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Líder da Ronda Maria da Penha disputa governo da capital baiana pelo PT e é apadrinhada pelo governador Rui Costa

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Mila Cordeiro/Divulgação

Terceira de uma família de cinco filhos, cresceu em São Gonçalo do Retiro, na periferia de Salvador, onde mora até hoje. É assim que Denice Santiago Santos do Rosário, 49 anos, faz questão de se apresentar. A candidata do PT à Prefeitura de Salvador é mais conhecida como Major Denice e liderou a Ronda Maria da Penha, programa da Polícia Militar de combate à violência doméstica na capital baiana.

Para concorrer à gestão do município mais negro do país, Denice foi indicada pelo governador da Bahia, Rui Costa (PT) e venceu as prévias do partido em que disputou com a socióloga e líder de movimentos de mulheres negras, Vilma Reis.

Denice diz que a Polícia Militar foi a concretização do sonho de trabalhar com direitos humanos devido à atuação no combate à violência doméstica. “Já fazia política. Trabalho com perspectiva cultural, só não tinha atuação política partidária. Quis ampliar minha atuação e inspirar mais pessoas”, conta.

O governo do padrinho político da candidata é alvo de críticas do movimento negro especialmente pela alta letalidade policial no estado e a falta de transparência na divulgação de dados sobre segurança pública. A Bahia é o segundo estado que mais registrou mortes em operações policiais entre junho de 2019 e maio de 2020, de acordo com uma pesquisa realizada pela Rede de Observatórios da Segurança, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com base em casos noticiados pela imprensa. No período foram contabilizados 984 mortos, o que corresponde a ao menos um óbito em uma de cada sete operações monitoradas.

Questionada sobre sua gestão de segurança pública se eleita para governar a capital baiana, Denice diz que pretende articular o governo municipal aos demais setores governamentais responsáveis pela segurança pública no estado.

“Para vencer o desafio de transformar Salvador em uma cidade acolhedora, solidária, generosa e mais humana para seus cidadãos e cidadãs, é fundamental uma atuação municipal da Segurança Pública articulada com os demais setores governamentais e com as comunidades, visando a construção de uma cultura de Segurança que, para além da ação policial, busque incansavelmente a Justiça Social e a Cidadania para sua gente”, analisa a candidata.

A Major reconhece que “é no município que ocorre a violência, e naturalmente desencadeiam ataques à segurança pública”. “Cabe ao município ter mecanismos de participação para que de, forma parceira com a população, sejam reivindicados, sugeridos e apontados caminhos necessários para segurança pública do seu município. Isso sem interferir e ferir as competências de cada ente federativo”, complementa.

Primeira prefeita negra

A candidatura da petista também congrega os movimentos populares que lutavam para que houvesse uma candidatura de uma mulher negra à Prefeitura de Salvador. Em 471 anos, a cidade, que tem mais de 80% da população declarada negra, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nunca teve um prefeito negro eleito democraticamente.

Para Denice, ter uma pessoa negra concorrendo ao governo da capital baiana é um movimento dentro do PT que “sempre pontuou a perspectiva racista, misógina e a celebração desses movimentos e de suas lutas diárias”. Além da Major, Salvador tem uma outra candidata negra, a Olívia Santana, do PCdoB.

A petista lembra que o movimento pela candidatura de pessoas negras se iniciou a partir de grupos de ativistas que se reúnem no Restaurante Alaíde do Feijão e se denominam como “bancada do feijão”. São integrantes de blocos afros, como o Olodum e o Ilê Ayiê, que a partir da música “Afirmação ao Poder”, do Ilê, criaram o slogan “Eu Quero Ela”, que seria a prefeitura da cidade.

“Esses debates se expandiram para toda a cidade. Dar a Salvador essa possibilidade é fascinante. Ter pessoas que são a sua cara, que vivem a cidade dentro das suas especificidades. Ser a síntese de todo esse processo é uma honra, é algo que me impulsiona muito. Ter uma mulher negra na disputa é muito importante. É uma bandeira para mostrar para as pessoas dessa cidade que podemos estar nesse espaço”, avalia.

Segundo Denice, ser uma candidata que faz parte da Polícia Militar não a impede de representar os movimentos sociais negros, que alertam para a brutalidade policial que atinge principalmente a população negra em todo o país. “Vivemos numa democracia, estou em uma corporação que não retrata toda a minha trajetória profissional, e não defendo, nem comungo tudo que faz”, sustenta.

A major se classifica como uma trabalhadora da segurança pública e diz que tem perfil técnico. “Não tenho o costume de rotular as pessoas, ainda que seja PM. Isso é só um pedaço. Sou mosaico de várias experiências: psicóloga, mãe, filha, mestre, doutoranda, gestora”, enumera.

Experiência

Sobre a falta de experiência em cargos públicos, Denice afirma que no Brasil não existe necessidade de ter tido uma atuação anterior na administração pública. “Precisa ter amor, compromisso social, interesse em contribuir com minha cidade. Tenho 30 anos à frente de gestão”, afirma.

A candidata é pós-graduada em Gestão e Direitos Humanos e é mestre em Desenvolvimento Territorial e Gestão Social pela Faculdade de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Criei um programa (Ronda Maria da Penha) que se tornou referência para polícia nacional. Isso é gestão, empreendedorismo, criatividade”, assegura.

Guarda municipal

Denice afirma que a guarda municipal, em um possível governo comandado por ela, terá uma inversão da prioridade, atuando mais na prevenção do que no combate da violência. “A guarda municipal é um instrumento importante. A segurança é uma responsabilidade dos estados, mas o município precisa colaborar para alterar esse lugar. Queremos proteger, cuidar, educar”, destaca.

Ainda sobre um possível mandato à frente da Prefeitura de Salvador, a petista faz uma analogia: “Pense numa casa nova, ou recentemente reformada, tem estrutura de cimento, concreto, madeira, telhado. Quem transforma aquela casa num lar são as pessoas que moram nela. Para isso, precisam estar bem cuidadas, com saúde, educação, emprego e renda. Quando as pessoas se sentem seguras, consideram que aquele é seu lar, seu lugar. Vamos fazer de Salvador um lar”, promete.

Alianças

Bruno Reis (DEM), atual vice-prefeito que concorre com apoio do prefeito Antônio Carlos Magalhães (DEM), articulou pelos menos 13 partidos em torno de sua candidatura. Já Denice terá o PSB em sua chapa, que indicou a candidata a vice: a deputada estadual Fabíola Mansur.

A major afirma ainda que o desgaste na imagem do PT que ocorre em outras regiões do Brasil é diferente na Bahia, que reelegeu um governador do partido ainda no primeiro turno. “Temos um governador bem avaliado”, afirma, indicando Rui Costa, seu padrinho político. Apesar disso, o partido nunca elegeu um prefeito em Salvador. “O diálogo é imperioso e sintetiza um novo projeto. As formas de fazer política foram alteradas, principalmente por conta da pandemia, que trouxe para um lugar do desconhecido”, lembra.

A major diz que sua candidatura deve mostrar “respeito” e “diálogo” em relação às demais e que a pandemia obriga todas as candidaturas a terem atuação mais digital. “Somos um partido da militância de rua, mas teremos que ter essa atuação maior nas redes sociais agora. Não vamos pontuar a cultura do ódio. Não vamos contrapor as atuações, vamos mostrar nosso modo de atuação. Estou trazendo um projeto para essa cidade, como nosso partido fez com Lula e Dilma e na Bahia com (Jaques) Vagner e Rui (Costa)”, ressalta.

A intenção de Denice é mostrar que sua candidatura é a síntese da paridade de mulheres e pessoas negras. “Queremos colocar esse debate de forma mais evidente. Esse é um espaço de poder que cabe a todo e qualquer brasileiro. Esse é um movimento histórico e chegou a hora de ter mulher preta no poder”, diz.

A major reitera ainda se sentir fascinada em ter outra mulher concorrendo à eleição ao se referir à Olívia Santana (PCdoB). Para Denice, no entanto, é cedo para pensar em possíveis alianças para um segundo turno. “Vivo um dia de cada vez. Quem disse que terá segundo turno? não dá para adiantar a vida”, pondera.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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