Vítima de um tiro mesmo quando vestia um uniforme da escola, a morte de Marcos Vinicius levantou novo debate sobre a violência sobre a comunidade negra, sobretudo contra crianças afrodescendentes

Texto / Pedro Borges
Imagem / Arquivo pessoal

A morte de Marcos Vinicius, 14 anos, baleado por um blindado da polícia civil e pelas costas quando ia para a escola na companhia de um colega, segundo testemunhas, causou comoção em determinados segmentos sociais. O caso aconteceu no dia 20 (quarta-feira), no Complexo da Maré.

Na operação que resultou na morte do jovem, outras pessoas pessoas também foram mortas, de acordo com a polícia. O órgão também afirmou que todos eram bandidos - a exceção era Marcos Vinicius.

Nathalia Oliveira, coordenadora da INNPD (Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas) e articuladora da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, afirma que ações violentas por parte do Estado nos territórios pobres das grandes cidades, como no Rio de Janeiro, são comuns.

“Este tipo de ação por parte de agentes do Estado demonstra como alguns sujeitos não têm os seus direitos respeitados. Tudo isso é justificado por uma guerra às drogas que apreende números ridículos diante da quantidade de drogas e do dinheiro que o tráfico de drogas mobiliza internacionalmente”, afirma.

O documento apresentado pelo IML (Instituto Médico-Legal) comprova o que foi apontado por testemunhas: o tipo foi dado pelas costas e à mesma altura de onde o rapaz estava, o que fortalece a ideia de que o projétil veio de um carro blindado da Polícia Civil.

Outra informação importante sobre a investigação é que a DH (Delegacia de Homicídios) do Rio de Janeiro fará uma reconstituição do assassinato de Marcos Vinícius.

As crianças são o futuro do país. Quais crianças?

As estatísticas brasileiras mostram que o caso de Marcos Vinícius não é isolado. ​Há crescimento considerável no número de adolescentes assassinados no país a partir dos 13 anos de idade, quando o número ultrapassa quatro óbitos para cada grupo de 100 mil habitantes, e chega em 12,3 quando o jovem tem 14 anos - idade em que Marcos Vinícius foi executado. Os dados são do "Mapa da Violência: Os jovens do Brasil".

A taxa média mundial de homicídios para cada 100 mil habitantes é de 6,2 de acordo com o “Relatório Global sobre Homicídios das Nações Unidas”, de 2013. À época, o nível brasileiro era de 25,2.

O homicídio pode ser executado de diversas maneiras. Uma delas, a mesma utilizada para tirar a vida de Marcos Vinicius, é por meio das armas de fogo. Nesse quesito, o Brasil também se destaca, com um lugar entre as 11 nações entre as que mais matam com arma de fogo.

Dentro deste cenário, o Brasil ultrapassa a média das Nações Unidas de maneira precoce. Se aos 13 anos a média é de três mortos para cada 100 mil habitantes, aos 14 esse número salta para 10,4 adolescentes assassinados por armas de fogo para cada 100 mil habitantes.

Apesar dos dados para crianças e adolescentes não apresentarem divisão racial, os números totais comprovam a seletividade dos indicadores de violência no país.

As taxas de homicídios de pessoas brancas por armas de fogo caíram de 14,5, em 2002, para 11,8 em 100 mil brancos, em 2012, enquanto os indicadores entre negros aumentaram de 24,9 para 28,5 no mesmo período. Os dados absolutos representam queda de 18,7% nos dados sobre a população branca e crescimento de 14,1% para os negros.

Muitas destas mortes são justificadas por operações policiais que, segundo a versão oficial do Estado, buscam combater o tráfico de drogas. Nathalia Oliveira questiona a seletividade dessas ações policiais, à medida em que a droga, lícita ou ilícita, é consumida por todos grupos raciais e todas classes sociais.

“O que a gente vê é a justificativa do tráfico de drogas ser cada vez mais presente para o Estado ser letal nas comunidades pobres e negras. A gente não vê esse tipo de ação acontecer em outros lugares mais privilegiados da sociedade”, finaliza.

 

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