Renata Souza (PSOL) apresentou denuncia na ONU e na OEA contra o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel (PSC); pedido de cassação foi uma retaliação à medida tomada pela deputada estadual

Texto / Juca Guimarães Imagem / Reprodução Edição / Pedro Borges

O racismo contra negros, na sua maioria pobres, e a tentativa de silenciar vozes discordantes da repressão do Estado estão no centro da motivação do pedido de cassação do mandato da deputada estadual Renata Souza, do PSOL, eleita com 63.937 votos para representar o povo na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

O pedido de cassação veio da liderança do PSC (Partido Social Cristão) na Alerj, o mesmo partido do juiz federal Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro, que foi denunciado por Renata Souza na ONU (Organizações das Nações Unidas) e na OEA (Organização dos Estados Americanos) por conta da sua participação em uma operação policial de sobrevoo em comunidades de Angra dos Reis, onde foram disparados tiros em direção à favela, no dia 4 de maio.

Ex-assessora da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018, Renata Souza é presidente da comissão de Direitos Humanos na Alerj.

“A perseguição política que estou sofrendo em relação ao governador do Estado demonstra não só o seu racismo, mas também todo um processo de cassação dos direitos de uma sociedade democrática. É muito importante analisar o como ter uma mulher negra, da favela, dentro desses espaços de poder questionando um outro poder gera incômodo, causa asco, e se transforma em perseguição pessoal e política”, disse a deputada.

Os parlamentares do PSC usaram o argumento de quebra de decoro, ou seja, quando o deputado ou deputada, toma uma atitude que vai contra alguma regra de conduta, para pedir a cassação do mandato da Renata Souza.

“Porque uma mulher negra jamais poderia encarar um homem branco e juiz que coloca a vida de outros negros e pobres em risco nas favelas e periferias ao se utilizar de um helicóptero como plataforma de tiro para levar terror nas favelas. Está implantado o terrorismo de Estado contra os corpos negros”, disse Renata.

O pedido dos líderes do PSC foi rejeitado, no dia 14 de Maio. No entanto, Renata destaca que a iniciativa revela a verdadeira face do atual governo.

“Ter um pedido de cassação demonstra, para nós, o quanto o Estado pode ser racista e o quanto que nós, povo preto, precisamos estar unidos e denunciando este tipo de situação. Afinal de contas, ter uma mulher negra no parlamento, um lugar que historicamente negado para nós, população de favela e periferia, é ousar contra todas as mazelas da sociedade que se instituíram com o racismo estrutural e estruturante”, disse.

De acordo com a parlamentar do PSOL, não é uma questão que se limita ao Estado do Rio de Janeiro, mas sim de um projeto conservador mais amplo.

“O ataque da extrema-direita vem junto com o neofascismo que está colocado hoje nas políticas de Estado. A gente precisa rebater com inteligência e mobilização do nosso povo preto, das pessoas que acreditam numa sociedade plural e sem racismo, sem machismo, sem LGBTfobia porque, sem dúvida nenhuma, a minha eleição já é vista como afronta ao status quo, ao capital que olha, nós os negros, como se fossemos a carne mais barata do mercado”, disse Renata.

O pedido rejeitado de cassação foi feito pelos deputados Márcio Pacheco, Bruno Dauaire, Sérgio Louback, todos do PSC, partido do governador Witzel.

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