Mais de 50 mil estiveram na Av. Paulista no Dia Internacional da Mulher; mulheres da periferia falam sobre suas pautas

Texto / Jéssica Moreira
Foto / Pedro Borges

O Ato do Dia Internacional da Mulher de 2019, na Av. Paulista (SP) na última sexta-feira, 8 de março, foi um aquecedor para o coração de tantas mulheres que estão vendo seus direitos indo para o ralo desde a chegada de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência.

Durante a manifestação, que reuniu cerca de 50 mil pessoas, mulheres entoaram gritos em memória à vereadora Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro em 14 de março de 2018; pediram a descriminalização do aborto; reforçaram suas reivindicações contra a reforma da previdência, assim como pelo fim do feminicídio no Brasil.

Com uma pluralidade extensa de vozes, a concentração começou no vão Livre do MASP e seguiu até a Praça Roosevelt. Com cartazes e bandeiras de mulheres negras, LGBTI+, indígenas, imigrantes e também mulheres independentes, uma pauta comum: a contrariedade com o governo Bolsonaro e seu conjunto de retrocessos.

Claudia Daora dos Santos, da Vila Guilherme, zona norte, é um exemplo. Com uma placa “Contra a Reforma da Previdência”, ela não integra nenhum movimento, mas acredita no feminismo como meio de unificação das mulheres.

Marcha das Mulheres corpo 1

Mulheres negras marcaram presença na manifestação do dia 8 de Março (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Feminicídio

Com uma camiseta roxa trazendo uma mulher de punho cerrado e as letras garrafais” “Mulheres da Esperança”, dona Josefa Gonçalves Leite é moradora da Ocupação Esperança, em Osasco (Grande SP). Atravessou a cidade para somar na luta pelos direitos das mulheres.

Para ela, estar presente é uma forma de dizer não à violência contra as mulheres, que se inicia principalmente dentro de casa. “Não podemos nunca esmorecer”, acrescentou, com seus olhos firmes.

A constatação de Josefa pode ser confirmada no Raio X do Feminicídio em SP, elaborado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo: 66% dos assassinatos de mulheres acontecem dentro do ambiente familiar.

E de acordo com o Atlas da Violência, em 2018, foram registradas 13 mortes violentas de mulheres por dia. Em 2016, 4.645 mulheres foram assassinadas no país, o que representa um aumento de 6,4% em dez anos.

Norma Claudina, 67, também não mediu esforços. Deixou a distância para trás e veio da Capela do Socorro (zona sul) até a Av. Paulista. Norma acredita que é preciso incentivar outras mulheres de sua região a também estarem presentes em mobilizações como esta.

“Eu acho que a mulher tem que estar sempre junto com a realidade de seu tempo e a luta não pode nunca parar, por mais difícil que pareça a realidade, não podemos parar. É aí que tem que lutar”.

Cárcere feminino

Com um olho no filho Téo e outro na faixa contra o encarceramento da população negra, Suzane Jardim, historiadora e militante pela abolição do cárcere, apontou a importância das mulheres negras no ato como símbolo de existência.

“Nós já realizamos uma crítica histórica ao 8 de março enquanto uma festa, uma comemoração, o que não representava a vida das mulheres negras como um todo. O que as mulheres negras estão fazendo nesta marcha é realmente disputar a narrativa’.

Em sua opinião, o discurso sobre o que é ser mulher é branco, elitista e exclui a história das mulheres negras. Por isso a importância de estarem ali, marcando uma contranarrativa. ‘E se o Feminismo, se a luta das mulheres não incluir essas narrativas enquanto prioridade, ele nunca vai ser completo”.

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Marcha das Mulheres Negras marcou presença durante a manifestação (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Suzane também ressaltou que o encarceramento no Brasil tem cor. De acordo com os dados do Infopen Mulheres, a maioria das mulheres em situação de cárcere no país é negra (68%), enquanto 31% são brancas e 1%, amarela.

“Nós temos que trazer esta pauta, pois nos últimos dez anos o encarceramento feminino no Brasil é o que mais cresceu. Somos a massa de mulheres encarceradas – mulheres pobres, negras, mães – geralmente, por crimes contra drogas, e isso não está sendo falado. Essas mulheres viram ‘o outro’ da nossa narrativa’.

Ela contou que a presença dela e de outras mulheres na marcha teve a intenção de evidenciar este assunto e de representar as mulheres presas. “Vim pedir o fim das prisões, essa também é uma pauta que deve ser discutida no movimento feminista”.

Ancestralidade e parceria

Foi com lágrimas nos olhos que a jovem Julliana Reis, 20, do Parque Arca, na zona leste, falou sobre como os passos das mulheres vêm de longe. “É muito importante ver as mulheres negras sendo representadas no dia de hoje. O que existe hoje é graças a outras pessoas que também se empenharam nessa mesma luta, para que a gente estivesse aqui hoje”.

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Ilú Oba de Min acompanhou toda a marcha com a batidas em memória à ancestralidade negra (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Alinne Umedo, de Santana, zona norte, carregava uma placa “Sou surdocega, quero ser conduzida, não assediada” durante o trajeto do ato. Ela e outras mulheres com a mesma especificidade se reuniram. Juntas, apontaram a invisibilidade das mulheres surdas e cegas e o quão importante é sermos empáticas umas com as outras.

“É importante que as mulheres acordem, nós não estamos passando por um momento fácil. Todas estamos unidas pra isso e uma apoia a outra’, disse Alinne, representante da Fenei (Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos). Sua fala se referia, principalmente, a necessidade das mulheres se unirem contra o governo Bolsonaro.

“Esse movimento exige empatia, que as pessoas estejam juntas. Infelizmente, não é um momento fácil, não é um momento simples. Eu sofro, nós sofremos violência sexual, psicológica, dificuldades ao sairmos nas ruas. Precisamos ser vistas e estarmos unidas”.

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