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Profissionais reiteram a importância do papel exercido pelas mídias independentes na criação de outras possibilidades de representação

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Pilar Olivares/Reuters

Não é de hoje que pesquisadores da área da comunicação alertam sobre os impactos dos estereótipos na vida das pessoas negras e de outros grupos minorizados como mulheres, pessoas com deficiência e LGBTQIA+. Colocar pessoas diversas, complexas e plurais em modelos pré-moldados pode ter consequências negativas.

“Estereótipos são padrões de heterodefinição do outro, estruturados na cultura e atravessados por relação de poder. É a produção de sentido, um sentido estreito e limitante para sujeitos que são complexos”, explica a jornalista Bruna Rocha, mestra em Comunicação e Culturas Contemporâneas.

A negra barraqueira, o negro perigoso, o homossexual barulhento, dentre outras imagens que são muito exploradas em novelas, por exemplo, agem para que pessoas dos mesmos grupos sejam vistas da mesma maneira. “O impacto é completo, inclusive, dentro desse sistema cultural que vivemos, que reduz a importância das pessoas à classe, raça, gênero e divisões binárias entre um eu poderoso dominador e uma outra que é dominada e objetificada. O ethos do estereótipo acaba sendo dominante e a sociedade acaba virando um tabuleiro de diversos estereótipos”, detalha Bruna.

A jornalista e pesquisadora, co-idealizadora da plataforma Semiótica Antirracista, fala que os meios de comunicação são responsáveis por disseminar essas imagens preconcebidas e também funcionam como uma ferramenta através da qual o imaginário é massificado. O tratamento das editorias policiais representam um exemplo disso, pois tratam de maneira muito desigual um jovem branco encontrado com drogas e um jovem negro na mesma situação.

“A população negra como um todo é sempre construída em estereótipos, até porque representa esse grande outro, desse ethos que se pressupõe um binarismo entre um eu, pensante, determinante, que é quem cria a classificação e o outro, que é determinado. Os estereótipos históricos, tradicionais e contemporâneos remontam o racismo. Do homem e da mulher negra hiperssexualizados, da desumanização dos nossos corpos e subjetividades e isso se materializa no jornalismo, nas produções televisivas, entre outras”, pontua.

Para a intelectual, mídias contra hegemônicas - independentes - exercem papel fundamental para tensionar essa situação e criar outras possibilidades de representação. “E para mostrar a diversidade do nosso povo, a complexidade das pessoas negras, a profundidade de nossa cultura. Além de esvaziar os estereótipos e mostrar o quanto é ruim e violenta essa construção de sentido, o quanto ela é fraca e medíocre. O público também precisa mais exigir e consumir produtos que nos respeitem”, analisa.

“Não há outra maneira de ser antirracista sem estudar e entender essa estrutura racista”

Para desfazer a falsa ideia de que pessoas negras não são intelectuais e produtoras de conhecimento, a jornalista Helaine Martins criou o projeto “Entreviste Um Negro”, um banco de dados só de fontes jornalísticas, mas com um diferencial: todos os especialistas são negros. O objetivo é conectar pessoas negras, experts nas mais diversas áreas, a jornalistas e comunicadores em geral que procuram fontes especializadas, seja para pautas sobre questões raciais ou não.

“Até porque nos chamar para falar só sobre racismo é também uma forma de nos desumanizar. O nosso esforço é em manter um banco de fontes com especialistas em áreas bem diversas, especialmente naquelas em que pessoas negras são mais invisibilizadas, como Economia, Física, Medicina, etc”, destaca.

Helaine conta que estudar sobre raça, gênero e outros marcadores sociais mudou a sua forma de ver o mundo e isso repercutiu no seu trabalho. Ela cresceu em uma família negra e de classe média que nunca falou sobre racismo. “Isso nunca foi uma questão para mim, até os 34 anos. Eu sempre me soube negra, mas só passei a pensar no que isso significava e a repensar o meu papel como jornalista há seis anos, quando comecei os meus estudos sobre feminismo negro. E isso mudou minha vida. Das minhas relações amorosas e de amizade à carreira profissional. Eu não podia mais fazer um jornalismo que não tivesse como propósito o enfrentamento ao racismo”, descreve.

A partir desse incômodo nasceu o “Entreviste Um Negro” e em 2019 o braço empresarial dele, a Mandê, que é uma agência de produção de conteúdo e ações de educação por uma comunicação antirracista. “Não há outra maneira de ser antirracista sem estudar e entender essa estrutura racista, como ela funciona, o que ela causa”, frisa.

Hoje, o “Entreviste” é uma plataforma sobre diversidade no jornalismo, como a criadora explica. A expectativa é que o projeto ainda se torne um aplicativo.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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