Além do recorte de sexualidade e gênero, o dossiê tem recorde de raça e classe. Em 2016, por exemplo, 38% das mulheres lésbicas assassinadas eram negras

Texto e imagem / Thamires Motta

Em 7 de março deste ano, a Universidade Federal do Rio de Janeiro recebeu a publicação do Dossiê Sobre Lesbocídio no Brasil, uma pesquisa inédita que expõe as mortes de 126 mulheres lésbicas ocorridos entre 2014 e 2017. Nos dois primeiros meses de 2018, foram registradas 26 mortes de mulheres lésbicas no Brasil.

Produzido por Milena Cristina Carneiro, Suane Felippe e Maria Clara Dias, do grupo de pesquisa “Lesbocídio – As histórias que ninguém conta”, o Dossiê expõe uma face da violência sexual e de gênero ainda muito silenciada no Brasil: o lesbocídio, ou seja, o assassinato de mulheres motivado pelo ódio ou repulsa por sua orientação sexual.

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Página inicial do site lesbocidio.com

O evento, no entanto, também escancarou o preconceito contra a produção intelectual que aborde questões de gênero, raça, classe e sexualidade no Brasil. As pesquisadoras passaram a ser perseguidas e ter sua integridade física ameaçada, com publicações de acusações em redes sociais e denúncias, endereçadas a diversos órgãos públicos, como a Ouvidoria e Reitoria da UFRJ, Ministério Público, CAPES e CNPq, atacando o caráter do trabalho com "acusações de fraude e insinuações mentirosas sobre o mau uso do dinheiro público", de acordo com a coordenadora do grupo, Maria Clara Dias.

“Existem outros grupos que pesquisam mortes LGBTI+, mas o nosso é o único no Brasil e um dos poucos no mundo que pesquisa especificamente mortes de mulheres lésbicas. Isto fez com que o lançamento do Dossiê fosse um momento muito significativo para os movimentos de lésbicas e para comunidade lésbica de forma geral”, revelam Milena e Suane.

De acordo com participantes, a perseguição passou a ser mais explícita no dia do evento, que teve interrupções e provocações de um homem na plateia. No decorrer das perguntas e respostas, a plateia começou a reclamar das atitudes dele, que eram de deboche diante da dor coletiva.

Segundo as pesquisadoras, a postura desse homem desencadeou uma onda de discussão e de insatisfação que culminou com a implosão do debate e do evento.

“Ao final, as lésbicas saíram dali mais machucadas do que entraram e esta foi uma sensação terrível para nós. Compartilhar involuntariamente um espaço de luto com pessoas lesbofóbicas é algo terrível”, relatam.

O estudante da UFRJ que levantou os questionamentos incômodos publicou sua própria versão da história. Em um site com o mote “Todo dia uma mentira do grupo gay da bahia”, ele se dedica a questionar cada uma das mortes elucidadas pela equipe Lesbocídio e também por grupos de pesquisa LGBTI+ no Brasil, alegando que estas não podem ser consideradas lesbocídios pois se tratam de “mortes acidentais e mortes de criminosas em confronto com a polícia”.

Em suas redes sociais, o estudante defende ter “orgulho de ser fascista” e de não pertencer ao MBL, embora seja simpático a estes. Sua intervenção, no entanto, foi comemorada pelo MBL e o Escola Sem Partido, que alegaram que a universidade pública não deve ser palco de estudos que “incentivem a ideologia de gênero”.

Falta de notificação contribui para invisibilidade

Diante dos questionamentos levantados por uma minoria de conservadores lesbofóbicos, as pesquisadoras explicam: “nem todos os lesbocídios são declarados por seus assassinos, ou seja, nem sempre encontram-se provas ou há de fato algum tipo de declaração como “eu vou te matar porque você é lésbica e eu odeio lésbicas””, apontam.

As mortes são avaliadas como lesbocídio sempre que a lesbofobia é um fator importante no assassinato daquela mulher em questão. Como no caso de Luana Barbosa dos Reis, mulher negra e moradora da periferia de Ribeirão Preto, que foi assassinada por policiais militares após pedir que fosse revistada por uma policial mulher. Além de ter sofrido racismo pela abordagem violenta que o Estado promove contra corpos negros, ela também teve seu gênero e sexualidade questionados porque usava roupas consideradas “masculinas”. A ideia de que uma mulher “vestida como homem” deve “apanhar como homem” é uma herança lesbofóbica que anula sua liberdade de ser como desejar.

Suane, Milena e Maria Clara demonstram a importância de coletar e divulgar dados de mulheres lésbicas assassinadas, trazendo à tona uma faceta da sociedade que as pessoas não querem enxergar: que lésbicas também sofrem crimes de ódio, discriminação e violência apenas por serem lésbicas. Serem negras, indígenas, não-femininas e/ou moradoras de periferias aumenta sua vulnerabilidade e exposição à violência. Ao mesmo tempo, a dificuldade de abordar o tema mostra que existe negligência e uma subnotificação significativa dos casos.

“A principal contribuição da pesquisa para a sociedade é evidenciar que os casos são tratados de forma negligente e isto quer dizer que carecem de fontes, de dados e que cada novo dado pode transformar as leituras possíveis de cada caso”, explicam as pesquisadoras. “Adotamos critérios rigorosos para traçar a metodologia com a garantia de três fontes primárias, informações provenientes de amigos e familiares das vítimas, entre outras técnicas.”, contam.

Mortes silenciadas

Segundo o Dossiê, em 69% dos casos do ano de 2016, as lésbicas assassinadas eram não-feminilizadas, e em 38% dos casos elas eram negras. Nesse ano, também houve o primeiro registro de lesbocídio envolvendo uma lésbica indígena.

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Ato "Nenhuma Luana a Menos" 18 de junho de 2016 em Ribeirão Preto (Imagem: Thamires Motta)

Para Milena e Suane, existe muita resistência em falar sobre gênero e sexualidade no Brasil, o que não as surpreende. “Existem setores muito conservadores, muita desigualdade racial, econômica, regional, geográfica, social, cultural. Muita miséria, pobreza e intolerância religiosa. E em meio a tudo isso ainda precisamos combater as heranças de um passado colonial, eurocêntrico e elitista embasado em valores religiosos dogmáticos muito prejudiciais à população LGBTI+”, opinam.

Para tentar combater a onda conservadora e as perseguições contra o grupo, elas criaram um abaixo-assinado em defesa da coordenadora da pesquisa Maria Clara Dias. No novo site da pesquisa, é possível entrar em contato notificando violências contra mulheres lésbicas, auxiliando a coleta de dados do grupo.

“Qualquer lésbica que tenha vivido uma situação de violência ou qualquer pessoa que tenha presenciado uma violência contra lésbica pode preencher e colaborar com os estudos do grupo.”, concluem.

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