Anúncio de vaga de emprego com teor racista e gordofóbico foi feito via WhatsApp; segundo especialista, empresas devem adotar políticas antirracistas para evitar casos como esse

Texto / Nataly Simões | Edição / Pedro Borges | Imagem / Getty Images

Uma oferta de emprego para cuidadora de idosos que vetava candidatas negras e gordas no processo de seleção foi denunciada à Polícia Militar de Belo Horizonte, Minas Gerais. A vaga, divulgada no WhatsApp, era oferecida pela agência “Home Angels”, que possui mais de 100 franquias em todo o país.

“Únicas exigências: Não podem ser negras, gordas e precisam de pelo menos 3 meses de experiência”, afirmava a mensagem de texto enviada pela “Home Angels” à empresa de treinamento “Leveza do Afeto”, que repassou a vaga para as cuidadoras de idosos da capital mineira.

A cuidadora de idosos Eliangela Lopes, de 41 anos, registrou um boletim de ocorrência após receber a mensagem sobre a oferta de emprego com teor racista e gordofóbico. Em entrevista ao G1, ela contou que não precisava da vaga, mas se colocou no lugar de outras pessoas desempregadas.

"Eu não preencheria a vaga por causa do meu tom de pele. Eu fiquei estarrecida, em estado de choque, com o meu coração dilacerado. Eu sou negra, ‘de cabelo ruim’, moradora de Ribeirão das Neves [região noroeste de Belo Horizonte] e estou com 41 anos. Que chance eu teria?”, questionou.

Após receber uma mensagem de Eliangela Lopes falando que a oferta de emprego era racista, a gestora da “Leveza do Afeto”, Fernanda Spadinger, disse ser contra o preconceito e que tinha a intenção apenas de empregar.

“Eu copiei e colei para atender a demanda [da Home Angels]. Eu repudio qualquer tipo de preconceito. Não é uma postura minha e nem da minha empresa. Eu deveria ter filtrado ou dito que eu não trabalho com esse tipo de empresa, mas na pressa eu envie para a lista de transmissão das cuidadoras criadas por mim”, argumentou.

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Fernanda Spadinger disse ter disparado mensagem para lista de transmissão do WhatsApp (Foto: Fernanda Spadinger/Acervo Pessoal)

De acordo com Cintia Ramos, sócia da “Diáspora Black”, instituição que oferece treinamento corporativo contra práticas racistas, o racismo no mercado de trabalho é comum e a adoção de políticas antirracistas por parte das empresas é fundamental para evitar casos como o da vaga anunciada pela “Home Angels”.

“Eu sempre trabalhei no meio corporativo e é muito nocivo para as pessoas negras. Muitos profissionais tentam se camuflar usando roupas e penteados diferentes da própria identidade para se protegerem do racismo. A realização de treinamentos com os funcionários, principalmente os do departamento de Recursos Humanos, é muito importante para evitar a disseminação de práticas racistas como essa envolvendo cuidadoras de idosos”, explica.

No site da “Home Angels”, a agência diz formar uma “equipe integrada para tornar a vida mais fácil para quem precisa de cuidado, carinho e atenção”.

A reportagem do Alma Preta entrou em contato com a assessoria de imprensa da empresa e perguntou se a agência considera a aparência física mais importante que a qualificação dos cuidadores de idosos e quais medidas serão tomadas em relação ao caso denunciado à polícia mineira. Até o fechamento deste texto não obtivemos resposta.

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