Clube Naturalmente Cacheada de escola estadual do interior de São Paulo já recebeu prêmio em Fortaleza e voltam ao Nordeste para participar do Expoceti

Texto / Thalita Gallucci I Imagem / Divulgação

As alunas Ana Aurélia Maluf, Mércia Sena Nascimento, e Isabela Nicole Cerqueira, todas da Escola Estadual Professora Leila Mara Avelino, em Sumaré, interior de São Paulo, iniciaram nesta semana uma campanha de arrecadação na internet para conseguir apresentar um projeto que discute o empoderamento, identidade e autoestima de meninas negras em uma feira de ciência e inovação em São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife, em Pernambuco, entre os dias 24 e 30 de junho.

A meta é arrecadar pelo menos R$ 6,5 mil para custear transporte, hospedagem e alimentação em nova viagem ao Nordeste para apresentar o projeto “Cabelo, Autoestima e Construção da Identidade da Menina Negra”, desenvolvido pelas alunas. Em dezembro do ano passado, as meninas foram até Fortaleza, no Ceará, receber um prêmio de expressão nacional em reconhecimento ao projeto.

Essa rotina de prêmios e visibilidade é parte de uma história de sucesso que começa em meados de 2017, quando as três alunas, negras, sentiram que era preciso ir além dos conteúdos expostos em sala de aula sobre cultura africana e afro-brasileira. “Sempre ouvimos piadas sobre nosso cabelo. Alguns diziam que era cabelo de mola, de miojo. Quando a gente é criança essas piadas machucam”, conta Ana Aurélia Maluf, 13 anos, uma das coordenadoras do projeto.

Para resolver o problema, a aluna do 9º ano se juntou a Mércia Sena Nascimento, também do 9º ano e Isabel Nicole Cerqueira, do 7º ano, para fundar o clube juvenil “Naturalmente Cacheada” e dar início a uma pesquisa com o objetivo de buscar soluções por meio de estudo e ações da conscientização dentro e fora da escola.

Sob orientação da professora de História Eliana Cristo de Oliveira, nascia o projeto duplamente premiado no Nordeste. “Nas minhas aulas procuro trabalhar a história da África e relacionar com a cultura brasileira, dessa forma fomentamos ao mesmo tempo a autoestima e a aceitação do povo negro”, explica a professora.

Meninas do projeto Naturalmente corpo

Meninas cacheadas em diálogo com outras estudantes (Foto: Divulgação)

Parte dessa aceitação passa pela identidade visual. Durante a pesquisa, as alunas perceberam que a maioria das meninas negras da escola ostentavam cabelos quimicamente alisados e iniciaram um processo de conscientização para que essas crianças assumissem o cabelo “naturalmente cacheado”. “É evidente que ainda vivemos as sequelas do período escravocrata, mas discutir o empoderamento da menina negra através do cabelo traz visibilidade ao tema e mexe na estrutura do racismo”, observa Eliana.

“O projeto e as pesquisas nos mostraram que a gente não precisa se sentir excluída pela cor da pele ou pela aparência. Antes, era comum ver alunas de cabeça baixa, com os cabelos presos, agora elas se assumem como negras e são orgulhosas de quem são”, conta Mércia, de 13 anos e futura psicóloga, mesma profissão escolhida por Ana.

A mais nova do grupo, Isabel, de 11 anos, relata que foi vítima de racismo no início do ano passado e afirma que o engajamento no projeto ajudou a superar o trauma. “Na época eu não soube lidar com a situação e chorei. Fui para casa e contei para a minha mãe. Ela me disse que eu deveria ser forte e me assumir como uma menina negra que eu sou. Hoje, eu sei que sou igual a todo mundo e se acontecer novamente vou saber me impor”, conta a menina que sonha em ser médica.

As atividades do grupo são variadas e ao longo do ano envolveram pesquisa para traçar o perfil étnico dos alunos, rodas de conversa sobre conceitos como feminismo negro, leituras de autores negros, palestras com psicólogos e ativistas culturais, vídeos e filmes, tudo organizado pelas alunas sob os olhares atentos da professora Eliana. Até uma camiseta com logo e o lema “Aceite-se” foi criado pelas crianças. “Depois de algum tempo toda a escola já estava mobilizada e o sentimento é de revolta quando acontece algum ato de racismo. No começo tinha resistência das próprias alunas negras, agora todo mundo assume o cabelo natural”, orgulha-se Mércia.

Para as meninas que já participaram de simpósio em Hortolândia para discutir o empoderamento feminino e foram premiadas em Fortaleza, a viagem ao Pernambuco é mais uma forma de reconhecimento de um trabalho com alto poder transformador. “Já levamos nosso projeto para outras escolas e vamos seguir com esse trabalho”, comemora Ana, cujo objetivo agora é garantir os recursos necessários para garantir a participação na EXPOCETI (Exposição de Ciências, Engenharia, Tecnologia e Inovação).

Há menos de 20 dias para realização do evento, as três jovens estudantes correm contra o tempo para conseguirem o valor que precisam e que garanta a visibilidade e a exposição que transforme o Naturalmente Cacheada também em um projeto científico.

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