“Não acho que seja mais difícil identificar transtornos psicológicos em homens negros. É difícil que eles cheguem a pedir ajuda ou até mesmo reconheçam que precisam”

Texto / Jessica Ferreira
Imagem / Pixabay

[Aviso: suicídio]

Rodrigo Leandro, conhecido como Calton, era um homem de 21 anos, negro, nordestino, periférico e universitário. Ele cursava física no campus de Bauru da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

O jovem que foi descrito por um amigo como uma pessoa sorridente e simpática. Também enfrentava problemas relacionados à depressão e ansiedade, além de complicações financeiras.

Rodrigo mudou-se para Bauru há cerca de um ano e era considerado um dos melhores alunos da turma, com excelente desempenho acadêmico.

Nos últimos meses, estava procurando emprego e bolsas de permanência na universidade para tentar se manter na cidade. Porém, ele não conseguiu nenhum tipo de respaldo financeiro em mais de 10 meses de busca, tanto da universidade, quanto fora da instituição.

Rodrigo cometeu suicídio na madrugada de 2 de junho. É o segundo em que um homem negro tira a própria vida na Unesp Bauru. A universidade não se pronunciou sobre o assunto e até o fechamento da matéria não tomou nenhuma atitude em favor da preservação da vida de seus alunos.

Um pouco do processo histórico de desumanização e o banzo

Desde o início do processo de colonização nas Américas, as populações negras foram arrancadas de seu berço e obrigadas a permanecer dentro de um sistema escravocrata durante centenas de anos. Esse processo é refletido na atual situação do povo negro em diversos países. Entre os frutos colhidos por esse sistema, estão os prejuízos para a saúde mental negra e a falta de estudos sobre resoluções efetivas para o problema.

O sequestro seguido da travessia de negros entre a África e as Américas tratava-os como objetos. Toda a humanidade das populações africanas enganadas era roubada naquele momento.

Estima-se que cerca de 10% dos escravizados não sobreviviam ao cruzamento do oceano. Entre as doenças contraídas estavam bexiga, hepatite, malária e um mal silencioso, o banzo. O banzo era um sofrimento psíquico patológico, que consistia em nostalgia saudade da terra natal em níveis extremos. Essa ‘saudade’ resultava em morte em diversos casos.

O suicídio de pessoas negras nos tempos coloniais era cometido por meio de diversos métodos, que abrangiam enforcamento, uso de armas brancas e até mesmo afogamento. Outro evento letal acontecia por meio da interrupção do consumo de alimentos e água: não havia nenhuma vontade de viver.

O desgosto pela vida e o desejo de morrer podem ser atribuídos às reações nostálgicas decorrentes da perda da liberdade e dos vínculos com a terra e com o grupo social de origem, assim como os castigos excessivos impostos pelos senhores. Acreditava-se inicialmente que esse sentimento atingiria somente a primeira geração da população escravizada, mas não foi o que aconteceu.

Suicídio de pessoas negras no século XXI

A repercussão desse processo ainda é vigente no século XXI. No Brasil, entre 2002 e 2008, o suicídio entre brancos cresceu 8,6%, enquanto o indicador entre negros registrou aumento de 51,3%.

As altas taxas de suicídio negro podem ser atribuídas à manutenção dos ideais criados, evoluídos e perpetuados no período escravagista. Mônica Mendes, psicóloga com especialização em psicologia da saúde e mestre em saúde pública pela pela Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), explica que o racismo é um componente que influencia na saúde psicológica negra. Porém, esse não é o único fator determinante nesse cenário.

De acordo com Mendes, o suicídio envolve fatores que vão além de condições sociais, uma vez que elementos singulares devem ser levados em conta, em especial traços subjetivos: aspectos pessoais e a história da pessoa, uma vez que cada indivíduo reage de modo diferente ao mesmo fato.

“Logo, a particularidade que a raça ou o racismo pode operar no campo psique consiste na negligência nos atendimentos, maior tempo de espera, maior percurso e na peregrinação até encontrar atendimento adequado.”

Mônica Mendes falou sobre pesquisa desenvolvida pelos professores Luis Eduardo Batista e Luiza Barros sobre os negros serem mais diagnosticados com transtornos mentais e permanecem mais tempo em internação, mesmo em quadros menos graves.

Masculinidade negra

O homem negro sofre, no cotidiano também, consequências provenientes de estereótipos, hiperssexualização e racismo. Ao longo da história, é possível perceber que as representações de homens pretos na literatura, teatro, cinema e televisão são baseadas em conceitos racistas preestabelecidos: eles costumam ser apresentados como pessoas primitivas, preguiçosas, selvagens, de má índole ou superviris.

A necessidade masculina de ostentar provimento e virilidade pode ser nociva para a percepção de si mesmo. A questão de ser provedor vai além da capacidade de sustentar a família, pois se trata de questão de precisar ser sempre forte e corajoso, assim como ser a representação de segurança, proteção, abrigo e acolhimento. A virilidade é uma maneira de expor o corpo negro à ideia de homem selvagem, incansável e com bons atributos sexuais, o que também é associado à falta de civilidade e inteligência.

Em determinados casos, todos esses estigmas acabam trancando o homem preto em seu próprio sofrimento, o que o deixa sem espaço para falar sobre si mesmo e seus sentimentos.

Alan Augusto Ribeiro, antropólogo e doutor em educação pela USP, mostrou que a comunicação pode ser um fator determinante na expressão do negro. Segundo Ribeiro, os homens negros têm os canais de comunicação negados, uma vez que grupos e pessoas lhes interditam o acesso a eles por meio de sistemas de opressões de desigualdade e de estereótipos.

“Estou falando também das escolhas e, em muitas vezes, escolhas que decorrem da maneira como esses homens se percebem e se enxergam no conjunto de relações. Em resumo, lhes são negadas as possibilidades de falar sobre si mesmo, expressar-se e vivenciar seus sentimentos, emoções e sensibilidade como algo legítimo. Por isso há também um autobloqueio”

Mônica Mendes chama também a atenção para a falta de reconhecimento em momentos nos quais é necessário receber ajuda em relação ao sofrimento e à saúde.

“Não acho que seja mais difícil identificar transtornos psicológicos em homens negros. É difícil que eles cheguem a pedir ajuda ou até mesmo reconheçam que precisam”.

Procurando ajuda

A Clínica do Instituto AMMA Psique e Negritude é uma das instituições cujo objetivo é possibilitar o atendimento psicoterapêutico à comunidade negra, visando o tratamento dos efeitos do racismo por meio de rede de atendimento composta por profissionais especializados em diferentes abordagens.

Para ser atendido, encaminhe um e-mail falando informando nome, idade, região de moradia e um número de telefone para contato para o endereço clinica@ammapsique.org.br.

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