A expressão “Não vote em branco, vote no preto”, utilizada por Abdias do Nascimento nas eleições de 1954, se encaixa no atual momento vivido pelo país de fortalecimento do debate racial e do surgimento de novas candidaturas negras

Texto / Pedro Borges
Foto / Folha de S. Paulo

Entre os principais nomes a ser exaltado na luta contra o racismo no Brasil, destaca-se a figura de Abdias do Nascimento. Nascido em 1914, na cidade de Franca (SP), aos 16 anos,  o ativista iniciou sua trajetória na luta contra a discriminação racial ao filiar-se à Frente Negra Brasileira (FNB).

Anos mais tarde, em 1944, Abdias fundou uma das principais organizações antirracistas do século XX, o Teatro Experimental do Negro. O grupo, que contou com a participação de figuras como Milton Gonçalves e Ruth Souza, trabalhou pela valorização do negro por meio  da arte.

Durante as campanhas políticas que protagonizou, o também dramaturgo, sempre colocou o debate sobre raça como prioridade. Isso ficou muito evidente quando tentou eleger-se vereador, em 1954, com o slogan “Não vote em branco, vote no preto”.

Na sequência, na disputa partidária, ele atingiu vitórias políticas consideradas proezas para um homem negro no cenário político vivido no Brasil da época: ocupou o cargo de deputado federal, de 1983 a 1987, e assumiu a posição de senador, de 1997 a 1999.

Muito além da representatividade

Fruto da luta histórica de figuras como Abdias - indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2010 -, os debates em torno do racismo são recorrentes e engajam partes significativas da sociedade. Sendo assim, seu slogan nunca fez tanto sentido e jamais foi tão possível de ser colocado em prática.

Mesmo que o cenário geral das eleições de 2018 ainda aponte para uma maioria de candidaturas brancas (52%) se comparadas às negras (46%), o pleito deste ano carrega consigo o crescimento de mais de 9% de candidaturas negras contra o aumento de 1% de candidaturas brancas. Indígenas são 0,5% e amarelos, descendentes de asiáticos, são 0,6% entre os postulantes a um cargo político.

Apesar de os partidos políticos chegarem a depositar 216% a mais de seus recursos em candidaturas brancas, quando comparadas com as negras, em diversas esferas de poder, em especial no legislativo, há uma gama interessante de candidaturas de pretos e pardos que se apresenta ao público.

São esses nomes que inspiram o desejo por maior diversidade no cenário político do Brasil. Vale ressaltar que hoje ele é formado, em sua grande maioria, por homens brancos e ricos que definem os rumos da nação, ao passo que o  maior contingente populacional por raça e gênero é o da mulher negra.

Dos 513 deputados federais do país, 81 se autodeclaram pardos e 22 pretos, o que representa 20% da Câmara dos Deputados. No estado de São Paulo, caso emblemático, apenas 4,2% dos eleitos para a Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) são negros. O legislativo paulista, em toda sua história, elegeu apenas duas mulheres negras, Theodosina Ribeiro e Leci Brandão.

Mais do que a necessidade de diversificar a política brasileira e possibilitar ao negro o acesso aos espaços de poder, o cenário atual apresenta a possibilidade de se eleger negros  comprometidos com a luta contra as desigualdades raciais, sociais e de gênero.

Democracia

Superar o problema ao qual o negro está submetido no Brasil está para além de uma representação negativa na mídia ou nos espaços de poder, e mesmo para além de casos de discriminação e segregação racial.

Para acabar com o racismo, é preciso construir um projeto que radicalize a democracia no país, por meio de maior participação popular, e que lute contra as desigualdades existentes. É preciso que se molde um Brasil igualitário, que inclua o maior segmento social do país, o afrodescendente.

O racismo, a nível estrutural, impede a participação social de mais de 54% da população. Isso, consequentemente, impossibilita seu acesso digno à saúde, à educação, ao transporte, e coloca esse grupo a mercê de uma política de segurança pública violenta.

A luta histórica do movimento negro, o momento atual de debate sobre as relações raciais e a necessidade de superar o racismo se cruzam com o momento em que figuras negras, comprometidas com o fim das desigualdades e com o histórico de luta dos afrodescendentes, se candidatam a cargos, principalmente para deputados estaduais e federais.

A construção de quilombos no Congresso Nacional e nas casas legislativas estaduais é uma possibilidade de formular um país mais democrático. Com uma política povoada por negras e negros comprometidos com a transformação por mais oportunidade e maior igualdade, é possível mudar o cenário desastroso de miséria e violência do Brasil.
 

Procure em seu estado, quem são as mulheres e homens negros que se candidatam e podem fazer a política nacional mais diversa, democrática e igualitária.

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