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Comentários do técnico Roger Machado, na última semana, levantaram o debate sobre a presença de negros no comando dos times

Texto / Lucas Veloso | Edição / Pedro Borges | Imagem / Rodrigo Rodrigues - Grêmio FBPA

No Brasil, as duas primeiras divisões do Campeonato Brasileiro somam 40 clubes. Destes, apenas três técnicos são negros. Na série A são Roger Machado, do Bahia, e Marcão, do Fluminense. Na série B, Hemerson Maria, do Botafogo-SP, é o único.

No último sábado (12), Fluminense e Bahia se enfrentaram no Maracanã. A partida aproximou os dois treinadores negros da primeira divisão do futebol brasileiro. Até a semana anterior ao jogo, quando Marcão não tinha sido efetivado como treinador do Tricolor carioca, Roger Machado era o único negro entre os 20 comandantes das principais equipes do esporte.

Marcelo Carvalho, idealizador e diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, explica que é difícil contabilizar o número de técnicos negros, pois há vários campeonatos regionais. Por outro lado, as equipes de elite servem de exemplo para pensar o racismo dentro de campo.

“O que a gente consegue apontar é que de 2014 para cá, quando nós começamos a trabalhar, surgiram Roger, Marcão, Cristovão Borges e Jair Ventura, os técnicos negros que surgiram e geraram esse debate. Eles sempre são citados”, pontua.

Segundo informações do jornal Folha de S.Paulo, publicadas em março deste ano, no campeonato paulista apenas 10% dos técnicos são negros. São três dentre os 48 times que disputam as três principais divisões de São Paulo.

Em prol da discussão, o Observatório propôs uma campanha de conscientização para reforçar a baixa presença de negros na série A do Brasileirão. Na coletiva antes do jogo, na última semana, Roger Machado comentou a representatividade em campo.

“À medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual. A gente tem que refletir e se questionar”, observou o técnico. “Se não há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil?”, questionou.

Na fala, ele ainda pontuou que o Brasil vive um preconceito estrutural. Roger exemplificou que não sofreu injúrias e nem ofensas raciais diretamente, mas isso não quer dizer que o país não é racista, pois os xingamentos são apenas ‘sintoma dessa grande causa social que nós temos’.

Ao tratar de responsabilização, Machado apontou o Estado como responsável pelo que chamou de ‘atraso, depois de 388 anos de escravidão’. “[As políticas públicas] estão sendo retiradas nesse momento. Na verdade, esses casos que vêm aumentado agora. Os casos diretos de preconceito racial são sintomas. A estrutura social é racista. Ela sempre foi racista”, completou.

No mundo

A discussão racial não é apenas um problema brasileiro. Na NFL, a liga de futebol americano, existe a Lei Rooney, que obriga as equipes a entrevistar candidatos de minorias étnicas. No ano passado, a Federação Inglesa também se comprometeu com essa orientação.

Nos estádios britânicos, os números mostram um aumento de injúrias raciais nos campos de futebol. Segundo a organização inglesa 'Kick It Out', por meio de um relatório divulgado em julho deste ano, aumentou em 47% os casos de racismo dentro de estádios no Reino Unido na última temporada.

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