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Ato foi organizado pela rede de afro-brasileiros que vivem na França, reuniu cidadãos e militantes de grupos antirracistas da Europa contra o negrocídio e o terrorismo de Estado contra negros em todo mundo

Texto: Juca Guimarães I Edição: Flávia Ribeiro I Imagem: reprodução redes sociais

Mesmo com as restrições impostas pelo lockdown, que restringe a circulação de pessoas na França, dezenas de militantes da luta antirracista participaram na tarde da quarta-feira, dia 2 de dezembro, do protesto e da leitura de um manifesto exigindo reparações do Carrefour por conta do assassinato do soldador João Alberto, 40 anos, no Brasil, na véspera do dia da Consciência Negra, espancado por dois seguranças brancos, em Porto Alegre.

Com faixas e cartazes com as frases “Carrefour mata”, “onde começa o racismo estrutural?” e “Justiça para João Alberto”, o ato foi realizado em Massy, perto de Paris, onde fica a sede mundial do Carrefour, às 11h, no horário local. Segundo a convocação feita pelo Facebook “Racismo no Carrefour: É tempo de reagir’, cerca de 50 pessoas participaram do protesto. O assasinato de negros no Carrefour não é um caso isolado do Brasil. No dia 28 de dezembro de 2009, Michel Blaise, homem negro de 25 anos, foi asfixiado e morto por dois seguranças de uma unidade do Carrefour, na França.

O coletivo francês Brigada Antinegrofobia participou da articulação que promoveu o protesto contra o Carrefour, mas ressaltou que os Estados, instituições e outras organizações como igrejas e escolas também são responsáveis pelo racismo e pela violência contra negros em todo o mundo.

A artista visual e pesquisadora brasileira Fabiana Ex-Souza,  uma das organizadoras do ato, explicou ao Alma Preta que a morte de João Alberto revela ainda mais as dimensões do racismo. “Nós sabemos que isso que acontece hoje no Brasil é o reflexo de um racismo estrutural que data de muito tempo. A morte selvagem e brutal de João Alberto Freitas é somente a ponta de um iceberg. Vários outros crimes já foram cometidos nesta empresa. Sabemos que existem salas isoladas destinadas a fazer o que eles chamam de averiguação com os clientes considerados suspeitos de infração, isso é sequestro”, acusa.

O educador francês que se identificou como Franco, da Brigada Antinegrofobia, falou sobre a ligação entre a Europa e o racismo que atualmente acontece no Brasil. “Os Estados imperialistas se formaram tendo como base nos crimes cometidos nas colônias, principalmente com a escravidão no mundo ocidental cristão. Muitas empresas que existem hoje enriqueceram explorando o trabalho negro. Mesmo que não seja o caso do Carrefour, ele faz parte deste sistema racista. É necessário mostrar que o Carrefour no Brasil é racista. Os portugueses foram os primeiros a montar as bases da empresa negrocida que foi a escravidão, que violou e assassinou milhões de negros no mundo inteiro, num claro terrorismo de Estado”, disse.

O protesto lembrou também que a cada 23 minutos um negro é assassinado no Brasil e as medidas anunciadas pela empresa, como a criação de um fundo de R$ 25 milhões para combate ao racismo, é muito pouco diante do lucro da companhia. 

"O racismo na França é perverso. Apesar de estarmos no país dos direitos humanos, questões raciais aqui são vistas como uma ameaça ao universalismo Francês. Apesar de haver uma vontade do governo de invisibizar o racismo herdado do colonialismo, casos de racismo e de violência policial contra pessoas negras e árabes não cessam de aumentar", disse Fabiana Ex-Souza, que é doutoranda  em artes visuais e fotografia na universidade de Paris 8.

 

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