Professora dos EUA visitou o Brasil e falou das similaridades entre os povos que saíram da África e habitam diferentes regiões da diáspora

Texto / Guilherme Soares Dias
Foto / Pedro Borges

A antropóloga norte-americana Sheila Walker, também cineasta e professora, se dedica à pesquisa e documentação da diáspora africana desde os 19 anos. Quando começou sua pesquisa veio a Salvador “a capital da cultura africana nas américas” para passar duas semanas e ficou três meses, estudando o candomblé, que a ajudou a entender a cultura negra da diáspora.

Ela lembra que lugares como Minas Gerais também preservam uma forte africanidade e diz que o Museu Afro Brasil, em São Paulo, é o melhor sobre diáspora, sendo mais artístico que Museu Nacional da História e da Cultura Africana-Americana, inaugurado por Barack Obama em Washington.

Em visita ao Brasil, Walker lançou o livro “Conhecimento desde dentro – os afro-sul-americanos falam de seus povos e suas histórias” e fez sessão comentada do filme “Rostos familiares, lugares – uma diáspora africana global. Entre 1500 e 1800, 6,5 milhões de pessoas atravessaram o Atlântico para as Américas. Só 1 milhão deles era europeu, sendo os 5,5 milhões africanas. “Esse continente não tem uma construção europeia. Precisamos de mais estudos para revelar essas outras histórias”, diz.

Sheila também falou da importância dos negros se verem como afrodescendentes da diáspora: “ultrapassamos essas identidades coloniais para nos vermos de uma maneira única”, considera, ressaltando que os povos oriundos da África vieram para as américas, mas também para países como Índia e Turquia, onde preservam suas culturas e identidades e mesmo hoje conseguem ver em afrodescendentes de outras partes do mundo como primos, com desafios e riqueza parecidos.

Confira a entrevista completa:

Quando e por quê começou a estudar diáspora africana no mundo?

Comecei quando tinha 19 anos e eu era “a” negra na classe da universidade. Acho que precisava de um antídoto contra a alienação da minha formação eurocêntrica.

Morei com uma família em Camarões, que era pan-africanista, e eles falavam da diáspora sem usar essa palavra. Eles perguntaram: você trouxe discos da sua música? Eu não sabia que eles tinham eletricidade, por isso não levei. Eles responderam: como você não trouxe discos da música da sua terra, nós vamos tocar sua música para você. Fizeram uma festa.

Eles tocaram música afro-cubana. Perguntei como vocês sabem dançar nossas músicas? Eu disse não é sua música é do Caribe. Mas para eles era a música deles. E a realidade é que era. A música africana que tinha vindo para as américas e voltou para a África.

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Sheila Walker durante palestra na FMU (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Que caminhos e lugares visitou para realizar esses estudos?

Fiz como todo mundo: fui para Salvador, na Bahia. Sabia que era a capital de cultura africana nas américas. Queria estudar o candomblé, que me ajudou muito a entender nossa cultura.

Os especialistas que nos estudaram, os negrólogos, diziam que nós não tínhamos cultura. Se tivéssemos uma cultura ela era uma forma patológica da vinda dos brancos dos EUA. Eu não gostei da patologia e queria conhecer nossa cultura do nosso ponto de vista.

Então, no mesmo momento que os professores diziam que não tínhamos cultura, o país estava utilizando a nossa cultura, como a alta cultura dos EUA. Era uma hipocrisia do governo e da universidade. Eu ia a igreja batista no norte dos EUA. A primeira vez eu tinha oito anos. Quando a música se esquentou, umas senhoras começaram a se remexer e a levantar e a dançar e fazer coisas que eu não compreendia. Eu gostava, não me assustava, mas perguntava: o que é isso. Respondiam: é o espírito. De onde ele vem? Não tinha resposta.

Quando eu fui a primeira cerimônia de candomblé na Bahia, vi as mesmas senhoras, com outras roupas mexendo da mesma forma. Já tinha estado na África e entendi que o espírito vem de lá e tem nomes: chama iemanjá, xangó... Essa maneira de se comportar é uma coreografia do universo.

Como foi o desenvolvimento da pesquisa?

Eu fui dar aula numa universidade africano-americana. Ao todo, são 104, que são fruto positivo da segregação oficial do sul dos EUA. Duas sociedades paralelas: a dos brancos e a dos negros. Negros não podiam estudar nas universidades dos brancos e vice-e-versa. Então, precisávamos ter as nossas e ainda temos.

Há duas universidades dedicadas apenas a mulheres afro-americanas. Soube que tinha dinheiro para projeto entre essa universidade e os afro-latinos. E criei um projeto com eles.

Determinamos os temas que achamos importantes para compreender a diáspora. Convidamos estudiosos de todos os países da América do Sul e fizemos o livro: “Conhecimento desde dentro: os afro-sul-americanos falam de seus povos e suas histórias”.

O que tem de semelhante e o que tem de diferente nesses países em relação a diáspora?

A diáspora é parecida, não tem discriminação. A diferença é que nos países do ConeSul as populações são pequenas e têm muita gente que não sabe que há negros nesses países.

Eu citei o livro que fiz antes e tive que empregar minha palavra afrogênico. Chile, Bolívia, Paraguai e Argentina que diziam não ter negros tinham negros e deram suas contribuições.

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Sheila Walker falou para os presentes sobre a pesquisa que desenvolve acerca da diáspora africana (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Todos os países das américas têm discriminação racial. A forma pode ser um pouco diferente. O Brasil era considerado uma democracia racial. Ninguém nunca disse isso dos Estados Unidos. O racismo nos EUA sempre existiu.

Essas pequenas populações do cone sul vivem a ‘estrangeirização’, pois são tratados com estrangeiros no país deles. Uma amiga da Argentina diz que todos os dias tem que responder que não é brasileira e que os ancestrais dela estavam antes dos deles. No Chile, os afrochilenos que estão no norte não são considerados chilenos, mas peruanos. Mas a guerra mudou a fronteira. Eles foram “chilenizados”.

Todos os grupos estão conscientes que têm discriminação racial. Eles se conscientizam sobre a história deles e passam a recriar a cultura que estavam perdendo para se integrar. Está havendo uma tomada de consciência das nossas semelhanças.

Tem uma data histórica que seja um marco desse tema?

A data que começou essa identificação uns com os outros foi 3 de dezembro de 2000, quando ocorreu a abertura da pré-conferência para as Américas para organizar a Conferência Mundial contra o Racismo em Durban, na África do Sul.

Na pré-conferência, as pessoas que os navios negreiros deixaram por toda a costa atlântica das américas se juntaram. Os lusófonos, os francófonos, os hispanofonos, criolofonos, sancofonos se conheceram.

No começo, cada grupo falava do seu individualismo, dos seus problemas, que era só deles, como se os outros não tivessem os mesmos problemas. Cada grupo falava como se fosse um mundo, mas quando falaram: Ah, vocês têm problemas de perdas de terra, nós também.

O resultado foi que fizemos um documento em que perdíamos as nossas nacionalidades coloniais e falávamos como afrodescendentes. Uma palavra, uma identidade. Romero Rodriguez, do Uruguai, disse que entramos como negros e saímos como afrodescendentes. Parece que a frase veio de Sueli Carneiro, fundadora do Geledes. Ultrapassamos essas identidades coloniais para nos vermos de uma maneira única.

A palavra afrodescendente ajuda a enfrentar essa questão do colorismo? Há uma brincadeira que existe um ‘negrômetro’: que mede se você é negro, se sofre mais ou menos.

Isso é igual em todas as partes. Nos EUA, temos uma dica. Se você é retinto, deve ficar longe. Se é marrom, pode se aproximar. Amarelo, pode ficar. Branco, tudo bem. É fruto da alienação e do fato que o fruto dos escravistas, dos mais claros, foram relativamente privilegiados.

O que temos nos EUA é o que se chama de lei de uma gota. Se você tiver uma gota de sangue negro, você é negro. O que não existe aqui. Vocês têm brancos que dizem que tem bisavô africana. A primeira vez que eu vi essa ideia foi um afro-americana que estava na Bahia e o prefeito falava dessa ideia “minha bisavó é africana”. E ela respondia ”eu vejo”, mas essas pessoas não se viam como negros. Isso é impossível nos EUA. Se você tem essa bisavó, você é negro.

O Museu Afro Brasil de São Paulo está novamente passando por um período de corte de gastos. Qual a importância dele?

Nós agora temos o nosso museu em Washington. Mas o nosso museu é menos artístico que o museu de vocês. É mais histórico, começa lá no fundo com a escravidão e quando a gente vai subindo os andares chega na luz, chega no presente, na alegria, na criação artística. 

Mas gosto mais do Museu Afro Brasil do que o Museu Nacional da História e da Cultura Africana-Americana, em Washington. Ele é um dos 22 museus que fazem parte do Museu Nacional. Seria trágico perder o Museu Afro Brasil porque retrata a cultura do Brasil.

Fora do país vocês são conhecidos por essa cultura afro. Esse museu não representa só os afro-brasileiros. Representa os brasileiros em geral.

Se pudesse indicar um lugar de cultura negra que as pessoas deveriam visitar para resgatar um pouco desses laços e revisitar um pouco da nossa história, que lugar seria esse?

Eu diria a Bahia, porque é o lugar do mundo onde a africanidade é tão flagrante: está na rua, no prato, na música, nas festas. Não tem outro lugar assim.

O Benin pretende construir museus e um deles é o dos orixás e voduns. Não sei se ele vai sair ou não. Mas eu disse ao comitê que não há nenhum lugar no Benin em que a presença dos orixás é tão flagrante, tão parte do dia a dia de todo mundo. Então, por isso, digo que é a Bahia.

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