Uma lógica perversa e histórica põe em risco vida de famílias que vivem em áreas valorizadas pelo capital

Texto / Thalyta Martins
Imagem / Nelson Almeida / AFP / JC

Há muitas formas de coação, perseguição a uma pessoa que pensa diferente ou organizações, partidos políticos que "atrapalham" o andamento de negócios fraudulentos e que atendem a interesses de uma massa rica da população. Assassinatos, agressões físicas e verbais, calúnias e difamações, ameaças e até mesmo incêndios criminosos são mecanismos para causar terror, medo e regressão.

Na madrugada do dia 01 de maio, a ocupação do Largo do Paissandu ruiu depois de um incêndio. As autoridades dizem que um curto circuito de início ao fogo, mas Movimentos Sociais questionam se não foi um incêndio criminoso.

Casos comuns no Brasil

Já vimos o que aconteceu em favelas do Rio de Janeiro, de São Paulo; na Amazônia, na Chapada dos Veadeiros; e em ocupações.

Os incêndios criminosos são causados para esvaziar uma área e, assim, justificar a especulação imobiliária e/ou o acesso da iniciativa privada a espaços valorizados economicamente.

No caso da ocupação do Largo do Paissandu, por exemplo, sabe-se que políticos tinham conhecimento de que lá viviam pessoas, homens, mulheres e crianças que não tinham condições financeiras de pagar o valor de um aluguel. Vítimas do desemprego, do preconceito, estavam nas margens do centro em um prédio sem condições de segurança, por necessidade.

Um documento da Secretaria Municipal de Licenciamento finalizado em 26 de janeiro de 2017 apontava o local como de risco para permanência humana, por, entre outras coisas, não possuir extintores, sistema de hidrantes, mangueiras, luzes de emergências, sistema de alarme, instalações elétricas regulares, elevadores e corrimãos nas escadas.

Outro ponto foi uma solicitação do Ministério Público Federal que não foi atendida. Em novembro de 2017 foi recomendada uma reforma estrutural do edifício Wilton Paes de Almeida e a instalação de equipamentos de segurança, assim como proteção contra incêndios, por se tratar de um imóvel tombado.

Voltando um pouco no tempo, em abril 2012, foi aberta na Câmara de Vereadores uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) dos incêndios para investigar as causas de desastres na Favela do Moinho, à época situada em área valorizada na região central da cidade de São Paulo. Veio a público que todos os vereadores envolvidos inicialmente das investigações eram integrantes da base do governo e tinham recebido financiamento de campanha do setor imobiliário.

Até outubro de 2012, a CPI tinha realizado apenas três sessões e cancelado outras cinco. O relatório final elaborado pelo presidente da CPI apontou que inúmeros fatores foram responsáveis pelos incêndios em favelas. Os principais: problemas climáticos e elétricos. Em relação a incêndios criminosos por conta de uma possível especulação imobiliária, o relatório concluiu que não teve nenhuma comprovação de que isso possa ter acontecido.

O que não é desejado é retirado, colocado longe e escondido. Tendo isso em vista, ex-moradores da ocupação permanecem no Largo do Paissandu cobrando soluções eficientes para seu problema de moradia.

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