Objetivo do projeto é também convocar paralisação nacional por justiça à vereadora e a Anderson Gomes, que tiveram suas vidas ceifadas em 14 de março

Texto / Thalyta Martina
Imagem / Mídia Ninja

A Campanha #30diasporMarielle foi lançada no dia 31 por organizações e coletivos do movimento negro, entidades mistas e pessoas independentes de São Paulo. Esses grupos uniram forças para a elaboração de atividades unificadas e pela construção de uma paralisação nacional contra o genocídio negro e contra a intervenção militar no Rio de Janeiro em memória de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, que foi também vítima fatal do ataque do dia 14 de março. A ação tem atividades programadas até o dia 05 de maio.

Juliana Gonçalves, jornalista da Cojira, Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, explica que a Campanha tem o objetivo de “não permitir que a execução de Marielle Franco recaia em nenhum tipo de letargia. Marielle foi morta por ser mulher, negra, feminista, lésbica, favelada e socialista e por ter um projeto político que articulava muito bem as questões de gênero, raça e classe. Uma mulher como ela, entrar para a política institucional e receber quase 50 mil votos foi um afronte muito grande para aqueles que não querem uma democracia plena. Ela governava para essas pessoas.”

Segundo a jornalista, a morte de Marielle enquadra-se na política genocida do Brasil que mata e encarcera negros e pobres por serem negros e pobres: “Vide Amarildo, Cláudia Ferreira, Luana Barbosa que foram assassinados e Rafael Braga que foi encarcerado.” Marielle também foi morta em um contexto de intervenção federal no estado do Rio de Janeiro. “O estado insiste em achar que segurança pública se garante com polícia na rua, com UPP e não com acesso à educação, saúde, tirando os estigmas dos pobres e favelados. Ou seja, a Campanha [também] pede justiça à Marielle, se coloca contra a intervenção e exige o fim do genocídio.”

Ingrid Leão, do Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem Brasil), relata que logo após um crime de um defensor dos Direitos Humanos, é muito comum ataques à reputação e à moral desse defensor e dessa defensora. “Isso aconteceu nos primeiros dias depois do assassinato da Marielle. Por isso também que é importante essa campanha pela memória dela.”

Os organizadores convidam a todos - pessoas físicas e entidades - os que lutam pelos direitos humanos, justiça e igualdade em todos os níveis a somar esforços para a concretização dessas ações, assim como para aderir a Ação. Outro objetivo é convocar, junto a centrais sindicais, uma paralisação nacional. Juliana ressalta que um dos pontos altos da Campanha é “a construção de uma paralisação pelo fim do genocídio. É hora de vermos o comprometimento real de todos os setores com relação a essas mortes de negros. Precisamos saber de uma vez por todas se falar de genocídio para os outros movimentos populares, centrais sindicais, frentes únicas é algo que tem o comprometimento real ou apenas é um belo recurso retórico usado em palanques.”

“A violência realizada contra Marielle e Anderson faz parte de como o estado brasileiro quer silenciar os lutadores e todos aqueles que lutam por uma sociedade mais justa e humana, como fazia Marielle. (...) Queremos parar o Brasil para mostrar a este Estado genocida que as vidas negras importam e o que nós, negros, iremos responder a essa violência nas ruas e nas fábricas.”, diz a publicação que lançou a ação.

Programação

A programação da Campanha foi aberta no dia 31 de março e tem atividades programadas até o dia 5 de maio. Ingrid Leão, explica que o planejamento foi feito com base em um objetivo comum, que é a justiça por Marielle e a memória de sua luta. 

Segundo ela, a sociedade civil, além de impactada com a violência desse episódio, está mobilizada para que casos semelhantes não se repitam. “Os 30 dias que seguem o assassinato de Marielle são decisivos para uma investigação independente e que interessa a toda a sociedade. Nesse sentido, uma responsabilização pelo ocorrido é de grande valor.”, ressalta.

5 de abril
Ocorre ato em frente ao Tribunal Regional Federal de São Paulo, que julgará o direito de resposta das religiões de matriz africana contra a TV Record. A concentração será na avenida Paulista, 1842, às 14h. A organização pede aos manifestantes aparecerem de branco. O objetivo, segundo a página, é “exigir respeito ao nosso direito ao culto. Num Estado laico, ter uma mídia fruto de concessão pública que ataca a liberdade de culto de alguns grupos, é mais do que inconstitucional - é criminoso. Vamos para a rua!”, convocam pelo Facebook.

14 de abril
Acontece ato por justiça a Marielle e Anderson. Nesta data, completa-se um mês da execução dos dois. Jesus dos Santos, do Coletivo Casa no Meio do Mundo, explica que o local e o trajeto da manifestação ainda não foram decididos, mas essas informações serão colocadas com antecedência na página “Contra o Genocídio Negro”.

27 de abril
Paralisação por justiça a Marielle Franco e Anderson Gomes, contra a intervenção militar e pelo fim do genocídio negro.

5 de maio
Seminário “Justiça a Marielle Franco e Anderson Gomes, contra intervenção militar e pelo fim do genocídio negro”.

Apoie a ação

Você pode apoiar indo às atividades previstas e organizadas pela Campanha, curtindo a página “Contra o Genocídio Negro” no Facebook e compartilhando o conteúdo postado, divulgando as artes, usando filtro da Ação na sua foto de perfil, feito pela artista plástica Patricia Abòrisá, e usando a hastag #30diasporMarielle em posts. Caso queira colaborar sugerindo atividades que agreguem à programação, preencha o formulário do Google. Jesus dos Santos ressalta que “participar ativamente dessa campanha significa caminharmos rumo ao reconhecimento de que pretas e pretos não devem perder as suas vidas por lutarem por seus direitos."

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