Europa lidera no ranking de jogadores naturalizados ou filhos de imigrantes; todavia, quadro não reflete realidade populacional dos países do continente

Texto / Jacob e Aline Bernardes
Edição / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Getty Images

A presença de imigrantes tem influência no comportamento sociocultural de populações em diversos países. É possível dizer que áreas como culinária, moda, arte, linguagem e o futebol, em particular, são impactados de modo definitivo por traços culturais de cidadãos que vêm de outros países, em geral afetados por crises socioeconômicas ou humanitárias, para tentar melhor sorte em outras pátrias.

Entre os 736 atletas inscritos na competição deste ano, 83 deles nasceram em um país diferente da seleção que defendem. As nações europeia que continuam na Copa do Mundo, por exemplo, têm quantidade de imigrantes nas respectivas seleções nacionais muito superior do que os percentuais populacionais. 

Sendo assim, quais fatores explicam a presença significativa de imigrantes em nações que não são as suas de origem?

“O fenômeno das naturalizações tem origem do fluxo migratório do sul [onde ficam os países 'periféricos'] para as principais potências capitalistas”, explica Márcio Farias, doutorando em psicologia social.

Com estes movimentos, atletas de outras nações, colônias ou ex-colônias passaram a ter o passaporte europeu. Dessa maneira, essa medida facilitou para as seleções da Europa ganharem caráter multicultural, ou seja, integrado por jogadores de várias nacionalidades, entre as quais estão os 11 jogadores africanos.

“A ascensão de jovens negros no mercado formal não se compara à possibilidade de ascensão no futebol”, diz Márcio sobre as injustiças enfrentadas por imigrantes na Europa. 

Raízes imigratórias

O questionamento sobre o porquê de haver muito mais imigrantes em equipes nacionais do que na composição populacional vem à tona. De acordo com Andressa Ugaya, doutoranda em educação física, a naturalização destes jogadores têm finalidade utilitarista. “Há relação com a escravidão. A diferença é que, agora, não tiram as pessoas à força do continente africano, mas continuam comercializando os povos”, analisa.

Ao levar-se em conta o viés utilitarista em seleções europeias, é possível estabelecer, em certa medida, paralelo com o histórico escravocrata brasileiro. Estima-se que mais de 5 milhões de pessoas negras foram sequestradas em suas terras e trazidas ao Brasil como escravas.

O reflexo sociocultural é, em âmbito populacional, haver 54% de pessoas negras no país - e no futebol, é claro. Não por acaso, a história futebolística brasileira conta com diversos jogadores negros, sendo os destaques diversos - desde Didi, cujo sonho de ser treinador da equipe nacional foi negligenciado por ele ser negro, a Pelé, passando por Romário, Jairzinho e Ronaldinho Gaúcho, por exemplo.

Na seleção de 2018, alguns destaques afro-brasileiros são Willian, Douglas Costa, Fernandinho, Marcelo, Neymar e Paulinho, que tem também origem indígena - ele é descendente da tribo Xucuru, situada em Pernambuco.

Crise humanitária em campo

Diferente de quando eram colonizadores, a Europa agora vive uma crise humanitária nas suas fronteiras. Mais de 2 mil corpos do Oriente Médio e da África foram encontrados nas encostas do Mediterrâneo. Esse é reflexo da exclusão histórica que continua a excluir no presente. O sentimento xenofóbico e racista de parte da população europeia que engloba os refugiados transpassa as barreiras e encontra as quatro linhas do campo.

“A sociedade é estruturalmente racista. Assim, esses atos acontecem em qualquer âmbito da sociedade”, diz Andressa. O futebol é um fenômeno de massa, e a massa segue de maneira irrefletida. Dentro desse espaço, o sujeito diz e faz coisas que fora desse contexto não faria.

“A conjuntura história é acompanhada pela massa cuja origem tem determinações como classe, raça e gênero, que são refletidos nas palavras de ódio proferidas”, completa Márcio Farias.

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