Promovidos pela própria comunidade, passeios oferecem a oportunidade de conhecer por dentro um dos mais preservados remanescentes de quilombo do estado de São Paulo

Texto / Vinicius Carvalho
Imagem / Comunicação Popular FCT - Cristiano Braga/ Eduardo Napoli/ Vinícius Carvalho/ Anna Maria Andrade
Colaboração / Vanessa Cancian

Antes de seguir para a praia, tomar banho de rio e ouvir as histórias de seu Feliciano sobre as matas e trilhas ancestrais do Quilombo da Fazenda. Aprender com dona Vera a fazer farinha como se fazia nos tempos do antigo engenho. Cozer esteiras artesanais de imbé com a ajuda de dona Cida, na varanda da Casa de Artesanato. Ou conhecer de perto com Cristiano as roças e agroflorestas de onde a comunidade tira seu próprio alimento, cuidadosamente colhido para o almoço tradicional quilombola que encerra o passeio na antiga estrutura do engenho.

Todas essas experiências fazem parte dos roteiros de Turismo de Base Comunitária (TBC) lançados nos dias 15 e 16 de março pelo Quilombo da Fazenda, em Ubatuba (SP). Reconhecido como quilombo pela Fundação Palmares em 2005, - mas ainda sem a titulação definitiva de suas terras -, o Quilombo da Fazenda tem mais de 200 anos de história e abriga cerca de 40 famílias em uma das áreas de mata atlântica mais preservadas do Estado de São Paulo.

“O TBC é de suma importância para nós, uma luta de anos que agora é uma vitória da comunidade através dos nossos jovens. E nosso monitor, nosso guia, ele nasceu aqui, ele mora aqui, ele conhece a nossa história. Então pegar uma pessoa da comunidade para acompanhar o turista é uma riqueza para o turista também. Porque ele sai feliz não só porque veio aqui tomar um banho, mas porque ele viveu a experiência do povo da nossa comunidade”, destaca Vera Braga, presidente da Associação de Moradores.

“Para nós, o TBC tem sido um marco por ter unido muito a nossa comunidade. E eu vi que trouxe um empoderamento, uma autonomia, um conhecimento maior da riqueza ambiental e cultural que a comunidade tem. Aí o TBC nos faz enxergar além, pois vemos que temos uma longa geração pela frente que vai fazer o uso dessa terra, desse nosso local. Então é uma estratégia fundamental, que junta geração de renda e preservação”, complementa Guilherme Euler, morador do Quilombo, pesquisador-comunitário do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis (OTSS) e integrante do Núcleo Jovem do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT).

O lançamento dos quatro roteiros – Trilha do Jatobá, Casa de Farinha, Oficina de Artesanato e Agrofloresta - contou com a participação de representantes do Conselho Nacional de Articulação de Quilombos Rurais (Conaq), do OTSS, do FCT, do Ministério Público Federal (MPF), da Prefeitura de Ubatuba, da APA Cairuçu, do Parque Nacional da Serra da Bocaina e do Parque Estadual da Serra do Mar, onde o Quilombo da Fazenda está inserido desde 1979.

quilombo campinho 3

A Rede Nhandereko é um coletivo gerido por representantes das etnias que vivem no território e que protagonizam o TBC em suas comunidades.

“O TBC demonstra o protagonismo da comunidade com relação ao território, contribui para a valorização da cultura e também contribui com o parque, com a educação ambiental, além de gerar renda para as comunidades. O TBC, dessa forma, só vem a somar com os objetivos dessa unidade de conservação”, completa Camila Oliveira, da Fundação Florestal do Governo de São Paulo.

“TBC é luta”

A estruturação dos roteiros de TBC do Quilombo da Fazenda está longe de ser uma iniciativa isolada, destaca Fábio Reis, coordenador de transição tecnológica do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis (OTSS). Ele cita o caso da Rede Nhandereko, iniciativa de Turismo de Base Comunitária do FCT, apoiada pelo OTSS, que está conectando roteiros e experiências em diversas comunidades tradicionais caiçaras, indígenas e quilombolas da Costa Verde do Rio de Janeiro.

Segundo ele, o objetivo da Rede Nhandereko é promover e consolidar o turismo de base comunitária a partir do protagonismo de povos e comunidades tradicionais, aprimorando serviços e fomentando uma nova lógica turística que possibilite, ao mesmo tempo, geração de renda, respeito ao modo de vida, sustentabilidade ambiental e defesa dos territórios tradicionais.

“Da mesma forma como a agroecologia se opõe ao agronegócio, o turismo de base comunitária é uma alternativa diferente do turismo de massa. Neste contexto, o OTSS tem um papel de mediador, articulador e formador do TBC em nossos territórios, aprimorando os processos de gestão e governança e conectando esses diferentes roteiros em favor da autonomia das próprias comunidades”, destaca.

Marco histórico para o povo negro no Brasil

"A história da escravidão no Brasil aparece motivada pela desculpa de que o negro é forte, aguenta sol, aguenta o chicote, só que não. Os negros tinham muito conhecimento, tecnologia, experiência com o clima tropical e por isso fomos vistos como a única possibilidade de implementar um projeto de ocupação nas Américas. Somos o berço da ciência, da civilização", contextualiza Ronaldo Santos, presidente da Amoqc e quilombola do Campinho.

"Somos mais de 6 mil quilombos em todo o país, apesar do descaso do poder público. São locais com muitos detentores de conhecimento, saberes tradicionais, e o Estado não sabe o que fazer com essas comunidades porque possui um compromisso básico com o capitalismo. E o quilombo da fazenda está na maior potência federativa, o maior PIB do país, e é com essa realidade que a Fazenda tem que lidar", alerta Ronaldo.

Por isso, diz, a importância desse lançamento: "No momento em que o quilombo lança seu roteiro de TBC, está lançando mais uma experiência de desenvolvimento, de autogestão no país. Isso representa um marco para a luta do povo negro no Brasil. Não se trata de um episódio isolado, é algo determinante do ponto de vista da emancipação e da plena abolição", completa.

A importância da Rede Nhandereko também foi destacada por Camilo Terra, assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF) de Caraguatatuba. “O MPF apoia o TBC por se tratar de um fator que une geração de renda e a permanência nos territórios para que as pessoas possam continuar com seus modos de vida dentro das comunidades. Está trabalhando dentro, gerando renda e lutando por seu lugar. Nós conhecemos o TBC por meio da Rede Nhandereko e queremos cada vez mais ampliar esse intercâmbio,” afirmou.

Já para Marcos Roberto dos Santos, diretor da Secretaria de Turismo de Ubatuba, o TBC aponta também novos caminhos para as políticas públicas. “Enquanto diretor de turismo, vejo o TBC como uma ferramenta de desenvolvimento econômico e social com valorização da cultura e dos atrativos ambientais. Não tenho dúvidas do nosso papel enquanto poder público para auxiliar no que pudermos para que isso se desenvolva cada vez mais”, prometeu. “Sabemos que as comunidades, desde a década de 70, sofrem uma pressão muito grande. O governo municipal e estadual precisam estar fomentando essas ferramentas”.

Serviço

Para visitar a comunidade ou agendar um dos roteiros do Quilombo da Fazenda, é só entrar em contato. O acesso à comunidade se dá pela BR 101 (Km 12), entre Ubatuba (SP) e Paraty (RJ). Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. / Telefones: Cristiano (12) 99764-9223 / Guilherme (12) 99672-7152 / Luciano (12) 99700-4507.

bannerhorizontal

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com

Mais Lidos