Grupo musical e rapper questionam a falta de protagonismo negro em diversos setores na sociedade e a estrutura social racista em videoclipe; Marielle Franco é homenageada no projeto

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Foto / Divulgação

“Querem o talento dos pretos, mas não nos querem no comando”. É com essa frase que o grupo Stillo Radical e Buia Kalunga convidam o público a assistir ao clipe feito para a música “De Brisa” e deixam um lembrete a quem reproduz discurso e comportamento racista: sem os pretos, ninguém teria nada, nem mesmo o chão que pisa.

O beat e o roteiro, que são assinados pelo DJ Cortecertu, servem como base para narrativa permeada por suspense, na qual Marc Jay e DJ Márcio convidam Buia Kalunga para colocarem o status quo racista em xeque e mostrar que racismo não tem mais vez na sociedade. E a força da letra é um dos principais destaques da música e do videoclipe, o que foi ressaltado por Cortecertu.

“[A música] ‘De Brisa’ tem uma letra forte e bem elaborada, pois faz a junção da linguagem política dos versos de Buia Kalunga, no estilo Panteras Negras, com as rimas de rua de Marc Jay, rapper que mescla a revolta de diferentes personagens das favelas, do professor ao mano que entrou para o crime”, destaca o DJ e roteirista, ao falar sobre o uso da fumaça no videoclipe – o que não aparece por acaso. “A fumaça que paira no clipe inteiro é uma referência à indiferença e ao privilégio branco.”

Som, fúria e engajamento

Marc Jay enfatiza a desconstrução de clichês e conceitos socialmente equivocados relacionados à luta contra o racismo, que são difundidos de modo sistemático por setores hegemônicos da sociedade.

“Essa ideia de que racismo não existe, que não passa de mimimi, que os próprios pretos são preconceituosos, que não deveria ter cotas, e por aí vai… É dessa brisa que estamos falando. Chamamos o Buia para participar, pois, ao conhecer alguns de seus trabalhos, vimos que seu diálogo é muito próximo do nosso”, relata Marc Jay, sobre o conceito do videoclipe e a ideia central de “De Brisa”.

Coincidência ou não, a contestação ao racismo institucional, que é o ponto central do videoclipe, fez Kalunga identificar-se com o projeto e topar a parceria com o pessoal do Stillo Radical. “Senti a fúria negra e a vontade do revide na letra do Marc Jay. Este lance é um sentimento muito presente nos pretos daqui do Brasil, nos índios, nos povos não-brancos que foram colonizados. Em vários momentos na história houveram revoltas populares. Hoje não temos os grilhões de ferro nos pulsos, mas temos outros grilhões que precisamos quebrar”, relata o rapper, sobre o convite para o trabalho em conjunto.

Pela presença de Marielle

O trecho final do videoclipe de “De Brisa”, que foi gravado em um único dia, exibe entrevista feita com Marielle Franco na comunidade da Maré (RJ), sobre o panorama político da região e a respeito da própria trajetória sociopolítica. A inserção desse trecho se trata de relembrar o legado da ex-vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL, executada no dia 14. “Inserimos no final do clipe uma matéria da vereadora Marielle Franco, o que reforça nossa mensagem. Foi também uma forma de homenageá-la”, completa DJ Márcio.

Assista a seguir ao videoclipe de “De Brisa”, do grupo Stillo Radical com Buia Kalunga. 

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