A página “Do Angela Para Nova York”, mantida por Ana Paula Barreto, disponibiliza informações e oportunidades sobre cursos no exterior. O objetivo é ajudar jovens de regiões periféricas na preparação para ingressar na vida acadêmica

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Joyce Prado

A trajetória acadêmica de Ana Paula Barreto serviu como inspiração para ela criar um projeto para compartilhar com jovens da periferia informações sobre cursos no exterior. Foi desse modo que a jovem, oriunda do Jardim Angela, bairro periférico de São Paulo, e que faz mestrado em relações internacionais na The New School, em Nova York (EUA), criou no Facebook a página “Do Angela Para Nova York”.

O projeto tem como objetivo democratizar o acesso a informações relacionadas ao universo acadêmico para interessados em fazer graduação ou cursos em outros países estarem por dentro do que e como fazer. Ou, como ela mesma diz, romper com barreira invisível para esse grupo de pessoas, uma vez que ter acesso à informação é um privilégio para quem tem contato e a detém.

“Criei a página para fazer a ponte [entre tais informações] e pessoas da periferia que entrassem na universidade, para os processos serem mais fáceis para elas, em especial os internacionais”, explica Ana Paula, ao falar também sobre o caráter individualista de quem costuma ter acesso a dados sobre tais oportunidades.

“Quem entende [como funciona] quer manter para si mesmo. O objetivo é focar, principalmente, em bolsas de estudos internacionais e oportunidades para se fazer intercâmbio. A gente não sabe, mas há vários cursos que são todos pagos, inclusive a passagem e a hospedagem”, fala, ao ressaltar a impressão que se tem sobre intercâmbios terem de ser custeados pelos alunos - e, desse modo, inacessíveis para quem vem da periferia.

Quebrando a barreira

A questão racial e social ficou ainda mais visível para Ana até mesmo por meio dos estudos em solo estadunidense. Por exemplo, a sua graduação em relações internacionais, no Brasil, foi marcada pelo estudo de obras de autores brancos, enquanto a educação tem viés mais progressista e diversificado nos EUA. E esse aspecto, ainda que subjetivo, dá sinais dos papéis raciais no ambiente acadêmico.

“Por aqui não havia a perspectiva de africanos sobre a África, de asiáticos sobre a Ásia ou de latinos sobre a América Latina. No Brasil o complexo de queremos ser muito próximos aos europeus, mas não sermos, o que resulta no ‘complexo de vira-lata’”, ressalta, sobre como isso é transformado em barreiras para jovens negros da periferia.

“Esse sistema colonizado diz que não podemos [avançar]. Até nas universidades, parte da população diz que não podemos chegar lá. Imagine, então, ter acesso à educação fora do país”, diz Ana, ao colocar a questão racial em perspectiva nesse caso.

Por esse motivo, o “Do Angela Para Nova York” é voltado para a população periférica, o que é reforçado pela criadora, uma vez que ampliá-lo para grupos além do público-alvo poderia ser um modo de manter o status quo e, assim, dificultar o acesso de jovens da periferia a tais oportunidades.

“A ideia do projeto é produzir justiça social, mesmo que seja para uma ou cinco pessoas. Acho que a gente não precisa ter algo perfeito para incluir tudo”, detalha, ao falar sobre a base de dados criada a respeito de programas estudantis e a urgência na divulgação de informações do tipo para jovens para periferia.

“Se isso é o que pode ser feito agora para gerar impacto, é isso o que farei”, reforça.

Post de um dos projetos publicados na página (Reprodução / Facebook)

Lá e cá

Os programas de bolsas de estudo nos EUA são complexos para quem se interessa, independentemente do perfil socioeconômico do candidato. Como esse fator resulta em demora para obtê-las, a pressa em ingressar em uma universidade faz muitos jovens procurarem por empréstimos estudantis - basta dizer que a dívida desse grupo no país ultrapassa US$ 1 trilhão.

Já no Brasil, as oportunidades de bolsas de estudos são escassas e não levam em conta a necessidade financeira dos candidatos. Desse modo, quem tiver condição socioeconômica inferior e pertencer a grupo mais vulnerável tem menos chances de obtê-las.

Por esse motivo, a democratização do acesso a informações sobre cursos e oportunidades é uma maneira de quebrar a lógica excludente com jovens da periferia. Ainda mais pelo fato de que, por mais absurdo que seja o passivo estudantil nos EUA, a educação de lá tem características mais democráticas, socialmente falando, em comparação com o Brasil.

E a postura entre dominante x dominado inerente ao brasileiro dá as caras, inclusive, no exterior. Basta dizer que brasileiros no exterior custam a acreditar que um compatriota negro e da periferia esteja estudando no país em vez de estar lá a trabalho.

“Quando me veem falando inglês, eles ficam surpresos. [Por que] quando uma pessoa negra é vista falando em inglês, eles me veem como exceção por fazer algo que fazem?”, conta Ana Paula, ao usar esse fato como exemplo para barreiras sociais existentes para pessoas negras.

Pensando no futuro

Ana Paula Barreto crê que os frutos da página “Do Angela Para Nova York” poderão ser vistos em dois ou três anos, uma vez que o idioma tende a ser uma barreira: como poucos jovens da periferia tiveram como estudar inglês, eles têm de fazê-lo para poderem pleitear bolsas de estudos no exterior. E esses jovens o fazem, na maioria dos casos, por meio de cursos gratuitos do idioma.

Além disso, uma etapa futura que a criadora da página pretende colocar em ação é a arrecadação de fundo financeiro para auxiliar esses jovens.

“Penso em ter fundo para estudantes da periferia há pelo menos dois anos, para promover a participação em âmbito internacional. Após terminar o mestrado, em um ano, conseguirei pensar melhor em estratégias para ter recursos”, completa, sobre como fará o “Do Angela Para Nova York” crescer.

Saiba mais

Acesse facebook.com/doangelaparanovayork para estar por dentro das informações da página.

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