Décima edição do ato mostrou clima festivo, mas trouxe também à tona o debate sobre a legalização da substância e impactos causados na população negra; Mídia Ninja fala em mais de 50 mil participantes e organização estima mais de 100 mil pessoas

Texto e imagem / Amauri Eugênio Jr.
Imagem /Jorge Ferreira / Mídia Ninja

A edição de 2018 da Marcha da Maconha realizada no sábado (26), que este ano teve o tema “10 Anos Queimando Tudo”, atraiu grande público e mostrou que o debate sobre a legalização veio para ficar. Apesar do nome geral do tema, o ato trouxe à tona também pontos relacionados à liberação de medicamentos à base da substância, o encarceramento em massa, a violência do poder público e o genocídio da juventude negra.

O mar de gente que se concentrou no vão livre do MASP (Museu de Arte de São Paulo) para participar do ato era diverso em vários aspectos. O público era composto por perfis diversos, que abrangiam desde veteranos de marchas anteriores a novatos. A mesma coisa valia para pessoas negras e brancas - apesar de serem maioria, a presença de pretos e pardos era significativa.

Era possível também identificar quem estava lá pela causa política ou pelo evento em si - havia quem se comportasse como se estivesse em um bloco festivo, inclusive. Outro ponto que chamou a atenção era a presença significativa de vendedores ambulantes, que comercializavam desde sedas para o consumo da erva e alimentos diversos a bebidas alcoólicas - ironicamente, uma droga legalizada.

“Acho que o tema geral da Marcha da Maconha, ‘10 Anos Queimando Tudo’, muito ruim. Na primeira Marcha, a gente saiu com umas 30 ou 40 pessoas presas do Parque do Ibirapuera. Na segunda, a gente saiu com vários presos também. Não é coerente, pois a história da Marcha da Maconha sempre foi se colocar politicamente”, pontua Isa Penna, primeira-suplente de vereadora em São Paulo pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), sobre o mote do evento este ano.

Isa falou também sobre como seria importante abordar fatos políticos de modo mais incisivo, como as questões relativas à morte da ex-vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), executada em março deste ano, a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em abril, e a Reforma Trabalhista e a PEC 55, aprovadas em 2017. “A Marcha da Maconha é muito importante, pois é um tapa na cara do conservadorismo. O fato de ter juntado muita gente este ano é, com certeza, uma demonstração para os conservadores de que não há acordo. Logo, esse esse momento [da marcha] poderia ter sido melhor.”

A impressão da ativista e também pré-candidata a deputada estadual pelo PSOL é compartilhada por mais participantes do überato. “Muitos veem a Marcha como um ‘rolê’, mas a descriminalização e a legalização fariam muita diferença pelo fato de a lei ser inconstitucional”, destaca o técnico em radiologia André Garcia, ao falar sobre a Lei 11.343, conhecida também como Lei Antidrogas, aprovada em 2006.

Para o jovem, a legalização do uso de maconha, a premissa básica da marcha, repercutiria como grande avanço para o uso medicinal da substância. “Famílias têm de importar medicamentos à base de maconha. Estudos mostram, por exemplo, que remédios [feitos com a erva] ajudam nos tratamentos de mal de Parkinson e de ELA [esclerose lateral amiotrófica].”

Outro ponto de associação obrigatória à Marcha da Maconha é relativo ao genocídio da juventude negra. De acordo com dados do Infopen 2017, 64% dos presidiários brasileiros são negros, ao passo que mais da metade tem entre 18 e 29 anos. Além disso, de acordo com dados da Anistia Internacional, 77% dos jovens mortos no Brasil são pretos e pardos.

“A marcha tem fundamento muito mais importante do que poder fumar, pois tem relação com o genocídio da juventude negra. A PM e o Estado são racistas e, se estivermos ou não consumindo ou portando maconha, seremos criminalizados. Isso nos faz pensar em Rafael Braga”, cita a secundarista Letícia Lua*, 17, sobre como a guerra às drogas tem influência definitiva e letal entre pessoas pretas e pardas, ao citar o caso de Rafael Braga, preso durante as manifestações de 2013 pelo porte de um desinfetante e, posteriormente, com 0,6 g de maconha e 9,6 g de cocaína.

Imagem: Amauri Eugênio Jr.

O caminho

A Marcha da Maconha estava prevista para começar às 16h20 - nada mais sugestivo, afinal -, mas houve atraso e o deslocamento começou por volta das 17h, quando o público começou a seguir o trio elétrico. De acordo com a Mídia Ninja, estima-se que cerca de 50 mil pessoas compareceram ao ato, enquanto a organização da marcha afirmou haver mais de 100 mil adeptos.

O percurso iniciou-se na avenida Paulista, obviamente, e seguiu para a avenida Brigadeiro Luís Antônio, em meio a gritos de palavras de ordem, discotecagem e gritos como o conhecido “Ei, Polícia, maconha é uma delícia!”. Mas isso tudo aconteceu em clima pacífico, vale ressaltar.

Durante o deslocamento, as diferenças dos perfis dos participantes ficaram mais evidentes: a turma politizada tentava deixar nítido o caráter político da marcha, enquanto outros grupos seguiam como se fosse um evento com ares festivos.

E assim foi o término da Marcha da Maconha, na praça da Sé, em pleno centro da capital paulista.

Ainda que as intenções, origens e formações políticas dos participantes fossem diversas, todos estavam unidos pelo mesmo espírito e objetivo: a legalização da maconha.

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