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Mulher negra trabalha com educação infantil e teve a vida profissional afetada por mentiras propagadas nas redes sociais; ela relata ainda ter sido vítima de tortura no estacionamento da delegacia

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

A pedagoga Eliane do Espírito Santo e o marido foram agredidos por policiais militares durante uma abordagem truculenta em frente a casa onde moram na zona norte de Macapá, no Amapá, no dia 18 de setembro. A ação violenta foi gravada e as imagens circularam nas redes sociais,o que gerou revolta e protestos.

Com a repercussão do caso, a pedagoga passou a ser vítima de difamação e fake news. Vídeos gravados no dia da ocorrência mostram a pedagoga pisando no próprio óculos e respondendo perguntas no estacionamento da delegacia. As imagens, no entanto, não mostram que, momentos antes, a vítima foi atirada no chão pelos policiais. Também circularam nas redes sociais, de forma anônima, várias mensagens que afirmam que a pedagoga é criminosa e ligada ao tráfico.

Em resposta, a defesa de Eliane divulgou a cópia da ficha de antecedentes criminais, que prova que ela nunca foi presa, acusada ou investigada por tráfico. As mentiras prejudicaram a vida profissional da pedagoga.“Eu trabalho com reforço escolar. Depois de todas essas mentiras, nenhuma mãe trouxe os filhos para estudar na minha escolinha, por conta de tudo isso que eu passei”, conta a vítima, em entrevista ao Alma Preta.

Segundo Eliane, ela também foi torturada no estacionamento da delegacia, no bairro do Pacoval, onde ficou por mais de meia hora algemada e trancada dentro da viatura, sem circulação de ar. “Minha mão estava inchada. Eu pedi para um policial soltar um pouco mais as algemas porque a minha pressão estava aumentando e eu estava passando mal. Ele abriu o porta-malas e apertou mais as algemas. Eu passei mal, tive convulsão. Eles viram, abriram o camburão e me jogaram no chão”, relata.

A pedagoga conta que os minutos de tortura no estacionamento da delegacia serão lembrados como o pior momento de sua vida. “Fiquei presa por mais de quatro horas, o delegado não ouviu o nosso depoimento naquele momento. O meu irmão, que falou com a polícia, disse que a opção era pagar R$ 800 de fiança por cada um ou esperar até o dia seguinte por uma audiência de custódia”, lembra. A família fez uma arrecadação e pagou ao todo uma fiança de R$ 1.600 para liberar o casal.

No dia seguinte, sábado (19), Eliane tentou fazer a denúncia na delegacia da mulher. Ela conta que fez o exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal), que comprovaria as agressões sofridas, mas ela e a defesa não receberam o resultado. No domingo (20), a pedagoga foi convocada a retornar na mesma delegacia onde relata ter sido torturada. Ela prestou depoimento e o delegado devolveu os R$ 1.600 pagos na fiança.

A Coalizão Negra por Direitos considerou como "bárbara" a ação policial. Na abordagem da sexta-feira (18), a pedagoga ouviu agressões racistas dos policiais por ter gravado uma abordagem truculenta contra adolescentes e uma criança de quatro anos. “Cenas bárbaras como a registrada em Loteamento São José, na zona norte de Macapá, precisam parar e o atual governador, Waldez Góes, deve ser também responsabilizado por essa conduta criminosa e tomar providências imediatas para cessar as práticas genocidas de agentes do estado”, diz trecho do comunicado emitido pela coalizão, que reúne mais de 150 organizações do movimento negro brasileiro

Para os movimentos, o caso da pedagoga e seus desdobramentos “escancaram, mais uma vez, o racismo e a violência policial que ofendem, torturam, encarceram, traumatizam e matam a população negra brasileira”.

O Alma Preta procurou o governo do Estado do Amapá e a Secretaria Estadual de Justiça e Segurança para saber quais providências foram tomadas e se a origem das fake news sobre a pedagoga será investigada. Até a publicação desta reportagem, o governo e a secretaria não se posicionaram.

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