Representatividade importa e quando as palavras não são o suficiente, é o didatismo das ilustrações de Junião que tem o papel de ensinar isso ao público

Texto / Giovanna Monteiro
Imagem / Pedro Borges

“Morena não, hein?! Sou negrona!! Capricha na tinta, aí!!!”, é o que diz Dona Isaura, principal personagem de Antônio Carlos de Paula Junior ou Junião, como é popularmente conhecido. Criada em 2000, Dona Isaura foi lançada na revista japonesa Look e depois continuou a ser publicada em tiras diárias no Correio Popular e no Diário da Região, impressos do interior de São Paulo.

Inspirada na avó, que Junião nem chegou a conhecer, a senhora revolucionária, debochada e com um humor cheio de ironia, personifica a luta das mulheres negras no Brasil. Hoje, após quase 20 anos desde a criação de Isaura, Junião tornou-se um dos mais reconhecidos ilustradores brasileiros, com passagem por veículos como Veja, Folha de São Paulo, Estadão e até pela revista francesa Courrier International.

Porém, não é apenas o seu invejável currículo que o traz até as páginas da AFROCULT. De bermuda e chinelo, fez questão de descer para receber a nossa equipe na portaria do prédio onde mora em Perdizes, Zona Oeste de São Paulo. Com uma simplicidade que impressiona e um largo sorriso no rosto, a camiseta estampada com o rosto de Luiz Gama – jornalista, escritor e Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil – já dizia muito sobre o tom que nossa conversa tomaria.

Dentro do elevador, de forma descontraída, ele celebrou finalmente o encontro de nossas agendas. Antes daquele dia, devido à viagens e compromissos profissionais, ele já havia desmarcado conosco outras duas vezes.

Ao chegarmos em seu apartamento e estúdio, os brinquedos espalhados pelo chão denunciavam que Bernardo, seu filho de 7 anos, estivera a pouco por ali. “Não repara a bagunça, casa com criança você sabe como é, né?!”, disse, aos risos. Então, sentado em uma cadeira que acompanhava a mesa da cozinha, e confortavelmente apoiado na bancada que dividia o cômodo da sala, ele acenou com a cabeça pronto para começarmos. Suas primeiras palavras me fizeram entender o porquê de termos desmarcado tantas vezes. A energia de Junião não era para inverno. Feito coisa que só o universo explica, nosso bate-papo tinha tudo a ver com aquele terceiro dia de primavera: revigorante, acalorado e, acima de tudo, florido.

“A Turma da Mônica não me representa”

Na infância, crianças desenham como uma maneira de expressar suas ideias e sentimentos, porém, na pré-adolescência, isso se torna cada vez menos frequente, até desaparecer de vez. Junião nunca parou. Afetuoso, ele seguramente atribui à família esse feito. “Sempre fui muito incentivado a desenhar e correr atrás do que era meu”, afirma.

Nascido em Campinas, interior de São Paulo, ele recorda que sua estrutura familiar não era nada tradicional. O patriarcado por lá passava longe, quem botava ordem na casa eram as mulheres. “Lembro que teve uma época que eu cheguei até a pensar que eram as mulheres que dominavam o mundo”, recorda em meio a gargalhadas.

Filho de professora, conta que, apesar das limitações financeiras, dentro de casa, a arte e a cultura sempre foram elementos essenciais, principalmente quando se tratava da preservação de aspectos da cultura afro-brasileira. “Eu entendi muito novo que não existe outro caminho para o negro que não seja o da militância. A gente tem que se defender para conseguir viver”, pontua.

Junião Corpo

Desenho de Junião sobre a banda Senzala Hi-Tech (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Leitor desde pequeno, sua história com a literatura começou nos livros que a mãe trazia da escola. Popular entre as crianças, é de se imaginar que as primeiras referências gráficas do cartunista tenham vindo dos quadrinhos da Turma da Mônica, entretanto, quando questionado sobre, Junião torce o nariz e lembra que, apesar de achar interessante o universo criado por Mauricio de Sousa, a falta de representatividade nunca fez com que ele se identificasse com as histórias.

Quando os livros e as revistas de casa acabavam, era a amizade com os jornaleiros que supria a curiosidade do jovem Junião. “Eles sabiam que eu não podia comprar, então sempre me deixavam folhear as revistas e ler por lá”, relembra. Com a internet ainda longe de existir, foram essas idas e vindas às bancas de jornais da época que contribuíram para o seu amadurecimento artístico.

Já adolescente, o contato com o trabalho de artistas como Glauco, Angeli, Laerte, Luiz Gê e a turma da Circo Editorial foram determinantes para a formação de seu senso crítico.

O sonho virou manchete

Aos 17 anos, chegou à fase da vida mais temida pela maioria dos jovens. Ele precisava decidir o que queria ser. Apesar de gostar muito de desenhar, confessa que nunca enxergou o hobbie como algo que poderia se tornar o seu ofício. Negro e pobre, blindou-se através dos ensinamentos das tias, que diziam que pessoas como eles sempre teriam que brigar para ter espaço. E, assim, com a única certeza de que queria ser grande, foi para Bauru cursar Artes Plásticas na Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Em seu quarto ano de faculdade, conseguiu um emprego no Diário de Bauru,onde pela primeira vez, entendeu de fato o que era trabalhar com desenho. Lá aprendeu a fazer charges, infográficos, ilustrações editoriais e, então, começou a fazer o que chama hoje de jornalismo ilustrado. Trabalhou por um tempo na Agência Interior, primeira agência de notícias do Brasil, e voltou a Campinas, sua cidade natal. Durante os 11 anos seguintes, dedicou-se a publicações no Diário do Povo e no Correio Popular, contudo, a necessidade de ter mais contato com grandes editoras o trouxe até São Paulo.

A união de seu talento e ideias revolucionárias – num período em que as minorias começaram a se manifestar – elevou o artista a um posto que jamais poderia imaginar. Se quando criança acompanhava o trabalho de outros ilustradores nas bancas, agora, era o seu que estampava os principais veículos da imprensa brasileira.

Colaborou com ilustrações, charges esportivas e políticas para a revista Veja, os jornais Folha de São Paulo e Estadão, para o esportivo Lance! e até em publicações internacionais como a revista francesa Courrier International.

Ilustrou também livros didáticos, de ficção, infantis, adolescentes e adultos. Além disso, ganhou o primeiro lugar em premiações como o Salão Internacional de Desenho para Imprensa de Porto Alegre, em 2011, o Vladimir Herzog de 2005 e, também, o prêmio de cartoons sobre Aids do Ministério da Saúde em 2004. A partir de então, o mundo sabia quem era Antônio Carlos de Paula Junior.

Uma Ponte para a informação

Apesar de ser grato pelas portas que as premiações e os grandes veículos abriram em sua vida profissional, em 2015, Junião sentiu a necessidade de que a sua arte ultrapassasse as páginas da mídia tradicional. “Ser pautado no começo é interessante, mas com o tempo você se sente limitado”, admite.

O espaço cedido era sempre pequeno demais. O cartunista conta que dificilmente tinha a oportunidade de falar sobre pautas como os direitos humanos, o combate ao racismo e a igualdade de gênero e, quando tinha, era apenas em datas comemorativas. “Eu cansei de falar sobre a cultura negra apenas no mês de novembro. As pessoas precisam ter consciência o ano inteiro”, e foi essa ruptura que o levou até a Ponte Jornalismo. Com uma proposta única no jornalismo brasileiro, a Ponte foi criada em 2014, inicialmente como apoio da Agência Pública, e atualmente, é o principal veículo que trata de assuntos como segurança pública e defesa dos direitos humanos no Brasil.

“Lá eu voltei a me sentir parte de algo maior”, diz o artista, que, além de ilustrador e jornalista, contribui para a construção da linha editorial do veículo. Além disso, conta que o trabalho dentro da mídia independente o possibilitou falar não só através de desenhos, mas também por textos, sobre os cidadãos esquecidos pela imprensa tradicional.

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O artista visual Junião tem a sua estética reconhecida pelo público e a crítica (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Abordando temas como o genocídio de jovens pobres e negros, ele destaca que a Ponte é uma importante ferramenta na democratização do discurso de grupos distintos da sociedade. Entretanto, esse processo é mais complexo do que se imagina: “Se eu for falar sobre drogas, por exemplo, preciso falar com o usuário e também com o Estado, um lado nunca entende o outro e isso gera constante atrito entre as duas partes”, explica.

Questionado sobre como o fenômeno das redes sociais contribui para essa democratização, Junião diz que, apesar de serem uma ferramenta importante, esses canais são apenas um dos muitos caminhos. Ir onde as pessoas estão e participar de rodas de conversa e seminários, surte mais efeitos positivos “É essa a razão do nome Ponte. A gente atravessa as pontes ideológicas e de resistência para transportar informação”. Ele afirma que o objetivo é apenas facilitar a comunicação, “eles [pessoas que têm seus direitos humanos atingidos] têm a própria voz. Nós só existimos para garantir que eles tenham o direito de falar”.

Com uma agenda sempre cheia de compromissos, o ilustrador e ativista também realiza palestras e cursos sobre os direitos humanos, além de realizar seu trabalho como cartunista em escolas técnicas, faculdades, Sescs e Sesis.

Representatividade para quê?

Cartunista, ilustrador, jornalista, músico e pai. Dentre tantas, Junião brinca que ser pai é a sua mais importante profissão.

Em contato com o mercado editorial desde que chegou a São Paulo, ele conta que o trabalho com editoras como a FTD, Escrita Fina e Panda o instigou a ter o seu próprio livro como autor e ilustrador. Então, quando seu filho Bernardo nasceu, as ideias começaram a surgir e, em 2016, ele lançou a obra Meu Pai Vai Me Buscar na Escola, pela editora Zit.

Na obra, o autor acompanha o olhar do filho ao desbravar o mundo em situações cotidianas. Com escrita simples e frases curtas, Junião conta que seu principal objetivo foi contribuir para que, quando Bernardo começasse a ler, se sentisse representado. “Quando criança eu nunca tive um livro com um personagem negro como eu. Eu queria que ele se enxergasse no personagem”, diz.

Despretensioso, ele jamais poderia imaginar que a relação com o seu filho colocada nas páginas de um livro poderia render tanto. Contudo, como a grande maioria dos projetos do artista, a obra virou um grande sucesso, ganhando o Selo Seleção Cátedra 10 – Qualidade em Leitura Infantil e Juvenil. O prêmio foi concedido pela Cátedra Unesco de Leitura, entidade ligada à PUC-Rio que escolheu 20 narrativas infanto-juvenis publicadas em 2016 para receber o carimbo de qualidade.

Junião é, como ele mesmo se define, um artista multiplataforma. Fala por charges, por textos, pela música e até pelo desenho pendurado de forma torta em sua geladeira. Independente de como ele escolhe se comunicar, sua voz se faz ouvir. Ele é daquele tipo de pessoa que você conversa por horas a fio sem se dar conta. Nosso papo ainda poderia render muito, mas infelizmente – ou felizmente – os ponteiros do relógio começaram a se aproximar das 16h30, indicando o fim de nossa entrevista. Nosso tempo acabou e era hora de Junião buscar seu filho na escola.

A reportagem foi originalmente publicada na Revista AFROCULT. Criada como trabalho de conclusão de curso das jornalistas Giovanna Monteiro, Marina Sá, Mayara Oliveira e Thais Morelli na Universidade Anhembi Morumbi, a revista visa ser um instrumento didático para o auxílio do combate ao racismo no país.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

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