fbpx

Dados de bairros como Brasilândia, Sapopemba e Jardins enfatizam que a crise do novo coronavírus não é democrática

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

De um lado, Brasilândia e Sapopemba, distritos com alto índice de densidade demográfica de São Paulo, que lideraram o número de óbitos totais e ilustram a face pobre da cidade. Do outro, o Jardim Paulista, região com uma população mais rica e que costuma fazer viagens ao exterior, onde foi registrada a primeira infecção do novo coronavírus no Brasil.

A Ação Covid-19, grupo interdisciplinar de pesquisadores dedicados à entender como a desigualdade afeta a evolução da pandemia no Brasil, analisou a expansão da pandemia em diferentes territórios entre o fim de março e início de junho de 2020. A análise encontrou “discrepâncias de realidades” que se refletem em distintos padrões de isolamento, transmissão e mortalidade entre as populações dessas áreas. O estudo conclui que “as extremas desigualdades da capital paulista são amplificadas na pandemia”.

A cidade de São Paulo tem 12,18 milhões de habitantes e registrou a primeira morte em decorrência do novo coronavírus em 17 de março. A Brasilândia, na região norte, com 264 mil habitantes, possui loteamentos populares implantados sem planejamento, com ruas estreitas, terrenos pequenos e ausência de espaço público.

O estudo lembra que a alta densidade e o grande número de pessoas vivendo em um mesmo domicílio com poucos cômodos, questões sanitárias que incrementam a vulnerabilidade da saúde de seus moradores, são fatores que agravam os impactos da Covid-19 em sua dispersão nas periferias. “Esses fatores colocaram a Brasilândia, já no começo da pandemia, entre os distritos líderes em mortes absolutas em São Paulo. Tal situação é extremamente preocupante em uma região que só agora recebe um hospital apenas 11,8% pronto e com quatro anos de atraso em sua construção. Mesmo esse aumento de leitos (apenas 20) não deve melhorar muito a situação para a Brasilândia, que possuía uma proporção de 0,011 leitos por cem mil habitantes até o ano passado”, informa a Ação Covid-19.

No distrito, a adesão ao isolamento foi menor do que o ideal e a rotina seguiu “quase a normalidade pré-quarentena”, já que boa parte de sua população não pode deixar de sair para trabalhar e tem necessidade de fazer baldeação no transporte público.

Jardim Paulista

Situado na Zona Oeste, o Jardim Paulista tem 88.692 mil habitantes, compõe a região dos Jardins e contorna a Avenida Paulista no sentido da Marginal Pinheiros. O bairro é de alto padrão de vida e população com acesso à água encanada e oferta abundante de lazer. Na região estão localizados alguns dos hospitais mais bem financiados do país: o Hospital Sírio-Libanês e unidades do Albert Einstein.

Nos Jardins, o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus foi confirmado em 25 de fevereiro. A vítima era um homem que havia voltado de uma viagem internacional. O bairro registrou as primeiras mortes na cidade ainda no fim de fevereiro. Até meados de março a concentração dos óbitos nos distritos mais ricos da capital tinha relação com o fato de os casos de internação e de óbito terem sido registrados, em sua grande maioria, em hospitais particulares. A partir do fim de março, no entanto, essas zonas mais ricas passaram a não ser mais o epicentro da doença na cidade de São Paulo.

Já m maio, os índices de contágio foram maiores nas regiões mais ricas da capital, enquanto nas regiões mais pobres a taxa de mortalidade aumentou desproporcionalmente. Mesmo com elevada densidade demográfica, as condições de isolamento foram implementadas de forma voluntária no início da pandemia.

Sapopemba

O bairro da Zona Leste paulista tem 284 mil habitantes e é o terceiro mais populoso e o quarto mais denso da cidade. O distrito foi um dos que mais registrou óbitos por Covid-19 em São Paulo. De acordo com o Relatório Situacional da Secretaria Municipal da Saúde, dos 7.599 óbitos registrados até 27 de maio, 205 ocorreram na região.

A quantidade de leitos de UTI disponíveis é um dos fatores que agrava a situação: 0,845 leitos por 100 mil habitantes. Um mês e meio após decretada quarentena oficial no Estado de São Paulo, o Hospital Sapopemba já havia atingido sua capacidade máxima.

Segundo relatos, moradores de diferentes faixas etárias não têm realizado a quarentena voluntária. Mesmo após o decreto de quarentena do Governo do Estado de São Paulo, jovens se reuniram em bailes funk noturnos e os idosos em praças.

O estudo conclui ainda que o isolamento social de 70% da população, desejado pelo Governo do Estado de São Paulo, antes da sua política de reabertura da economia, bastaria para atenuar os efeitos da pandemia em distritos díspares e desiguais como Jardim Paulista e Brasilândia, mas seria insuficiente para mitigar os efeitos em Sapopemba. “Mesmo que tivéssemos chegado ao cenário ideal estabelecido pelo governador, a reabertura da economia seria trágica para a cidade, com as curvas se acelerando novamente, como observado nas simulações”.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com