Na terça-feira (26), a 6ª audiência pública foi realizada em Ribeirão Preto (SP); testemunhas não compareceram novamente

Texto / Solon Neto
Imagem / Pedro Borges

A expectativa dessa fase do caso girava em torno da participação dos vizinhos de Luana Barbosa que presenciaram as agressões sofridas por ela. Porém, elas novamente não estiveram na audiência. Os advogados da família de Luana Barbosa acreditam que as testemunhas foram ameaçadas anteriormente. Na última audiência, realizada em 7 de março deste ano, as testemunhas não estiveram no Fórum.

No entanto, em entrevista ao Alma Preta, a advogada da família de Luana Barbosa, Dina Alves, relatou clima de hostilidade durante a sessão e presença de muitos policiais em torno do Fórum, além da aparição de uma testemunha de defesa.

Segunda Alves, a testemunha apresentada pela defesa dos policiais teria trabalhado em um posto de gasolina em que Luana abastecia sua moto. O homem teria procurado a Polícia Militar de forma voluntária e informado que Luana era “pessoa muito agressiva”.

Quando questionado sobre o fundamento da alegação, o homem disse que presenciou duas ocasiões em que viu Luana alterada e nervosa no posto. As alegações, no entanto, causaram estranheza.

“No mínimo estranho essa voluntariedade da testemunha em ir depor no batalhão. Primeiro porque quem investiga é a Polícia Civil e ele procurou o batalhão da PM. Depois [...] que levou mais ou menos um mês após o ocorrido pra fazer isso”, afirmou a advogada da família de Luana, acrescentando que também causa estranheza o fato de que a testemunha teria trabalhado por apenas seis meses no posto indicado.

Para Dina Alves, trata-se de uma continuidade de uma estratégia da defesa para a “criminalização post mortem da Luana”, além de uma tentativa de descaracterização do crime a fim de uma possível absolvição dos policiais.

“Já tentaram de todo modo criminalizar a Luana. Disseram que ela seria lutadora de esportes marciais, pessoa violenta, usuária de drogas, traficante”, explica a advogada.
A expectativa sobre o depoimento das testemunhas que presenciaram a agressão continua e deve ser seguida de um interrogatório com os policiais militares acusados. Ainda não há data para a nova audiência.

Os policiais militares Douglas Luiz de Paula, André Donizete Camilo e Fábio Donizeti Pultz são acusados pelo espancamento de Luana Barbosa em abril de 2016 na cidade de Ribeirão Preto. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) aponta que Luana faleceu em decorrência de isquemia cerebral e traumatismo crânio-encefálico causados pelo espancamento.

Os policiais acusados podem ser julgados por homicídio doloso, quando há intenção de matar. A expectativa da família e de movimentos sociais, no entanto, é de que ele sejam levados a júri popular.

A advogada da família de Luana, Dina Alves, ressaltou anteriormente a necessidade de articulação de movimentos sociais para acompanhar o caso de Luana, que comparou com o assassinato de Marielle Franco.

Para a advogada, é fundamental que exista articulação dos movimentos sociais para acompanhar o caso. Ela acredita que o crime contra Luana Barbosa é tão significativo quanto o causado contra Marielle Franco, ex-vereadora assassinada em 14 de Março de 2018.

O caso de Luana

Luana Barbosa foi espancada por policiais militares após uma abordagem na periferia de Ribeirão Preto quando levava seu filho de 14 anos a uma aula de informática.

O espancamento ocorreu após Luana ter reivindicado o direito de ser revistada por uma policial mulher. No mesmo dia, Luana foi levada à Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas (HC-UE) mas morreu cinco dias depois. Luana Barbosa era negra, lésbica e moradora de periferia.

Em 18 de abril de 2018, a Polícia Civil de Ribeirão Preto finalizou inquérito policial concluindo que houve “lesão corporal seguida de morte”. Os três policiais acusados tiveram a prisão solicitada pelo promotor de justiça Eliseu Berardo Gonçalves. No entanto, o pedido de prisão preventiva foi negado em 9 de maio do mesmo ano pelo juiz José Roberto Bernardi Liberal, que solicitou audiência realizada em 18 de julho.

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