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Criado nos EUA, nos anos 1980, o termo remete ao modo como o tom da pele determina que a pessoa tenha privilégios e acesso facilitado a diversos espaço sociais; quanto mais negra a pessoa for, mais dificuldades ela terá

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Pexels

Em um cenário hipotético, que pode ser ironicamente chamado de Terra, pessoas negras de pele clara, traços finos e cabelos lisos têm acesso facilitado a diversos aspectos, que variam desde pontos básicos e estabelecidos como obrigatórios na legislação, a até mesmo espaços de poder. Em contrapartida, quanto mais escura for a pele de determinada pessoa, mais difícil será a possibilidade de ela conseguir acessar esses mesmos aspectos.

Pois bem, qualquer semelhança com a nossa realidade não é uma mera coincidência - é realidade, afinal. Esse exemplo está relacionado ao colorismo, teoria criada nos anos 1980 pela escritora Alice Walker, segundo a qual quanto mais clara for a pele de uma pessoa, mais fácil será para ela ser aceita na sociedade - e o inverso acontece com quem tiver pele retinta.

De acordo com os moldes da estrutura social racista, quanto menos traços negros uma pessoa tiver e quanto mais clara for a sua pele, mais e melhor aceita ela será em diversos grupos. Ser negro é um crime apenas pela pessoa existir. E, à medida em que as características raciais forem mais fortes, menores serão os direitos que lhe serão concedidos.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que 46,7% da população se autodeclarava parda – esse patamar era de 45,3% em 2012. Para efeito de comparação, 7,4% do percentual populacional era de pessoas autodeclaradas pretas, ao passo que aumentou para 8,2% em 2016. Vale ressaltar que, de acordo com o IBGE, a categoria “negro” abrange pessoas pretas e pardas - nomenclaturas usadas pelo próprio instituto.

Em resumo: mais pessoas se autodeclaram pretas e assim o é na mesma proporção com pessoas pardas. Uma das interpretações possíveis é que mais pessoas se reconhecem como negras – a mesma coisa vale para pretas e pardas.

De acordo com Roger Cipó, fotógrafo, que pesquisa também a construção da imagem nas religiões de matriz africana, deve-se pensar na estrutura racista da sociedade, o que abrange a quantidade de melanina que a pessoa tem na pele – quanto mais retinta a pessoa for, maior será o nível de violência que ela sofrerá.

“Pelo racismo ser um crime estrutural, as questões de quem é mais ou menos retinto são colocadas de formas muito claras nessa estrutura. Isso significa que quanto mais escura a tonalidade de pele for, menos a pessoa será vista como humana e menos será vista nos diferentes espaços, o que passa pela invisibilidade das pessoas retintas”, explica Cipó, ao citar que o objetivo é fomentar a reflexão sobre o colorismo.

De acordo com ele, “quando a gente chama as pessoas mais claras a repensarem isso, não é um questionamento à negritude, mas é um olhar de reflexão para pensar as estruturas criadas pelo racismo nos distanciam e classificam. À medida que a gente escurece, a gente é diferenciado e ‘aceito’, mas de forma errônea.”

Juliana Gonçalves, jornalista e militante do movimento negro, considera que o debate sobre o colorismo é dolorido pelo fato de falar sobre diferenças entre pessoas negras, mesmo ao se considerar que pessoas negras tentam construir o próprio pertencimento enquanto povo, além de esse ser um conceito que fala sobre elas sob a perspectiva da construção social branca.

“Se o colorismo é cria do racismo e da branquitude, será que é possível fazermos esse debate necessário sem silenciar negros retintos ou destituir negros claros da sua negritude? Houve tentativas honestas, mas há limites de promover esse debate que precisa ser profundo e seguro na internet”, explica Juliana, ao enfatizar a tentativa de separação racial dentro do mesmo nicho. “Quando a gente percebe que há tentativa de hierarquizar dores, isso transforma-se, na maioria das vezes, em tentativa de colocar negros de pele clara e retinta em trincheiras diferentes. Isso, sim, é um problema.”

Os aspectos relativos à separação de pessoas negras em segmentos diferentes, em especial por causa da cor da pele, não é novidade - pelo contrário: trata-se de tática recorrente na história. Para se ter uma ideia, no início do século XVIII, Willie Lynch, proprietário de escravos no Caribe, escreveu carta dirigida a demais escravocratas sobre como manter pessoas negras submissas aos seus mandos e desmandos.

No documento, Lynch cita justamente a divisão entre negros como uma das táticas de dominação: “deveis usar os escravos mais velhos contra os escravos mais jovens e os mais jovens contra os mais velhos. Deveis usar os escravos mais escuros contra os mais claros e os mais claros contra os mais escuros. Deveis usar as fêmeas contra os machos e os machos contra as fêmeas. Deveis usar os vossos capatazes para semear a desunião entre os negros, mas é necessário que eles confiem e dependam apenas de nós.”

Diversos tons de opressão

Uma das lógicas do racismo estrutural abrange o determinismo social sobre quem pode ou não acessar determinados espaços, sejam para convívio, sejam de poder – universidades, cargos hierarquicamente superiores ou restaurantes, por exemplo.

Este tipo de separação, que chega até a remeter ao livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, por ser extremamente absurda, é estabelecido uma vez que esse padrão sociocomportamental faz parte de tentativa de embranquecimento populacional. O paralelo entre colorismo e a história da obra deve-se ao fato de que os personagens eram divididos em grupos sociais por motivos relacionados à aparência, diferença étnico-racial e pela construção sociocultural, havendo nítida distinção entre esses segmentos, que eram condicionados a servir quem estava no topo da pirâmide social.

“À medida em que a gente clareia [a pele], a gente passa a ser aceito em alguns lugares, mas é uma aceitação sob os moldes da estrutura branca. É uma aceitação com várias negações, que te pede brancura e para alcançar um lugar que não é um lugar desses corpos pretos, socialmente falando, pensando em uma sociedade racista. São lugares por direito à humanidade e à cidadania, mas em uma estrutura dessa”, ressalta Cipó.

Ainda que pessoas pretas com a pele mais clara tenham mais privilégios do que quem tem pele retinta, elas são aceitas dentro da lógica branca? 

“Se o racismo é algo estrutural e se todos os negros padecem dele, ao mesmo tempo em que o privilégio é algo também que diz respeito à branquitude - o que não é negociável, pois é estático e fixo -, eu não posso dizer que essa vantagem circunstancial, que talvez uma pessoa de pele clara tenha, seja um privilégio que o aproxima da branquitude”, lembra Juliana, ao apontar para um aspecto importante: a construção socioeconômica da pessoa negra.

“Ser negro de pele clara não é ser menos negro, ou experienciar um racismo ‘light’, mas reconhecer que a pigmentação rende experiências com racismo distintas das experiências de negros de pele escura. O racismo é elemento estrutural atravessa todos os negros sem exceção e incide de maneira distinta dependendo do seu gênero, idade, classe social, território e tom de pele.”

Achou que os dados sobre a discrepância social de pessoas negras na sociedade acabaram por aqui? Achou errado. De acordo com pesquisa feita pelo jornal O Estado de São Paulo sobre as candidaturas das eleições de 2014, havia 701 candidatos pretos e o total agregado destinado às candidaturas foi R$ 55 milhões - média de R$ 78 mil por pessoa. Em contrapartida, havia 2.229 candidaturas de políticos pardos e o somatório do valor nas campanhas era de R$ 209 milhões, cuja média para cada candidatura era de R$ 93 mil por indivíduo.

No texto “Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão”, a intelectual Nilma Lino Gomes, ex-ministra da Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), traz à tona o porquê da inclusão de pessoas pretas e pardas na composição do grupo étnico-racial negro nos critérios estatísticos do IBGE e do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Nesta obra, Gomes cita o sociólogo e especialista em questões raciais Sales Augusto dos Santos para explicar por que os dois grupos foram incluídos na categoria negra. De modo geral, é justificável fazê-lo “visto que a situação destes dois últimos grupos raciais é, de um lado, bem semelhante, e, de outro lado, bem distante ou desigual quando comparada com a situação do grupo racial branco. Assim sendo, ante a semelhança estatística entre pretos e pardos em termos de obtenção de direitos legais e legítimos, pensamos ser plausível agregarmos esses dois grupos raciais numa mesma categoria, a de negros. 

Ainda de acordo o texto, “a diferença entre pretos e pardos no que diz respeito à obtenção de vantagens sociais e outros importantes bens e benefícios - ou mesmo em termos de exclusão dos seus direitos legais e legítimos - é tão insignificante estatisticamente que podemos agregá-los numa única categoria, a de negros, uma vez que o racismo no Brasil não faz distinção significativa entre pretos e pardos, como se imagina no senso comum.”

Além destes fatores, é importante levar em conta a educação que pessoas negras recebem, sem exceção – coincidência ou não, pautada nos moldes eurocêntricos. Como o conceito da branquitude é ensinado como um conceito padrão e que acaba sendo normatizado, reconhecer-se e reivindicar-se como pessoa negra acaba por ter carga social negativa.

“A gente está falando sobre consciência negra, que não é unanimidade entre boa parte do povo brasileiro, pois a maioria está sob prisma pautado pela televisão – e pensar em televisão é pensar na cultura hegemônica branca, que fala sobre o branco ser o ideal de beleza, pois quanto mais claro for, mais bonito será. Neste contexto, a família, que não tem consciência negra estabelecida, pode colaborar para a pessoa preta clara, inclusive, se reivindique ou não como pessoa preta”, lembra Cipó.

Dona Ivone Lara (Imagem: Agência Brasil)

A cor da representatividade

Faz algumas semanas que a escolha da cantora Fabiana Cozza para interpretar Dona Ivone Lara no musical biográfico “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro” sobre a eterna autoridade do samba, falecida em abril deste ano, causou polêmica – e trouxe à tona o debate sobre o colorismo.

À época, foi apontado que a nomeação de Cozza, mulher negra de pele clara, para interpretar Dona Ivone Lara foi uma tentativa de whitewashing – em resumo: “embranquecer” a sua essência.

O caso, que é delicado por si só, pois traz à tona todas as nuances e sutilezas relacionadas ao tema, “furou” a bolha da comunidade negra e ganhou espaço na grande imprensa – e a repercussão, como se pode imaginar, foi pautada pela perspectiva branca da sociedade.

Fala-se em aspectos relacionados à afetividade, uma vez que Dona Ivone Lara e sua família gostavam de Fabiana – de acordo com familiares, elas eram muito amigas e se conheciam há mais de 20 anos.

Fabiana Cozza (Imagem: EBC)

Apesar do fator afetivo existente entre as partes envolvidas, pode-se dizer que é necessário uma mulher negra com pele retinta, semelhante à da eterna rainha do samba, interpretá-la.

"As pessoas que tomaram esta decisão foram insensíveis ao debate do colorismo na esfera da representação e da representatividade. No calor dessa discussão, não há cabimento Dona Ivone Lara ser interpretada por uma mulher de representação tão distante da dela. O resultado poderia ser embranquecimento e apagamento da negritude da Dona Ivone Lara”, completa Juliana Gonçalves.

 “Embranquecer Dona Ivone Lara neste momento é não atentar ao fato de que ela foi uma mulher retinta e sofreu os traumas e toda a violência que o racismo estrutural reserva para pessoas de pele retinta. Em nenhum momento é uma questão contra Fabiana Cozza – a gente não discutiu a capacidade artística dela. A gente precisa discutir a capacidade que os grandes diretores de arte no Brasil têm de embranquecer nossas narrativas”, finaliza Roger Cipó.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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