Rosane Borges, jornalista, pós-doutora em ciências da comunicação, professora pesquisadora do Colabora (ECA-USP), integrante do grupo Estética e Vanguarda, apresenta histórico, características e acontecimentos envolvendo um dos assuntos mais falados durante as eleições deste ano: as Fake News

Texto / Rosane Borges
Imagem / Reprodução

Como se viu, um dos principais temas destas eleições de 2018 foram as fake news, artifício que teve repercussão sísmica na votação em todo o país, tanto nos níveis federal quanto estadual. Análises, oriundas de diversos campos, comprometeram-se em dimensionar as consequências nefastas das junk news, que, além das notícias falsas, englobam teorias conspiratórias e material ofensivo.

Ao contrário do que comumente se pensa, desde que o mundo é mundo, ou pelo menos desde quando nos reuníamos em volta da fogueira para contar estórias, as notícias falsas gravitam na órbita das trocas comunicativas. Assim, é fundamental que as reflexões sobre o assunto fujam da tentação de associar fake news ao império das mídias digitais, como se fosse exclusivamente obra do tempo presente. Essa associação, que superfaturou o debate, turva questões mais fundas enraizadas na relação entre política e tecnologia e que poderão, quem sabe, oferecer alguns endereços de resposta.

Raízes remotas da boataria: uma genealogia das fake news?

Relembro aqui o que mencionei em outro texto. Historiadores de proa como Roberto Darnton destacam que a desinformação (que se fundamenta aparentemente em dados com a força comprobatória de um granito, que ganha ares de prova incontestável pelo que se lê, se ouve e até se comprova por meio de fontes “insuspeitas”) tem um longo concurso na história e não é característica de mensagens de texto e tuítes carregados de veneno, mas podem ser encontrados em quase todos os períodos da história, inclusive na Antiguidade. A lista parece ser mesmo infindável.

Darnton enumera alguns casos. Procópio, historiador bizantino do século VI, escreveu História secreta, um livro recheado de acusações duvidosas com vistas a arruinar a reputação do imperador Justiniano. Profissionais e pesquisadores da área de comunicação sabemos que os pasquins se transformaram em correia de transmissão para difundir notícias desagradáveis, em sua maioria falsas, sobre personagens públicos. O século 17 testemunhou a ascensão do canard, a gazeta que destilava boatos e falsas notícias. Os canards eram jornais impressos em tamanho grande, às vezes ilustrados com gravuras chamativas.

A morte de Maria Antonieta é exemplo mais que pedagógico das consequências letais da difamação. A produção de notícias falsas, caluniosas, semi falsas ganhou relevo exponencial na Londres do século 18, momento de franca circulação dos jornais. Se quiséssemos, os exemplos se multiplicariam exponencialmente.

Lixo informativo que intoxicou as eleições

São fartos os episódios que nos enredaram numa guerra de desinformação que serviu para alavancar ou sepultar a candidatura dos postulantes a cargos executivos e legislativos. Nesta guerra, aspirantes a cargos políticos tiveram uma tarefa suplementar que foi ocupando o centro das campanhas: desmentir boatos, carimbar suas mensagens com o selo de verdadeira, alertar eleitores para os riscos dessa nova praga que vem extinguindo uma ação comunicativa baseada na racionalidade argumentativa.

Vale lembrar que a tarefa também foi extensiva à imprensa. Diversos jornais instituíram a seção fato ou fake, onde faziam a separação do joio do trigo, assinalando o que era verdade ou mentira no painel informativo que se desenhava diariamente à nossa frente.

A exploração à larga do kit gay foi emblemática. Jair Bolsonaro falou assertivamente que o tal kit teria sido aprovado por Fernando Haddad quando ministro no governo Lula. A mentira se alastrou como incêndio florestal e, muito mais grave, foi recebida por um Brasil curvado ao conservadorismo e à intolerância como prova testemunhal de que o candidato do PT não estava à altura para exercer o cargo mais importante do país.

O candidato do PSL deu vazão ao que antes era reeditado nas vias subterrâneas da Internet: em cadeia nacional enfatizou no JN o perigo que o material, imoral e escandaloso, representou para crianças ainda em formação. Ao final da edição, o próprio JN esclareceu que o kit gay não existiu e, no dia seguinte, jornais impressos divulgaram reportagens destacando que a narrativa de Bolsonaro não conciliava-se com a verdade.

Integraram o longo rol das fake news no nosso ciclo eleitoral, o anúncio da derrota de Jean Wyllys, que foi comemorada efusivamente, a anulação de votos dos eleitores de Bolsonaro pelo TSE, por isso reputado como golpista, a interdição dos militares em quartel pelo governador Rui Costa para que não fossem votar...

Nesse mar de lamas, ganha relevo a deturpação, em grau máximo, das passeatas do #Elenão, realizadas em todo o Brasil no dia 29 de setembro. As ruas de várias capitais brasileiras transbordaram de gente para defender a democracia, o direito às múltiplas existências, dizer não ao armamento, à misoginia e à homofobia... O maior evento do século organizado só por mulheres tinha tudo para se inscrever na lápide da nossa memória como uma manifestação que foi um divisor de águas, um ato que poderia ter contido o avanço de Bolsonaro. Diversamente, as manifestações sofreram um duro revés por conta das fake news, elas de novo.

Numa operação inesperada, o movimento foi manipulado negativamente, ressemantizado, com edições de imagens no momento mesmo em que as manifestações aconteciam. Quem poderia imaginar que um evento de tamanho porte e alcance se converteria, pela manipulação de imagens, em algo abominável que serviria para impulsionar a candidatura daquele a quem se disse não nos espaços materiais das cidades brasileiras?

As grosseiras distorções das cenas (mulheres blasfemando contra símbolos cristãos) reposicionaram as fake news ao sofisticado patamar tecnológico de portarem a mais pura verdade pelas imagens inequívocas que transitavam nas telas dos nossos aparelhos.

Os estratagemas foram ainda mais além. A Folha de São Paulo divulgou a existência de disparos em massa pró-Bolsonaro, patrocinados por empresas e grupos, o que, em tese, é proibido pela Justiça Eleitoral. Provocado a tomar as medidas cabíveis, ministros do TSE tergiversaram, declarando que o Tribunal não tinha expertise suficiente para julgar com celeridade tema tão espinhoso. Espera: mas a greve dos caminhoneiros, um laboratório sem fim de fake news, não serviu como sinal de alerta para o que aconteceria nas eleições?

Ubíquas e pervasivas, as fake news imiscuem-se em quase tudo. Nem mesmo o Enem foi poupado. Na véspera da prova saiu uma falsa notícia de que a data do exame teria sido postergada. Curiosamente, o tema da redação do concurso serviu de antídoto para tamanha irresponsabilidade: Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet.

Ao que parece, está tudo dominado. Segundo a Universidade de Oxford, a quantidade de fake news e material de ódio relativos a temas políticos também aumentou vertiginosamente nos EUA neste ano de 2018, em virtude das eleições para a Câmara e o Senado. São praticamente inexistentes, de tão ínfimos, os mecanismos capazes de coibir a proliferação dessa forma comunicativa.

Lógica (in) comunicativa que desafia a comunicação e a democracia

Do ponto de vista técnico, a propagação de junk news encontra sólida sustentação na chamada deep web – terra sem lei que favorece a disseminação desse tipo de material, com o WhatsApp à frente. Vale lembrar que o WhatsApp se instituiu como rede digital e não como rede social, o que lhe confere diferenças e singularidades capazes de dotá-lo de força extraordinária para ser um meio que propaga todo o tipo de coisa de baixo para cima.

Com atuação hiperativa de grupos anônimos, fora do radar dos algoritmos, responsáveis por controlar o alcance e distribuição das mensagens, o ‘zap’ não conhece jurisprudência: distorcer, inventar, mentir e forjar dados e informações é prática recorrente. Ao contrário das redes sociais, onde as pessoas podem ser chamadas a responder pelo que noticiam, no whatsapp. cujo estatuto é privado, a retratação torna-se praticamente impossível.

O que esses desvios representam para a democracia? Qual o novo modelo de comunicação em curso? Como cultivar um ideal de jornalismo em consórcio com o interesse público e não com o interesse do público?

Da fase da radiodifusão, passamos a era da conexão e da circulação, onde somos, ao mesmo tempo, produtores e consumidores de informação. Esse novo paradigma vem desafiando alguns postulados da chamada era moderna, que se equilibrava sobre os princípios da formação de uma esfera pública qualificada.

As fake news nos informam que este princípio ruiu e, na falta do que colocar no lugar, aprofundam-se mecanismos comezinhos imemoriais que sacrificam o projeto de emancipação humana. Junto com esse projeto, naufragam igualmente o papel de mediador do jornalismo, filho legítimo dos ideais de transparência da era moderna, e o nosso papel de sujeitos na percepção e construção de um mundo que exige de nós muito mais que simplismos e reduções.

Essa situação, no mínimo incômoda, nos leva a pensar que o aperfeiçoamento tecnológico não é apenas resultado inevitável do progresso, mas um sintoma de que caminhamos para um estágio terrível de negação da realidade. Com o crivo das nossas crenças e opiniões, devemos validar a concepção de que temos previamente do mundo e da vida. As notícias falsas de ontem e de hoje são um atalho pernicioso que faz da vida um caminho com opções miseravelmente simples.

*Rosane Borges é jornalista, pós-doutora em ciências da comunicação, professora pesquisadora do Colabora (ECA-USP), integrante do grupo Estética e Vanguarda. Autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012) e Esboços de um tempo presente (2016).

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