Pesquisas apontam para maior presença de candidatos brancos em momentos eleitorais e para maior investimento de recursos na campanha dessas figuras

Texto / Pedro Borges
Imagem / Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

Nas eleições de 2016, 58% das candidaturas às prefeituras municipais eram representadas por homens brancos. Enquanto isso, no outro extremo, 4% de mulheres não-brancas se lançaram ao posto.

O material, proveniente de uma pesquisa do Grupo de Estudo Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é resultado de mapeamento das 400 mil candidaturas, de aproximadamente 30 partidos diferentes, para as eleições municipais daquele ano.

Leci Brandão (PC do B), deputada estadual de São Paulo, acredita que o alto índice de brancos e a ausência de negros nesses espaços são reflexos do racismo presente na sociedade brasileira, que persiste em manter a comunidade negra fora dos espaços de poder.

“Não é mais aceitável que a gente ouça, em 2018, “a primeira negra isso, o primeiro negro aquilo”. Até quando vai ser novidade a presença de pessoas negras nos espaços de comando desse país? Essa revolução precisa acontecer”, afirma a deputada.

Os indicadores sobre os postulantes ao cargo de vereador também não são diferentes, com maior presença de candidaturas brancas, tanto nos partidos de esquerda, quanto nos de direita. O material evidencia, contudo, maior participação de brancos nas siglas de centro e de direita.

Os partidos que apostaram em mais candidaturas brancas ao legislativo municipal foram o Novo (90%), MDB (60%) e PSDB (58%). Autodeclarados pretos estiveram mais representados no PSTU (37%), PCB (19%) e PSOL (17%).

Leci Brandão acredita que os partidos políticos de esquerda não podem apenas incluir figuras negras nesse processo. Uma transformação social de impacto no Brasil precisa de mais, necessita de figuras políticas negras protagonizando esse novo projeto.

“Não dá para fazer revolução sem a população negra desse país, sem a população indígena, quilombola, sem as mulheres, sem contar com a diversidade sexual, religiosa e cultural do Brasil. Mas eu acredito muito nisso, eu sou otimista. A gente vai construir o nosso projeto popular”, afirma.

Leci Brandão (imagem: Alma Preta)

Para além de apostar mais em candidaturas brancas, quando negros são lançados, há menor investimento por parte dos partidos nessas figuras.

O jornal Estado de São Paulo apurou a candidatura de 7.074 pessoas, autodeclaradas negras ou brancas, para o pleito de 2014. Apenas duas siglas, PC do B e PCB, depositaram valor maior na candidatura de figuras negras do que brancas.

Foram registrados 701 candidatos pretos, com arrecadação de R$ 55 milhões, quantia que chega a R$ 78 mil por pessoa. Os pardos, quem compõem o grupo racial negro ao lado dos pretos, tiveram 2.229 candidatos, com arrecadação de R$ 209 milhões ao total, o representa o valor de R$ 93 mil por político.

A discrepância torna-se grande quando comparada aos candidatos brancos. Os 4.144 brancos postulantes a um cargo político público arrecadaram a cifra de R$ 1,2 bilhão de reais, o equivalente a R$ 285 mil por campanha.

Bruno Ramos, diretor-executivo da Liga do Funk, acredita que negros e brancos partem de lugares distintos e enfrentam barreiras diferentes, o que torna a tentativa da comunidade negra de alcançar espaços de poder mais complicada.

“Por causa das estruturas sociais, nossos passos são mais lentos. A gente não tem equipamentos, não tem recursos ou ferramentas para que a gente possa ir mais longe”.

Para ele, a possibilidade de igualar esse jogo passa pela política e pela maior inserção de negros nesses espaços para, assim, construir políticas que busquem maior igualdade racial.

“Enquanto a gente está falando das coisas que a gente sofre, as pessoas estão debochando. Elas não param para refletir e entender que isso é um problema sério. Isso ai é uma questão não só de políticas públicas, mas de prioridade do governo”, explica.

Bruno Ramos (Imagem: reprodução / YouTube)

Partidos políticos

A equipe de reportagem do Alma Preta tentou contato com partidos do campo de direita (Democratas, MDB e PSDB) e de esquerda (PC do B, PT e PSOL). Até o fechamento desta reportagem, nenhuma agremiação havia respondido os questionamentos dos repórteres.

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