Ana Flávia Magalhães Pinto, professora de história da Universidade de Brasília e integrante do movimento negro, em entrevista ao Alma Preta, fala sobre o incêndio que atingiu o Museu Nacional, memória, resistência e possíveis formas de lidar com o descaso nas eleições

Texto / Thalyta Martins
Imagem / Reprodução

O incêndio que atingiu o Museu Nacional no último domingo (2) reanimou discussões sobre espaço público, preservação da nossa cultura e história, apropriação, roubo, falta de investimentos, corrupção, neoliberalismo, PEC 95, que congelou gastos públicos por vinte anos, descaso com povos indígenas, entre outros temas.

A professora universitária da UnB, Ana Flávia Magalhães Pinto, explica que memória e a história são campos de disputas e exercícios de poder, por isso, não podemos achar que o Estado vai por si só contemplar a preservação das histórias de resistência de grupos desvalorizados ao longo de gerações. Ela reforça a necessidade de continuidade de lutas que desejamos que sejam lembradas. “O que obtivemos até agora é resultado desses enfrentamentos.”, diz.

De acordo com ela, o congelamento dos investimentos públicos em educação por vinte anos, estabelecido pela Emenda Constitucional 95, é um ataque violento às estratégias de contestação e resistência estabelecidas até agora. Isso torna necessário a demonstração do Estado como a expressão do jogo de forças que se efetiva diariamente em diversos espaços da sociedade.

“Estamos às vésperas de uma eleição, precisamos nos atentar para o fato de que nossas chances de fazer com que o Estado atue a favor do ensino da história em termos democráticos dependem dos encaminhamentos dados a essas disputas.”, afirma.

As perdas causadas pelo fogo são incalculáveis, irreparáveis e revoltantes, ainda mais quando se tem a consciência de que a tragédia é resultado da negligência de governantes ao longo de séculos de existência do nosso país. Nos últimos anos, principalmente, com inúmeros desmontes em programas que visam educação, saúde, cultura e lazer.

Entre as peças que o Museu tinha posse, estava o primeiro fóssil humano de 12.500 a 13 mil anos atrás. Luzia, como foi batizada, foi encontrada nos anos 70 em uma gruta em Lagoa Santa, cidade mineira. Supõe-se que Luzia tinha cabelos crespos e traços negróides. A descoberta dela foi fundamental para entender a origem da humanidade e ocupação do Brasil.

O espaço abrigava também a Exposição Kumbukumbu, que apresentava objetos foram “trazidos de diferentes partes do continente entre 1810 e 1940, acrescidos de outros que pertenceram ou foram produzidos por africanos ou seus descendentes no Brasil entre 1880 e 1950. Além da beleza e do significado antropológico das peças, a coleção tem importância histórica por ter um dos acervos africanos mais antigos no Brasil.”, diz o site do Museu.

Todo acervo de Línguas Indígenas, gravações de cantos em línguas sem falantes vivos de 1958, o mapa étnico histórico e linguístico original de 1945 com a localização de diversas etnias do Brasil, referências etnológicas e arqueológicas de etnias desde o século XVI, entre muitos outros arquivos de extrema importância para povos indígenas, também estavam no Museu Nacional e eram usados para pesquisas.

De acordo com artigo da jornalista, pós doutorada em ciências da comunicação, professora e pesquisadora, Rosane Borges, programas de apoio à museologia federal nos últimos dois anos foram interrompidos. Ela aponta que 60% dos recursos advindos do Ministério da Educação e da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a quem cabia a gestão do museu, foram ceifados. Entre os programas cortados, estava o de prevenção de riscos. Leia o texto na íntegra.

O papel do Museu Nacional para construção de histórias

Ana Flávia Magalhães explica que a não identificação com espaços públicos de história e preservação de memória, como Museu Nacional, é e efeito colateral de uma educação eurocêntrica. Mas traz a memória que, “a despeito dessa versão excludente sobre o ontem e o hoje, tais espaços e seus acervos são fundamentais para o sucesso da reescrita e da reorganização da história do Brasil e do mundo em nossas mentes.”

“Se, por um lado, os registros da presença das elites brancas nos serviriam para problematizar os silenciamentos e esquecimentos das presenças de africanos, indígenas e seus descendentes; por outro, ali também havia registros justamente das nossas múltiplas presenças em diferentes temporalidades e espaços.”, diz.

Ela afirma que esse contato com a materialidade das experiências históricas é uma prática indispensável para facilitar o entendimento da importância e da viabilidade do diálogo com o passado no presente, e a superação da lamentável sequela que tem nos roubado a historicidade de nossas próprias trajetórias.

“É preciso, portanto, ressaltar que as práticas de preservação da memória são múltiplas e devem ser fortalecidas e pensadas como passíveis de constantes ampliações. Afinal, quando falamos em disputas de narrativas voltadas ao reconhecimento de legitimidade de diferentes sujeitos e grupos populacionais, nosso repertório de memórias tem papel fundamental.”, explica.

Ensino nas escolas

A base de um ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas, tem o poder de mudar estruturas. Referenciar personalidades da luta antirracista, apresentar a resistência e cultura tão ampla dos indígenas e o que eles têm em comum com mais de 53% da população do Brasil pode tirar aquele aluno pertencente a esses grupos da posição de baixa auto estima, a que são submetidos direta ou indiretamente.

Luana Tolentino, mestra em Educação pela UFOP, professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana da cidade, referencia o professor e pesquisador Kabengele Munanga (1999), que diz que essa memória não pertence somente aos negros. Ela pertence a todos, tendo em vista que a cultura da qual nos alimentamos cotidianamente é fruto de todos os segmentos étnicos que, apesar das condições desiguais nas quais se desenvolvem, contribuíram cada um de seu modo na formação da riqueza econômica e social e da identidade nacional. (MUNANGA, 1999, p. 16).

Na legislação, as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, incluíram no currículo escolar a obrigatoriedade do estudo da história e cultura dos povos indígenas, mas, segundo a professora Ana Flávia, é algo que vai muito além da inclusão de conteúdos que exaltem determinados indivíduos de grupos raciais subalternizados, numa tentativa de equipará-los aos heróis brancos forjados nos moldes da história positivista e eurocêntrica.

“Uma vez que, em nossa sociedade, o racismo autoriza investimentos sistemáticos contra o reconhecimento e o respeito à humanidade de pessoas negras e indígenas, o ensino de história precisa ser organizado de modo a romper com simplificações que no máximo atribuem a esses sujeitos o papel de apêndices, acessórios ou coadjuvantes de narrativas protagonizadas via de regra por homens brancos e ricos.”, diz.

De com acordo Ana, o que está posto é uma profunda revisão da matriz de pensamento por meio da qual damos forma e sentido às experiências brasileiras e às conexões dessas com o vivido em outras partes do mundo.

“Há um grave equívoco em se exaltar a diversidade e não se garantir a pluralidade. Por isso, uma história que reforça a centralidade de um grupo humano em detrimento dos demais está longe de estar em sintonia com uma educação para a liberdade.”, finaliza.

 

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