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Votos Antirracistas, nome da plataforma, destaca mulheres negras para as eleições de 2020; entre elas, Elaine Mineiro (PSOL-SP), Eliete Paraguassu (PSOL-BA) e Biatriz Santos (PT-PE)

Texto: Aline Bernardes | Edição: Pedro Borges | Imagem: Divulgação

Inspirados em figuras como Abdias do Nascimento, Marielle Franco e Lélia Gonzalez, mulheres e homens negros participam da plataforma Votos Antirracistas com o objetivo de ocupar um cargo de vereador nas câmaras municipais do país.

A iniciativa surge com o objetivo de apresentar, aproximar e mapear as candidaturas de pessoas negras com trajetória de trabalho e compromisso com movimentos, entidades, grupos e coletivos negros, periféricos, favelados, quilombolas e ribeirinhos, em diversas cidades brasileiras. É possível buscar os políticos por municípios ou pelas organizações do movimento negro às quais estão ligadas, cadastrar novas candidaturas e encontrar informações sobre o debate antirracista.

A agenda consiste em quatro documentos que sintetizam as propostas do conjunto do movimento negro para o país: o manifesto Enquanto houver racismo não haverá Democracia, a Carta de Princípios e Agendas da Coalizão Negra Por Direitos, a Agenda Marielle Franco e o Programa da Convergência Negra.

O Alma Preta selecionou três candidaturas de mulheres negras com diferentes recortes, para dar um panorama da diversidade nacional do movimento antirracista: Elaine Mineiro, Quilombo Periférico e Uneafro Brasil, quem concorre a uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo pelo PSOL; Eliete Paraguassu, marisqueira e quilombola da Ilha de Maré, busca uma vaga na Câmara Municipal de Salvador, também pelo PSOL; Biatriz Santos, jovem negra, almeja uma vaga na Câmara Municipal de Camaragibe (PE) pelo PT.

Dados da plataforma do movimento Mulheres Negras Decidem apontam: apesar de mulheres negras serem 27,8% da população brasileira, atualmente representam apenas 5% das vereadoras no país. E se depender da Elaine Mineiro, 36 anos, essa realidade pode mudar. Coordenadora de um núcleo de base da UNEafro Brasil, entidade que promove cursinhos pré-vestibulares para estudantes negros, ela concorre ao cargo de vereadora numa chapa múltipla que inclui outros cinco candidatos, o Quilombo Periférico.

“Por mais espalhados que estejamos entendemos que só temos convergências. Apesar das complexidades específicas de cada território, a periferia de São Paulo é onde está o povo preto, empobrecido, explorado pelos patrões e negligenciado pelo Estado”, diz. Elaine Minheiro

Elaine Mineiro é candidata à vereadora na cidade de São Paulo.

De diferentes quebradas e atuações políticas na cidade, a chapa possui representantes dos movimentos culturais das periferias, das crianças e adultos em situação de rua, da população LGBTQ+, de articuladores de economia solidária, das lideranças das favelas e das religiões afrobrasileiras. Para Elaine, lutar pelas demandas da periferia em todas as frentes que tiverem a oportunidade é a missão do Quilombo Periférico.

“Todos nós já passamos por algum episódio de negligência do SUS, sofremos ou tivemos algum familiar que sofreu com a falta de vagas em creches, todos nós já pegamos ônibus lotado para chegar ao trabalho. Todos nós participamos de projetos em nossos territórios e o mais importante, todos nós somos pessoas forjadas e formadas em organizações coletivas. O trabalho coletivo está em nossa essência”, evidencia.

Foi a construção de uma São Paulo sem Racismo que motivou o coletivo a tentar uma vaga na Câmara. Eles entendem que a construção de uma cidade melhor está na luta contra o racismo institucional. Essa seria uma tarefa fundamental para acabar com a desigualdade, gerar oportunidades e construir um presente e futuro promissor para o povo preto. “Nossas propostas contemplam todas as áreas cobertas pelo município e têm por base a luta pela descentralização dos recursos públicos e o suprimento das necessidades mais urgentes de cada bairro periférico”, finaliza. Eliete Paraguassu

Eliete Paraguassu é candidata à vereadora em Salvador.

Marisqueira e quilombola da Ilha da Maré, Eliete Paraguassu, 40 anos, tem sido um exemplo para os defensores do meio ambiente na Baía de Todos os Santos. A sua candidatura para vereadora nasceu a partir da sua participação no Fórum Marielle Franco e representa um marco na defesa das comunidades quilombolas da cidade de Salvador.

“A minha configuração enquanto mulher das águas nasce do lugar de mulher negra, quilombola, pescadora, marisqueira, que tira a sua dignidade a partir das águas. São vinte anos lutando contra as injustiças sociais na Baía de Todos os Santos e o racismo ambiental”, diz.

O termo “racismo ambiental” foi criado pelo reverendo Benjamim Chavis, assistente de Martin Luther King Jr. no movimento pelos direitos civis. Para ele, o termo deve ser usado quando há discriminação racial nas políticas ambientais. “É discriminação racial na escolha deliberada de comunidades de cor para depositar rejeitos tóxicos e instalar indústrias poluidoras. É discriminação racial no sancionar oficialmente a presença de venenos e poluentes que ameaçam as vidas nas comunidades de cor”, definiu.

Os territórios ocupados por pessoas não brancas, historicamente negligenciados pelo poder público, agora também estão à margem da sociedade diante da crise sanitária e econômica provocada pelo novo coronavírus.

“A minha luta vem a partir do racismo ambiental, das injustiças sociais, da falta de política pública na Ilha de Maré e na cidade de Salvador, que tem causado a morte para essas populações. A gente segue a direção da dignidade e o desenvolvimento que está posto no Brasil tem roubado o bem viver das pessoas”, finaliza. Biatriz Santos

Biatriz Santos é candidata à vereadora na cidade de Camaragibe.

Aos 27 anos, a ativista Biatriz Santos tenta uma vaga na Câmara dos Vereadores de Camaragibe (PE). A sua motivação vem da vontade de contribuir com a sua comunidade, Céu Azul, em Camaragibe, e também de dar continuidade ao processo que iniciou dentro do movimento, mas agora a partir do legislativo. “A gente precisa estar lá para colocar as nossas pautas, falar sobre as nossas necessidades. Nós não podemos mais terceirizar isso”, conta.

As eleições de 2020, para Biatriz, tem uma responsabilidade. Segundo ela, dentro da política, as candidaturas negras buscam uma virada de conjuntura favorável para as classes e segmentos da sociedade ditos minoritários.

“Essas mesmas classes ditas minoritárias têm buscado a partir de seus segmentos e movimentos uma forma favorável para que a gente consiga falar sobre as nossas vidas, decidir sobre as nossas vidas, pontuar as nossas comunidades e colocar projetos políticos construídos coletivamente a partir das nossas experiências, mas também do que a gente tem de ancestralidade”, relata.

Caso eleita, Biatriz Santos pretende fazer um gabinete móvel para construir política de forma coletiva. “Nós não queremos corpos negros por corpos negros, a gente quer pessoas negras comprometidas com as nossas lutas, que estarão pontuando, levando nossas dores, angústias e o que entendemos de projeto político para o nosso país”, finaliza.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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