Falecida nesta terça-feira (17), a “Dama do Samba” superou o racismo e o machismo para colocar o seu nome na história do samba e da cultura brasileira

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Imagem / Natalia Bezerra

Dona Ivone Lara, a “Dama do Samba”, morreu na madrugada desta terça-feira (17), aos 97 anos, em decorrência de insuficiência cardiorrespiratória. Ela estava internada desde sexta-feira (13), dia de seu aniversário, no CTI (Centro de Terapia Intensiva) da CER (Coordenação de Emergência Regional), no Rio de Janeiro.

Mais do que um ícone do samba, Dona Ivone Lara é a personificação da resistência contra o racismo e o machismo. Em resumo: a trajetória dela foi pautada em mostrar que mulheres negras têm voz, vez e protagonismo na sociedade.

A voz contestadora e pioneira da “Dama do Samba” torna-se nítida ao ser levado em conta que o ambiente sambista era marcado, em meados do século XX, pelo preconceito em relação à presença feminina em rodas e até mesmo na composição.

Apesar da essência machista do samba à época, Dona Ivone Lara ignorou os julgamentos sociais e conseguiu ter espaço no meio. Mais: em 1965, a Império Serrano, escola da qual fez parte até o fim da vida, foi à avenida com um samba feito por ela, que se tornou a primeira compositora de samba-enredo no Brasil. Além disso, a “Dama do Samba” passou a ser madrinha de compositores da escola.

A resistência e a contestação do machismo e do racismo foram desenvolvidas ainda na infância, quando ficou órfã de pai e mãe. Apesar do luto, a base musical transmitida pelos seus pais e a força para seguir em frente formaram o modo como encarou a vida - e moldaram a sua essência artística.

Coexistência profissional

Por muitos anos, a trajetória musical de Ivone Lara coexistiu com a enfermagem, com foco na terapia ocupacional.

Foi por meio dessa atividade que conheceu Nise da Silveira, psiquiatra que revolucionou o tratamento de pessoas com limitação cognitiva ao desenvolver procedimentos humanizados e atividades que visavam desenvolver as potencialidades dos pacientes.

Desse modo, a “Dama do Samba” conciliou atividades entre a música e a enfermagem até 1977, quando se aposentou e passou a se dedicar em tempo integral à carreira artística.

Em 1978, Maria Bethânia e Gal Costa gravaram “Sonho Meu”, de autoria da sambista, e projetaram o seu nome no cenário nacional e no exterior. A partir disso, o estrelato veio e a compositora foi regravada por artistas como Caetano Veloso, Clara Nunes, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Marisa Monte, entre outras estrelas da música brasileira.

Ainda assim, o reconhecimento maior viria de sua escola de samba de berço. Em 2012, a Império Serrano fez desfile em homenagem à trajetória da pessoa que superou adversidades sociorraciais e que havia sido transformada em madrinha da agremiação.

As composições de Dona Ivone Lara tornaram-se eternas, pois falam de aspectos diversos da vida, como o cotidiano e os sentimentos - sempre associados à perspectiva da pessoa negra na sociedade. Mas o mais importante é, sem dúvida, mostrar que a pessoa negra tem de resistir e lutar perante as adversidades diárias, inclusive raciais. Afinal, como é dito em “Sorriso Negro”, “negro é a raiz da liberdade”.

 

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