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“O olhar da polícia para os jovens está frenético. Nossos jovens estão dentro de casa e quando saem são reprimidos e mortos”, afirma uma moradora, em entrevista

Texto: Nataly Simões e Pedro Borges | Edição: Nataly Simões | Imagem: Pedro Borges

O aumento da violência policial nas periferias na pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, levou aproximadamente 200 pessoas às ruas da região de São Mateus, Zona Leste de São Paulo, na tarde deste sábado (8).

A partir da concentração do ato, no Largo São Mateus, os manifestantes saíram em direção às avenidas Mateo Bei e Aricanduva. O ato pacífico contou com a presença de moradores e de diversos movimentos sociais.

Ediane Nascimento, integrante do núcleo negro do MT-SP (Movimento dos Trabalhadores sem Terra de São Paulo) conta que a violência policial durante a pandemia está cada vez mais grave.

“Nós estamos aqui para denunciar a violência que está cada vez mais evidente nesse momento de pandemia. O olhar da polícia para os jovens está frenético. Nossos jovens estão dentro de casa e quando saem são reprimidos e mortos”, afirma.

Somente nos três primeiros meses da crise epidemiológica, os policiais militares mataram 262 pessoas no estado de São Paulo, de acordo com dados da Corregedoria da Polícia Militar. Somente em abril foram registrados 116 assassinatos. O maior número desde 2006, quando conflitos com o Primeiro Comando da Capital (PCC) deixaram 137 mortos.

Katiara Oliveira, da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio, destaca que o ato deste sábado também reivindica a criação de um hospital de campanha na Zona Leste para o tratamento dos casos de Covid-19 e contra a ausência de políticas públicas, que resultam na exposição dos trabalhadores ao vírus.

“Estamos organizados para mostrar todas as formas de genocídio. Os trabalhadores estão com medo e o ato também serve para transmitirmos forças às famílias, mostrando que elas não estão sozinhas”, explica.

Protestos descentralizados

Ainda no final de maio deste ano, as manifestações antirracistas se concentravam nas regiões centrais da capital paulista, como a Avenida Paulista e o Largo da Batata. Segundo ativistas do movimento negro, descentralizar os atos é urgente.

“Acreditamos que onde acontece a violência é onde deve haver resistência. Se mobilizar na quebrada é importante por isso”, diz Katiara. Fabio Monteiro, do MT-SP, acrescenta que a “luta dos movimentos sociais deve se manter descentralizada”.

“Saimos um pouco do núcleo dos centros financeiros que são racistas em sua estrutura. É importante manter essa luta nas periferias. O Batalhão de São Mateus, por exemplo, é um dos que mais matam e que os policiais também mais morrem. Com a pandemia, há uma negligência de direitos que se refletem sobretudo na população negra e periférica”, considera.

O ato deste 8 de agosto na região de São Mateus não foi o primeiro a acontecer na Zona Leste no segundo semestre deste ano. No dia 4 de julho, na Cidade Tiradentes, familiares de jovens mortos foram às ruas levantando cartazes com os nomes das vítimas e vários sinais de interrogação, pedindo justiça. Na ocasião, conforme noticiado pelo Alma Preta, policiais sem identificação acompanharam o ato.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
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