O conhecimento adquirido e transmitido por pessoas negras é frequentemente colocado em dúvida no cotidiano; fatos como esse podem ser considerados como tentativas de dominação racial

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / pexels.com

Imagine um professor negro ter a sua explicação interrompida constantemente por alunos que o julgam como despreparado e incapaz exclusivamente por causa da cor da sua pele. Ou, então, pense em um médico que ouve de um paciente que não quer ser atendido por ele, pois ele não tem “cara de médico”. Além disso, o que dizer sobre um pesquisador ter o seu trabalho ridicularizado pelos seus pares pelo fato de ele ser negro e pelo objeto de estudo de sua pesquisa ser algo inerente à raça à qual ele pertence.

Casos como os citados acima são muito mais comuns do que se imagina e são refletidos na baixa presença de pessoas pretas e pardos em espaços relativos à construção de conhecimento.

Em julho de 2017, a USP (Universidade de São Paulo) divulgou estudo sobre o perfil racial dos professores da instituição e constatou que havia 120 docentes negros entre 6 mil profissionais.

Outro dado mostra bem o abismo racial entre a quantidade de médicos no Brasil. Uma pesquisa feita pela equipe do Laeser (Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais), do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), apenas 17,8% dos profissionais atuantes na área da saúde eram negros e, segundo levantamento divulgado em 2015 pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), somente 0,9% dos 3 mil médicos formados no ano anterior no Estado eram pretos ou pardos.

Fatos como esse são exemplificados por depoimentos contundentes, como o dado por Sônia Guimarães, a primeira mulher negra a tornar-se doutora em física no Brasil e docente do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), durante o programa “Conversa com Bial”, da Rede Globo. Durante a entrevista, a doutora comentou que alunos e até mesmo colegas a odeiam por ser negra, mas que é necessário reforçar a sua autoridade a cada momento para ser respeitada como acadêmica.

“Não tá escrito PhD aqui [ao apontar para a testa]. A minha autoridade precisa ser dita a cada dia, a cada minuto, a cada correção, a cada nota baixa. Mas eles têm de me engolir, porque sou professora de física experimental. Eles têm de me aceitar, senão vão repetir de ano. E não pode repetir de ano no ITA.”

De acordo com André Luís Santana, diretor de Comunicação do Instituto Mídia Étnica, coordenador do Portal Correio Nagô e professor da Uneb (Universidade do Estado da Bahia), fatos como o relatado por Sônia Guimarães são mecanismos usados para manter a pessoa negra submetida à dominação dentro do racismo estrutural.

“É necessário haver justificativas para existir a dominação, que vêm por meio de desqualificação intelectual e desqualificação como povo, de toda a sua cultura e saber. [Pessoas negras] devem ser o tempo todo deslegitimadas e desqualificadas para se justificar a dominação e, em último ponto, as desigualdades que a gente vê em relação à população negra, como a falta de acesso e de oportunidades, e o genocídio”, explica André, ao falar sobre como a ciência e a antropologia forneciam respaldo por meio de estudos de caráter racista que tinham como objetivo inferiorizar pessoas negras, em especial no século XIX e no início do século XX.

Esse tipo de premissa ligada à eugenia ficou arraigada ao imaginário popular sobre a pessoa negra a ponto de a sua autoimagem estar relacionada a essa premissa. “Isso fez, por muito tempo, que estivéssemos ausentes de espaços de produção de conhecimento e de legitimação do que é o saber, como a academia, a própria ciência e universidades. Isso mudou a partir do momento em que a população negra percebeu que era importante entrar nesses espaços e lutar por isso”, pontua o diretor de Comunicação do Instituto Mídia Étnica, ao falar sobre a questão do protagonismo racial.

“A própria antropologia passa por transformação porque o negro sempre foi o ‘outro’ e alguém sobre quem se fala. A partir do momento em que ele adentra a ciência e pode falar de si próprio, deixa-se um espaço de disputa até hoje”, destaca, ao falar sobre um dos motivos para o conhecimento criado por pessoas negras ser colocado constantemente à prova.

Contradição racial

Volta e meia é possível deparar-se com situações em que uma pessoa negra, quando atinge relativo status social, é usada como exemplo de que o racismo não existe e que seus pares devem se esforçar mais para chegarem ao mesmo patamar dela - ainda há quem pense que falar de racismo é vitimismo.

Para André Luís Santana, essa lógica usada para a negação do preconceito racial é contraditória. “Essa pessoa é utilizada como negador do racismo em vez de sua presença representar uma exceção e confirmar o racismo. Mas, ao mesmo tempo em que ela é usada para negar o racismo, ela está sob vigilância, e há olhares atentos aos passos dessa pessoa negra nesses espaços, pois se espera que haja uma falha ou conduta em desacordo com esse sistema montado para deslegitimar a sua presença ali e mostrar que ele não deveria estar ali.”

Esse aspecto explica, por exemplo, por que é comum pessoas negras ouvirem de outras, em especial mais velhas, que elas devem se esforçar em dose dupla para se tornarem destaques em suas respectivas áreas de atuação.

Imagem: Free-Photo.cc

Ocupar e resistir

Há setores da militância negra que veem com maus olhos, graças a motivos históricos, pessoas pretas e pardas inseridas em locais tradicionalmente racistas, seja na mídia ou na academia, por exemplo.

Contudo, ocupar espaços como esses pode ser um mecanismo para, mesmo aos poucos, haver mudança do paradigma criado sobre pessoas pretas e pardas, assim como construir um novo tipo de conceito a respeito.

“Precisamos nos unir e sermos solidários à luta do negro. Se ele resolve que é importante disputar espaço na maior emissora de televisão, onde são produzidas as diversas subjetividades do brasileiro e a todo o tempo esses discursos são potencializados, especialmente para as pessoas com menos acesso à informação, é dali que ela tira a sua subjetividade, os seus gostos e preferências”, destaca o docente da Uneb.

Essa mesma lógica vale também para a questão de políticas afirmativas na academia - pode-se dizer que a resistência a elas está fundamentada, entre outros motivos, pelo fato de a população negra começar a ter mais acessos a ferramentas para desconstruir a premissa segundo a qual ela é inferior na sociedade.

Segundo André, medidas como a criação de cotas são estratégicas para o crescimento de pessoas pretas e pardas. Isso fica evidente ao levar-se em conta que hoje há quase 13% de jovens negros na universidade, enquanto essa proporção era de 5% em 2005. “Por meio da exigência de ações afirmativas, o movimento negro mirou fortemente nas cotas em universidades, especialmente públicas, e nos cursos que dão prestígio social e econômico.”

Soluções possíveis

Por fim, como a estratégia usada para subestimar a capacidade intelectual da população negra pode ser combatida? Em primeiro lugar, denunciar a estrutura racista e episódios análogos é fundamental, assim como a comunidade negra articular-se. “A primeira coisa é constranger o sistema racista, pois todas as tentativas de desqualificar são estratégias de dominação e não têm respaldo científico. Outra coisa é fazer parte de espaços de poder. É importante, sim, romper a programação mental colocada na pessoa negra de que ali não é o espaço dela. Ela deve estar lá e disputar voz e lugar de produção de conhecimento”, completa André Luís Santana.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
contato(@)almapreta.com

Mais Lidos