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Aos 81 anos, a cantora e compositora está entre as artistas paraenses mais conhecidas na atualidade, com várias apresentações fora do país e agora também nas lives

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Divulgação

O segundo semestre de 2020 deveria ter mais de vinte apresentações na agenda de shows de Dona Onete, a cantora de carimbó, ritmo tipicamente paraense que volta a ganhar espaço com a reapresentação da novela “Força do Querer”, na TV Globo. Mas a pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, adiou os planos. Agora, ela divide o tempo entre Belém e Mosqueiro (distrito de Belém), onde está recolhida com a família, e também as apresentações em transmissões ao vivo.

A pandemia trouxe para a cantora desafios para além da situação sanitária. “Eu fico um pouco isolada porque não sei mexer com o celular ou com o computador, somente atendo as pessoas. Quem faz isso é minha neta, minha filha, meu filho, e a produção. Eu só respondo sim e não. O meu trabalho é outra coisa. Compor é outra coisa e eles que cuidam disso”, diz a cantora, em entrevista ao Alma Preta. A conversa foi feita por meio de áudio em aplicativo de mensagens instantâneas.

Ela fala que já deveria estar em viagem, começando por Portugal e chegaria até uma cidade na China, voltando ao Brasil, havia ainda Rio de Janeiro, São Paulo, o Pará também, dentre outros lugares. “Eles me guardaram logo, por eu ser idosa. Eu fiquei logo dentro do guarda-roupa, bem guardadinha. Vamos ver depois que tudo isso passar, como vai ficar, como a música vai fluir novamente. Muita gente está fazendo seus trabalhos em casa. Compondo, gravando, tocando. A gente não parou. Só que não estamos fazemos shows. Estamos esperando e nos cuidando. Se Deus quiser vai tudo melhorar”, acredita.

Ao contrário do que já foi dito em várias matérias publicadas pela imprensa, Ionete da Silveira Gama gosta de frisar que sua carreira artística não começou depois dos 70 anos. Ela foi secretária de Cultura, teve um grupo de danças folclóricas, esteve envolvida em vários espaços, mas o reconhecimento só veio mais tarde.

Hoje, aos 81 anos de idade, comemorados em junho, ela conta que há menos de um ano sentiu que havia chegado ao topo da carreira. “Eu cantei o pitiú no Empire State. Eu tive essa felicidade. A moça que estava lá para me entrevistar pediu que eu cantasse a ‘Garça Namoradeira’. Se eu tivesse levado uma bandeira do Pará. Foi lá que eu achei que estava no topo de uma carreira, que eu era reconhecida. Também cantei na Times Square”, relata a cantora referindo-se a apresentações nos Estados Unidos.

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(Foto: Leandro Tocantins)

Cantando para botos

A cantoria de Dona Onete começou ainda na infância, quando ela cantava para botos, em Rio das Flores, na cidade de Igarapé-Miri, cidade 78 quilômetros distante de Belém, quando foi passar as férias na casa da tia. “Eu achei que deveria cantar para aquele boto. Eu tinha uma voz muito alta, cantava música Emilinha Borba, Dalva de Oliveira, Marlene, Ângela Maria. E eu cantava para o boto. Diziam para minha tia que quando eu crescesse ia namorar o boto, casar com o boto e diziam que ele virava homem. A minha tia mandou chamar pajé para me benzer e era alho no meu pescoço. Eu apanhava jambu rosa e dava para o boto comer, jogava flores no rio. Era um período muito bonito”, lembra.

A artista fala que está se preparando para a volta aos palcos após a pandemia, mas ainda no aguardo de fazer isso com segurança. “Eu acho que sou uma mulher que tive muita sorte. Não tenho faculdade. Sou professora há muitos anos, de quinta à oitava série, mas tenho muito conhecimento. Muito cursos. O que tem de ser da gente é. Sem pisar em ninguém, eu vou subindo degrau por degrau, porque quando eu descer eu também quero que seja assim degrau por degrau. Eu quero voltar, não quero cair”, enfatiza a cantora e compositora.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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