Apesar de ainda não ter oficializado a candidatura ao Palácio do Planalto, o ex-ministro do STF já é considerado como um nome de peso na corrida presidencial. A provável campanha dele será um marco para a população negra?

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Elza Fiuza / Agência Brasil

Joaquim Barbosa ainda não é candidato a presidente da República, mas já é encarado pela opinião pública como tal. Além disso, os indícios de que ele concorrerá ao Palácio do Planalto aumentam dia após dia, em grande parte por causa da sua filiação ao PSB (Partido Socialista Brasileiro).

O possível candidato também já desponta como uma figura a ser considerada na corrida eleitoral. Em pesquisa de opinião divulgada em meados de abril pelo Datafolha, Barbosa aparece com 10% das intenções de votos, à frente de Geraldo Alckmin (PSDB), que tem 8% da escolha do eleitorado, e de Ciro Gomes (PDT), que aparece com 9%.

Para efeito de comparação, Jair Bolsonaro (PSL) lidera a pesquisa em cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - o pré-candidato de extrema-direita tem 17% das intenções de votos. No entanto, Bolsonaro está em empate técnico com Marina Silva (Rede), que tem 16%. Já Lula, quando considerado na pesquisa, desponta com 31% - antes da prisão, ocorrida no início de abril, ele aparecia com 36% das intenções.

O partido

Em pronunciamento divulgado à imprensa, Carlos Siqueira, presidente do PSB, relatou que o partido e Barbosa precisarão se encontrar periodicamente para afinar ideias com o objetivo de criar um projeto político, assim como manter diálogo com setores sociais a respeito da iminente candidatura.

De acordo com o mandatário, a proposta de candidatura própria da legenda leva em conta o “alto grau de desgaste da política convencional”, o que dialoga com a necessidade de autorreformulação dos partidos para estarem mais próximos à população. “Nós temos que procurar uma válvula de escape que dê ao país a possibilidade de ter um presidente com alta legitimidade e capital político, de tal maneira que ele possa influenciar a mudança no conjunto da política e, ao mesmo tempo, levar ao país propostas capazes de superar a crise na política”, destaca Siqueira.

Ainda segundo o presidente do partido, o fato de Barbosa aparecer à frente de Alckmin é um fator que revela como a população está descontente com a classe política, mas não será esse o fator decisivo para definir a provável candidatura do ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal): a construção de projeto de governo em conjunção com os interesses nacionais, de acordo com Siqueira, outros aspectos importantes, ao ressaltar que o partido está mais preocupado em oferecer alternativa de centro-esquerda ao país e apontar soluções para superação da crise política e demais problemas.

Ainda assim, a autoridade-mor do PSB ressalta que Barbosa não está no partido a passeio.

”Nós não convidamos Joaquim Barbosa para ingressar no PSB para ser vice de ninguém e não queremos indicá-lo como vice de chapa nenhuma. Nós queremos Barbosa à frente de uma chapa como candidato a presidente da República pelo PSB e com as alianças que conseguirmos realizar após a decisão dele e do partido”, reforça.

Ainda que possa haver interesses dissonantes dentro da legenda, não há discordância sobre o nome de Barbosa entre os 11 pré-candidatos do partido a governos estaduais. Segundo Siqueira, “pelo contrário: todos eles deram sugestões para organizarmos os próximos passos.” E o nome do ex-Ministro do STF poderá simbolizar até mesmo um fator de unidade dentro do PSB.

“Não tenho dúvida de que o potencial do ministro é maior do que a pesquisa Datafolha revelou. Portanto, ele pode agregar mais nas candidaturas de deputados e contribuir para o êxito dos palanques estaduais”, ressalta Siqueira, ao rechaçar a pressa em nomear Joaquim Barbosa como pré-candidato.

“Nós construiremos o nosso projeto tijolo a tijolo. Aprofundaremos as discussões para, se assim estiver decidido, apresentarmos um plano de governo que possa ganhar a maioria dos eleitores brasileiros para uma proposta de unificação do país, para uma proposta que tenha a perspectiva de solução das diferentes crises estamos vivenciando”, completa Carlos Siqueira.

Joaquim Barbosa, durante julgamento do Mensalão (Imagem: José Cruz / Agência Brasil)

E o eleitorado negro?

Apesar de a iminente candidatura de JB (Joaquim Barbosa) ter em si uma série de signos importantes, como ser homem negro que se esforçou para crescer na vida até tornar-se ministro e presidente do STF, além de ser a pessoa que deu início à “moralização” política no imaginário popular - o episódio do Mensalão não deixa mentir. Ainda que a questão racial seja levada em conta em relação a Barbosa, esse não será o principal ponto para ele.

“A maioria da massa popular não pensa a partir de raça e a gente tem de compreender que o movimento negro é um lugar de vanguarda. Senão, a gente fica com construções distantes da realidade objetiva e concreta. Mas, acredito que para o debate político, no seio da classe média e da militância, o fator racial será importante para essa eleição - e o fator JB idem. E acredito também em que ele entrará pela questão da moralização da política, não pela questão racial”, explica Edson França, vice-presidente Nacional da Unegro (União de Negros pela Igualdade) e membro do Comitê Central do PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

Ainda nessa linha, França reforça que o fator moralidade invadiu o contexto político e que o ex-presidente do STF é um dos símbolos dessa guinada.

“Poderia ser ele, mas poderia ser, eventualmente, Carmen Lúcia [atual presidente do STF], entregando a toga, e ela receberia os votos que JB tende a receber, poderiam ser [o juiz federal Sérgio] Moro, [o procurador Deltan] Dallagnol ou outro”, ressalta França, ao ressaltar um dos papéis de Barbosa para o PSB: “ele é apenas uma coincidência e uma esperteza do PSB para aproveitar a possibilidade de ter um nome de grande relevância na área da ‘moralidade’ contra a corrupção do lado deles.”

Ainda que a plataforma de JB não seja totalmente conhecida e que seu caso seja particularmente complexo, ele está inserido no campo progressista - o seu voto em favor das cotas raciais e o seu posicionamento contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) são exemplos disso.

Joaquim Barbosa é, na visão de França, uma incógnita no fim das contas. Apesar de seus votos no STF terem sido, historicamente, ligados ao campo progressista, dialogando com setores preocupados com o bem-estar social, defesa de direitos humanos e civis e pela presença do Estado na formação de políticas públicas, ele demonstrou o seu lado controverso durante a votação do Mensalão.

“A partir do voto dele, começa o desmonte político da esquerda no poder - esse é o problema dele -, mas não implica dizer que ele seja liberal. Então, se eu fosse arriscar dar uma de sociólogo, arriscaria dizer que ele é social-democrata autêntico”, explica Edson França, que é historiador de formação.

O risco de cooptação político-ideológica de Barbosa não pode ser descartado no que diz respeito a concessões, mas isso não o caracteriza como indivíduo conservador e com pensamento político e econômico de viés liberal. “Ele irá compor o leque de centro-esquerda, podendo fazer concessões questionáveis, assim como Lula e, principalmente, Dilma fizeram. Então, não fugiria muito do que o PT foi no governo”, descreve, ao lembrar da escolha que a ex-presidente fez, ao nomear Joaquim Levy como ministro da Fazenda em seu segundo mandato, entre janeiro e dezembro de 2015.

Para completar, é importante ressaltar que JB não será o candidato da unidade negra. Afinal, é impossível, segundo a lógica do vice-presidente Nacional da Unegro e membro do Comitê Central do PCdoB, agradar mais da metade da população brasileira, marcada pela grande diversidade ideológica, religiosa, econômica e cultural, por exemplo.

No entanto, ainda que a questão racial não seja o ponto central da iminente candidatura de Joaquim Barbosa, ele tem ascendência entre setores do movimento negro.

“Não se deve descartar, em hipótese alguma, a migração de vários setores do movimento negro na campanha de JB. É uma campanha que irá calar fundo os brasileiros e que tende a trazer mensagem tal qual foi a de [Barack] Obama. Não estou me contradizendo: a massa não vota pela raça, mas a raça será um componente importante, em especial sendo JB. Não é esse componente que fará a candidatura ser competitiva, mas esse caldo de moralismo que está impregnado na política brasileira. De todo modo, Barbosa tem grande representação do movimento negro e junto à população negra”, completa Edson França.

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