O incêndio que atingiu o Museu Nacional no último domingo, destruiu um acervo de cerca de 20 milhões de itens e uma Universidade. Estudantes negros e indígenas também estudavam no local, dando novos olhares sobre a história contada sobre esses grupos populacionais

 

Texto/Aline Bernardes

Imagem/Acervo

Os espaços de prestígio da sociedade brasileira, como a educação superior, revela uma das faces do racismo no país: o estrutural, onde as populações negras e indígenas são impossibilitadas de desenvolver-se em sua plenitude. As ações afirmativas receberam destaque no cenário nacional no início da década de 2000 por meio da luta social feita, principalmente, pelo movimento negro que impulsionaram o Estado a adotá-las no ensino superior.

Essa medida tem como intuito neutralizar os efeitos da discriminação racial. E assim tornar significativa a representação destes grupos nos espaços e promover a igualdade racial. As cotas mudaram o perfil dos estudantes de graduação das universidades brasileiras. Entretanto, essa realidade foi pouco aplicada às demais esferas do ensino superior, como a pós-graduação e os cargos de docência.

O professor do PPGAS (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Nacional) no Museu Nacional, Marcio Goldman, 61 anos, concedeu uma entrevista ao Alma Preta onde relata o processo para implementar as ações afirmativas na pós-graduação.

“O sistema de cotas para estudantes negros e indígenas foi implantado a partir de uma proposta apresentada em 2007, e de uma luta conduzida desde 2006, por um grande grupo de estudantes do PPGAS desde 2006. A proposta demorou quase 6 anos para ser votada pelo colegiado de professores, mas finalmente foi aprovada em 2012 — com apenas um voto contrário e duas abstenções.”

Em pouco tempo, segundo ele, a quantidade de estudantes negros e indígenas aumentou consideravelmente a ponto de os primeiros terem constituído o Coletivo Negro Marlene Cunha. Mas a importância desse espaço acadêmico ser frequentado por essas populações é ainda maior.

“A presença física e espiritual dessas minorias e de seus saberes no espaço universitário obriga professores e estudantes a reconsiderar uma série de hábitos adquiridos: modos de falar, termos, e noções que escondem suas raízes nos mecanismos históricos de exclusão e segregação”, finaliza ele.

O Museu Nacional enquanto academia

A academia brasileira foi estruturada a partir de modelos eurocêntricos, o que garantia à elite, massivamente branca, o monopólio da produção científica sobre o que é a realidade brasileira. Mas estudantes como Nelly Barbosa Duarte, 37, e Anderson Pereira, 37, começaram a mudar esse cenário.

“O Museu Nacional para mim foi uma Universidade onde nenhum brasileiro nativo entrava. Então foi um desafio conseguir ocupar esse lugar. Era uma oportunidade de desafiar. Eu poderia estar ali, como uma indígena, que veio do Amazonas, da última região de lá. Mostrar quem eu sou e apresentar que eu também faço parte do Brasil. E nada sozinha, eu estava com mais um grupo de estudantes indígenas.”, diz a pós-graduanda Nelly Duarte.

Anderson Pereira conta ao Alma Preta que entrou na Universidade para ser mais um aluno de antropologia social, mas que ao se deparar com a realidade que ali existia tornou-se militante.  

“Ocupar aquele espaço por outros corpos é transformador. Ver alunos indígenas e negros entrando pela porta da frente portando os crachás do Museu Nacional enriquecia a academia. Esse pulsar de se obrigar a defender-se é dar-se oportunidade de pautar novas vivências e espalhar modelos de aprimoramento quanto seres pensantes e sociedade”, diz.

De quem é a culpa?

Perguntado sobre os possíveis culpados pelo incêndio no Museu Nacional no último domingo, o professor Marcio Goldman responsabiliza a negligência dos governos federais com a estrutura do prédio.

“Anos de incúria e descaso, de pouquíssima verba alocada para atividades como aquelas desenvolvidas no Museu e no PPGAS, permitem ver nesse suposto “acidente” uma espécie de “morte anunciada””, diz.

Para ele, é preciso lembrar que uma regra ou verdade geral nunca dá conta dos casos particulares. E que trabalhar por 25 anos no Museu Nacional significa reconhecer que aquele espaço era um “território”, uma espécie de moldura enquadrando as relações físicas e humanas ali travadas.

“Foi nesse território que aprendi a tentar resistir às forças e aos pensamentos dominantes; que me esforcei por transmitir essa tentativa aos estudantes; que encontrei pessoas que a universidade ajudou a escapar de um destino de conivência ou submissão; que vi estudantes negros e indígenas orgulhosamente ocupando um espaço que sempre os havia rejeitado, obrigando-o a se modificar. Enfim, e como todo território, um território de luta e de resistência, ou seja, tudo aquilo pelo que realmente vale a pena chorar. E que é mais difícil de destruir do que um prédio e muitas coleções”, finaliza.

 

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