Familiares acreditam que políticos de direita se elegeram com um discurso de criminalização e de ataque à Marielle Franco; “Ao invés de construírem projetos para a sociedade, fazem isso”, diz seu pai

Texto / Pedro Borges
Imagem /Fernando Frazão / Agência Brasil

O nome de Marielle Franco foi presente durante as eleições de 2018. Para a família, setores da esquerda se utilizaram da defensora dos direitos humanos para se promover e parte da direita se referenciou na ex-vereadora para atacá-la alimentando ainda mais o discurso de ódio.

“Viver o processo político foi difícil. Sentir na pele o que nós passamos, atacados cotidianamente, principalmente depois daquela fatídica facada do [presidente, Jair] Bolsonaro”, conta Marinete da Silva, advogada e mãe da ex-vereadora.

Um dos exemplos dessa situação foi a eleição do deputado estadual do Rio de Janeiro, Rodrigo Amorim (PSL), o mais votado no estado, com 140.666 votos. O candidato ganhou ampla repercussão na imprensa e nas redes sociais depois de rasgar a placa de rua feita por ativistas de direitos humanos em homenagem a Marielle. Ele aproveitou o ato de vandalismo para tirar uma foto com o então candidato e hoje governador do estado, Wilson Wtizel (PSC), que apareceu no retrato sorrindo.

Para Marinete, essas manifestações de ódio demonstram a covardia das pessoas, que decidem atacar uma pessoa “que nem tem como se defender”. “Mas a família ainda está aqui e nós vamos continuar lutando por esses ideais, pelos projetos que ela fazia. É inadmissível esse caso da placa. Foi desnecessário. Aquilo foi um ato insano de alguém para se promover”, afirma.

Não satisfeito com o ato, o deputado eleito, que almeja disputar a prefeitura do Rio de Janeiro em 2020, emoldurou a placa rasgada com o nome de Marielle e a colocou em seu gabinete na ALERJ. Em entrevista ao jornal “O Dia”, disse que respeita a família da ex-vereadora e que não é um “monstro”.

deputado rasga placa de marielle reprodução rede social

Foto: Reprodução / Rede Social.

Para Anielle, irmã de Marielle, emoldurar a placa foi um ato de “deboche” diante do sofrimento dos familiares. “É tripudiar em cima. É muito deboche. É a vida de uma mulher eleita. Dane-se que ele é de direita, dane-se a ideologia política. Você debochar? Eu duvido que se fosse da família dele e a gente fizesse isso, ele ia achar legal. E nós nunca faríamos porque não é da gente”, diz.

Marinete acredita que essa escolha de Rodrigo Amorim (PSL) apenas engrandece a filha. De acordo com a mãe, Rodrigo “se curva” todos os dias diante de Marielle Franco. “A grandeza daquela mulher é tão grande, que ele não conseguiu não deixar aquilo só num processo eleitoral. Ela é tão grande que faz com que ele se curve diante daquela placa. Eu como mãe vejo isso. A minha filha é grande”, afirma.

Para Antônio Francisco, essas ações de políticos de direita são a representação da situação no Rio de Janeiro. “Ao invés dele estar preocupado em criar projetos para a sociedade do Rio de Janeiro, principalmente, porque ele é um deputado eleito, ele fica ainda se servindo do assassinato da Marielle, de uma placa, que foi um negócio simbólico. E isso daí não tem nenhum valor para continuar em evidência. Ao invés de fazer projeto para a sociedade. E é esse tipo de pessoas que infelizmente foram eleitas”, diz.

Rodrigo Amorim (PSL) e Wilson Wtizel (PSC)

No dia 13 de março, a família de Marielle Franco se reuniu com o governador do Rio de Janeiro Wilson Wtizel (PSC) para discutir o andamento das investigações sobre o assassinato da ex-vereadora. Além de garantir a busca pelo mandante do crime, o governador se desculpou para os familiares e disse que não podia responder pela “atitude individual” de cada um, se referindo a Rodrigo Amorim.

A equipe de reportagem do Alma Preta entrou em contato com o gabinete do deputado estadual do PSL e não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

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