Depois do lançamento do clipe de "Me Solta", de Nego do Borel, um debate sobre representação LGBTQIA+ negra veio à tona na internet. O ativista Jhow Carvalho escreveu para o Alma Preta sobre a música e recordou da artista Lacraia para refletir sobre o vídeo

Texto / Jhow Carvalho
Imagem / Reprodução / YouTube / Sergio Savarese

Na noite de segunda-feira (9), Nego do Borel lançou o clipe de “Me Solta”, cuja música estava disponível havia algumas semanas em plataformas de streaming, e que teve mais de 5 milhões de visualizações em menos de cinco horas no YouTube. Além disso, ficou nos trending topics do Twitter por 12 horas seguidas e até a publicação deste texto, era o primeiro colocado nos vídeos em alta no Youtube.

A direção e o roteiro do videoclipe são uma parceira entre Nego do Borel e Lucas Romor, da produtora Kondzilla, que foi filmado em junho no Morro do Borel, local em que o cantor nasceu e foi criado.

Para a gravação, o cantor contratou mão de obra local para figuração, corpo de dança, serviços de alimentação e transporte - isso é ótimo, pois fomenta a economia local. Por ter filmado na região em que nasceu, o artista gravou ao lado de amigos de infância e ex-vizinhos.

Até aí, tudo bem, mas há um grande problema nesse clipe.

Eu me graduei em artes cênicas e me lembro de que quando estudamos tragédia grega havia um conceito chamado falha trágica: todo herói - Édipo Rei, por exemplo - é inteligente, forte e um ótimo lutador, mas sua falha trágica é a soberba que o faz se achar maior que os deuses e o oráculo. A falha trágica do clipe “Me Solta” é a personagem interpretada pelo cantor, a Nega da Borelli.

Basicamente, Nega da Borelli é o cantor trajando roupas socialmente ditas como femininas. Ela consiste na personagem que o funkeiro criou junto com a mãe, depois apresentou para amigos mais próximo e que, inclusive, já apareceu em show.

Nega da Borelli traz diversos problemas, pois em uma única tacada contém visão estereotipada de diversos grupos já marginalizado: bichas afeminadas, travestis, mulheres trans e, de alguma forma, até mesmo as mulheres cis. Ou seja, ridiculariza grupos que já são ridicularizados e excluídos pela sociedade. Nego do Borel declara que a personagem “representa a liberdade de ser quem sou”. No entanto, me questiono: “Que dificuldade um homem heterossexual tem para existir?”

Lembrei-me de Lacraia, que dançava com MC Serginho e alcançou notória visualidade em 2002, quando a dupla lançou os hits “Vai, Lacraia” e “Eguinha Pocotó”. Nas entrevistas dadas pela mãe de Lacraia após a sua morte, ela diz o quanto a filha sofreu por causa do preconceito, que a filha, quando estava em casa, passava muito tempo deitada ouvindo música, e dizia que a filha mostrava alegria para o mundo, mas em seus momentos de “descanso”, frequentemente estava triste e reclusa.

Nego do Borel tem a liberdade de ser quem ele é e quem ele quer ser, até mesmo a Nega da Borelli. O mesmo direito não era dado a Lacraia, às bichas afeminadas, às mulheres trans e às travestis, sobretudo as pretas. Um pequeno exemplo: para escrever este texto, li diversos artigos sobre Lacraia e Nego do Borel. Em 99% dos textos a respeito de Lacraia, o nome de registro dela é mencionado como um dado muito importante, enquanto o total de zero textos menciona Leno Maycon Viana Gomes, nome de registro do Nego do Borel.

Outro ponto do clipe é a cena em que Nego do Borel beija o modelo branco Jonathan Dobal, que foi divulgada como um beijo gay. Mas preciso escurecer um ponto: para haver um beijo gay, é fundamental uma pequena coisinha: GAYS! Esse não é o caso.

De acordo com Nego do Borel, ele “quis mostrar que as pessoas podem se soltar, beijar, transar e amar quem elas quiserem”. Lembremos de que “de boas intenções, o inferno está cheio”: se o cantor quisesse mostrar o que disse, teria sido muito mais eficiente ter colocado casais com gays, lésbicas, pessoas trans e travestis se beijando. Jonathan Dobal declarou que aceitou o beijo como forma de quebrar paradigmas, mas não sejamos ingênuos. Ele aceitou o beijo porque estava trabalhando e foi pago para isso.

Nas redes sociais foi dito que Nego do Borel estava atrás de pink money. Não acredito ser este o caso, pois quem busca pink money procura ser simpático e convidativo a esse novo público, vide as novas igrejas que começaram a aceitar homossexuais e que já descobriram não ser possível conseguir pink money ridicularizando e reforçando estereótipos.

Houve também uma discussão se Nego do Borel teria, de alguma forma, fomentado a representatividade da comunidade LGBTQIA+ e, como ele é um homem negro, não há como desassociar sua imagem da comunidade preta. Eu, como bicha preta, entre ser representada como motivo de riso e não ser representada, com certeza fico com a segunda opção.

Nós, LGBTQIA+ pretas, pretes e pretos, temos uma série de artistas que vivem dentro da comunidade e trabalham com bastante seriedade em prol de representação digna e humanizada de nosso grupo, como Linn da Quebrada, Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Luana Hansen, Yzalu, Danna Lisboa, Rico Dalasam e Quebrada Queer. É sempre necessário lembrar que vivemos no país que mais mata LGBTQIA+ e tem um dos mecanismos de racismo mais sofisticados do mundo.

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