A população T é uma das mais vulneráveis do país; O Brasil é o que mais assassina pessoas trans no mundo

Texto / Simone Freire | Imagem / Rodrigo Bragaglia / Divulgação | Colaboração / Maria Clara Araújo*

Os episódios de discriminação e a situação de vulnerabilidade a qual a população transsexual no Brasil está inserida é fato conhecido pelo país, afinal, somos o país que mais assassina pessoas trans no mundo.

Segundo dados de 2016 da ONG Transgender Europe (TGEu), o Brasil matou ao menos 868 travestis e transexuais nos oito anos anteriores à publicação da pesquisa, o que o deixa, disparado, no topo do ranking de países com mais registros de homicídios de pessoas transgêneras.

Não à toa, a luta pela identidade de gênero é constante. Seja no campo da política institucional, seja no meio artístico, a atuação de mulheres trans e travestis têm tomado caminhos ainda mais significativos com o passar do tempo.

Para entender um pouco mais sobre o contexto ao qual a população T negra está inserida, elencamos algumas travestis e mulheres trans negras que têm transformado a sua realidade.

Mas, antes de entrarmos na lista, para quem tem muitas dúvidas sobre o que é a população T (transgênera, transexual e travesti), também deixamos aqui uma explicação didática da Daniela Andrade, analista de sistemas e ativista transfeminista pelos direitos e visibilidade. É só conferir! 

Agora, vamos à lista!

Paulete Furacão (BA)

A Paola Beatriz, conhecida como Paulete Furacão, tem sua trajetória na Bahia. Moradora de Amaralina, junto a amigos, em 2006, fundou a Associação Laleska de Caprid, em homenagem à transexual brutalmente assassinada dois anos antes na mesma região.

Da sua participação no Conselho Estadual de Proteção aos Direitos Humanos (CEPDH) no estado, em 2012, tornou-se a 1ª transexual a assumir um cargo em governo baiano ao assumir na Secretaria Estadual da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), a coordenação do Núcleo de Defesa dos Direitos da População LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros).

Keila Simpson (BA)

Também da Bahia, Keila Simpson é presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e coordenadora do Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT da Bahia. Foi a primeira travesti a ser eleita para presidir o Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de LGBT, um conselho de âmbito nacional.

Antiga militante da causa LGBT, foi e é influência na formação de novas lideranças que, atualmente, cumprem papel fundamental na condução de organizações. Em 2014 foi condecorada com o Prêmio Direitos Humanos, recebido das mãos da presidenta Dilma Rousseff.

Paula Beatriz Souza (SP)

De São Paulo, Paula Beatriz de Souza é a primeira mulher trans a ocupar o cargo de direção em uma escola pública do estado paulista. Ela está à frente da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Há quase 30 anos atuando na educação, desde criança sonhava em ser professora. Sua transição de gênero aconteceu enquanto já era diretora.

Fernanda Falcão (PE)

As condições da população LGBT presa é o foco de atuação de Fernanda Falcão, de Pernambuco. Técnica em Enfermagem e Química Industrial, na juventude foi presa duas vezes acusada de tráfico de drogas. Na última passagem pela prisão concluiu seu trabalho de conclusão de curso de Enfermagem sobre doenças negligenciadas no sistema prisional.

A partir daí, no final de 2012, ela e outros presos LGBT começaram uma mobilização para que o presídio de Igarassu construísse uma área específica para eles. Em 2013 foi inaugurada a primeira e, hoje, nove dos 23 presídios pernambucanos têm celas separadas para presos LGBT.

Fernanda ganhou a liberdade em 2017. Hoje é coordenadora de articulação política do Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo, o GTP+, primeira ONG do nordeste a cuidar de pessoas vivendo com o HIV, e viaja o país para discutir políticas públicas para LGBTs.

Fernanda de Moraes (SP)

Amazonense, Fernanda de Moraes, é radicada em São Paulo, onde decidiu morar desde 1999. Assistente social formada pela UNESP, é militante do movimento de travestis e mulheres transexuais e presidente do Instituto Aphroditte. Também é Iyalorixá.

Maria Clara de Sena (PE)

É a 1ª transexual do mundo a atuar no combate à tortura em prisões, integrando o Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura em Pernambuco, órgão ligado à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, recentemente desmantelado pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL). Em 2018, precisou de refugiar no Canadá por ter sido vítima de transfobia e racismo enquanto trabalhava no órgão.

Megg Rayana (PR)

É a 1ª doutora travesti e negra da Universidade Federal do Paraná. Seu trabalho teve o título “O Diabo em forma de gente: ( r ) existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação”.

No material ela fala sobre os desafios e preconceitos vividos por professores negros homossexuais no trabalho a partir da experiência de quatro professores de escolas estaduais: três do interior do Paraná e um do Rio de Janeiro.

Jaqueline Gomes de Jesus (RJ)

Jaqueline é pesquisadora, professora e atua na discussão de temas como saúde do trabalhador, gestão da diversidade, trabalho, identidade social e movimentos sociais, com ênfase em gênero e feminismo, orientação sexual e cor/raça.

É professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela Universidade de Brasília (UnB), onde foi assessora de Diversidade e Apoio aos Cotistas.

É pesquisadora-Líder do ODARA, Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade do IFRJ. Além disso, tem uma longa atuação em entidades e organizações como a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) e a Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP). Em 2016, recebeu o Prêmio Rio Sem Homofobia e, em 2017, a Medalha Chiquinha Gonzaga.

Valéria Houston (RS)

De Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, Valéria Houston tem atuação artística e na militância pelos direitos LGBT. Cantora, foi vencedora do Festival da Canção Francesa. Em 2016, ela foi homenageada com o Troféu Mulher Cidadã na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, como destaque na área da Cultura.

*Articuladora para Movimentos de Mulheres e LGBTQIA+ da Mandata Quilombo de Erica Malunguinho na Alesp.

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