou como escola de samba Mocidade Camisa Verde e Branco. Desde 1954 até hoje, a escola já foi campeã 14 vezes, incluindo os títulos em que dividiu i primeiro lugar na competição. Neste ano, seu samba enredo será “Ajayô: Carlinhos Brown, candomblés, tambores e batuques ancestrais”.

Também tradicional na cidade, o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Nenê de Vila Matilde foi fundado em 1949 por Alberto Alves da Silva, o Seu Nenê, e tem, ao todo, 11 títulos de campeão do carnaval. Até 2000 ela foi a escola com mais títulos do carnaval da capital paulista, fato este que corou a escola como "A Campeã do Século".

Em 2020, a escola levará para a passarela do Anhembi o samba enredo “O presente da Deusa e o brinde da Águia”, que contará a história da cerveja, desde sua origem na antiguidade até sua transformação em um símbolo da identidade brasileira.

O Grêmio Recreativo, Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai é uma escola de samba fundada por um grupo de notáveis sambistas no bairro do Bixiga, pertencente ao distrito da Bela Vista. É uma das maiores agremiações do Carnaval Brasileiro e a maior campeã do Carnaval de São Paulo com 15 títulos.

Em 2019, a agremiação levou para o Sambódromo o enredo: "Vai-Vai: o quilombo do futuro", discorrendo sobre o sofrimento, a resistência e o empoderamento dos negros com uma perspectiva utópica de re-cobrança do domínio tecnológico durante a história. A escola terminou na décima quarta posição e foi automaticamente rebaixada ao Grupo de Acesso pela primeira vez em 89 anos de história.

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