Contrariando as estáticas e tudo que o patriarcado pensa, Sharylaine uniu o rap com a militância negra e feminista

Texto / Lívia Martins
Imagem / Crewactive

“Alô, som...”

Rimando a sua vivência e contar histórias ritmadas para quem estiver na sua frente, Sharylaine foi pioneira na cena do rap da cidade São Paulo. Ela estava ali, entre muitos rapazes que ficaram atraídos pela novidade gringa, a cultura hip hop, movimento musical que chegou no Brasil no final da década de 1980.

Pode-se dizer, sem medo de errar, que Sharylaine foi pioneira em um contexto até então tido como exclusivo para homens. “O rap, para mim, é o instrumento onde eu uso a minha liberdade de expressão e ser ativista”, conta a MC, que inspirou muita rapper boa a mostrar que todos e todas têm espaço e um lugar ao sol.

Primeiros versos e consolidação da caminhada

Nascida em um bairro da Zona Leste de São Paulo, Sharylaine teve o primeiro contato com o rap por meio dos quatro pilares conhecidos como fundamentais dessa cultura: MCs, DJs, graffiti e o break. O primeiro que apareceu para ela foi a dança do grupo “Nação Zulu”, cujo participantes ela conhecia.

Nesta mesma época, Sharylaine começou a envolver-se com a rima. “Comecei a trocar as palavras que apareciam no masculino para o feminino. A partir disso, comecei a cantar junto com a minha prima”, descreve.

Aos poucos, a artista foi conquistando o seu espaço nos palcos e deixando a sua marca registrada ao usar roupas cor-de-rosa para se apresentar. O microfone nunca mais foi desligado, mas ampliado e ganhando novas porta-vozes para retratar a vivência feminina. Em 1986, Sharylaine fez parte do Rap Girls, primeiro grupo de rap formado apenas por mulheres.

A caminhada de Shary foi ganhando novos elementos e por intermédio de suas músicas, como “Nossos Dias” (1990) e “Saudade” (1992), foi se tornando conhecida e desbravando outros campos.

Engajamento por meio das rimas

Para lutar pelo protagonismo da mulher no rap e debater democraticamente outras ideias relacionadas ao feminismo, a rapper foi uma das fundadoras da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, coletivo atuante em 17 estados brasileiros.

“O objetivo da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop é voltar os holofotes às mulheres negras no rap, que ainda são sabotadas e prejudicadas pelo racismo institucional existente no mundo da música. Nós nos preocupamos também com o aumento da diversidade nesse cenário”, ressalta a MC e ativista, sobre o trabalho do coletivo. Algumas das atividades organizadas pela instituição abrangem oficinas, eventos e publicações de livros próprios, editados pela própria organização.

Para Sharylaine, o caminho iniciado por ela foi fortalecido e adquiriu a caractéristica de cantar e falar de forma plural com a nova geração de cantoras de rap. “ Na nossa sociedade, nós somos maioria. Se não tivermos mulheres (no meio), a disparidade estará no meio da cultura também”, completa.

Sem a cantora, hoje a história do rap brasileiro poderia ser diferente e o que entendemos por participação de mulheres na cena musical poderia ter outra trajetória. Porém, a batalha pôde contar com a participação de Ildslaine Mônica da Silva - ou Sharylaine Bakhita para os fãs.

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