O Alma Preta conversou com pesquisadoras e ativistas negras da Colômbia para entender o panorama da teoria acadêmica e da ação política de mulheres negras na América Latina

Texto / Pedro Borges
Imagem / TeleSur

No ano de 1992, na cidade de Santo Domingo, na República Dominicana, instituiu-se 25 de Julho como o Dia da Mulher Afro-latinoamericana e caribenha. A data visa dar destaque à resistência das mulheres negras em toda a América Latina e à luta contra o racismo e o machismo.

O Brasil só adotou a data no calendário oficial da nação em 2 de junho de 2014, o que sagrou o país como o último a celebrar o dia de maneira oficial. A lei 12.987, proposta de autoria da ex-senadora Serys Slhessarenko (PT), escolheu por homenagear o 25 de julho com o nome da líder quilombola do Mato Grosso, e transformar a data em Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

O dia se constitui como um marco importante de resgate e valorização das identidades e das histórias de dezenas de mulheres negras do Brasil e da América Latina, que resistem desde a chegada dos colonizadores europeus e a vinda forçada de africanas e africanos para as Américas.

Uma das teorias e práticas políticas mais referendadas pelas mulheres afrodescendentes é o feminismo negro, que segundo Angela Arroyo, do Centro de Estudos Afro-Diaspóricos da Universidade de Icesi, Colômbia, recebe a influência, a partir da década de 1970, do surgimento de um feminismo dissidente.

“São todas as mulheres racializadas, pretas, indígenas e lésbicas, que começaram a questionar por que o feminismo não as tinha considerado, assim como as suas particularidades. Isso porque o sujeito do feminismo era, até então, a mulher branca heterossexual.”

Catalina González Zambrano, pesquisadora colombiana do Programa Internacional de Pós-doutorado do Centro Brasileiro de Pesquisa e Planejamento, conta que as mulheres negras da América Latina tiveram influência importante de norte-americanas, como Angela Davis, bell hooks, Alice Walker, entre outras, para constituírem de fato a teoria na América Latina a partir dos anos 1980.

“Este foi, claramente, um ponto de partida para o feminismo negro na América Latina e uma teoria com características próprias da região”, conta.

O desenvolvimento da teoria nasce do não reconhecimento da mulher negra com o feminismo tradicional e com a luta antirracista, que estava centralizada na figura do homem negro. É a prática política desenvolvida na década de 1980 que lhe permitiu ter um melhor abrigo político.

“O feminismo negro aparece e cria um lugar para esse grupo, o que ainda não existia”, conta Angela Arroyo.

A importância se dá por conta da posição de subalternidade da mulher negra na América Latina. Dados apurados pela Empresa Brasil de Comunicação acerca da condição desse grupo no continente ajudam a visualizar essa constatação.

Em Porto Rico, um homem branco com ensino superior tem 89% mais chances de entrar no mercado de trabalho, enquanto mulheres negras têm 60% de chance. Outro país da diáspora africana, o Uruguai, tem taxa de desemprego de 7%, que dobra e chega aos 14,3% para elas.

O feminismo negro consiste, então, em uma possibilidade de mudança da realidade social do continente.

“O feminismo negro latino-americano é um discurso transformador da situação da mulher negra na região. É a base conceitual para denunciar o sistema de opressão, mobilizar os coletivos e movimentos e fazer alianças para transformar a realidade social desse grupo.”

Dificuldades e avanços na luta

Angela Arroyo aponta que as dificuldades encontradas pelas mulheres negras no continente latino-americano são muitas, afinal, se desdobram do resultado de vítimas das opressões que estruturam o capitalismo no continente.

“Esta desconstrução de estruturas de opressão não é simples, pois elas foram alimentadas, portanto, ao longo do tempo na nossa história.”

A pesquisadora Angela Arroyo também acredita que uma dificuldade singular para a América Latina é a construção da identidade racial das mulheres negras por causa da mestiçagem e do mito da democracia racial, característica bastante presente no cotidiano brasileiro.

“Eu acho que o mito da democracia racial e da mestiçagem, é uma dificuldade grande para o movimento negro e para as mulheres negras na América Latina e no Caribe.”

Sobre os avanços, Angela Arroyo destaca a maior presença de mulheres negras na academia, produzindo ciência para enfrentar o racismo, sexismo e a LGBTfobia. Um dos exemplos disso é o nível de sofisticação teórica do feminismo negro, que se transformou em uma potente ferramenta de luta.

“Eu acho que a interseccionalidade seja um dos principais aportes do feminismo negro, pois se trata de perspectiva teórica que pode ser usada por homens, mulheres indígenas e por outros setores da população que não seja o feminino. Mas é necessário a gente trazer essas produções teóricas para falar de uma desconfiança das categorias.”

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