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Pessoas que se articulam politicamente em suas comunidades consideram que a crise provocada pela Covid-19 deve deixar lições e é preciso estar atento às propostas eleitorais

 Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Manaure Quintero

Pessoas pretas e pardas no Brasil estão morrendo mais de causas naturais do que as brancas durante a pandemia da Covid-19, novo coronavírus, de acordo com dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), divulgado na segunda quinzena de julho.

Esse é um dos fatores que devem ser levados em consideração pelos eleitores negros e das periferias nas eleições municipais, que acontecem daqui a poucos meses, conforme avaliam articuladores políticos.

Para a professora Lília Melo, mentora e coordenadora do projeto Cine Clube TF, desenvolvido no bairro da Terra Firme, periferia de Belém (PA), a crise sanitária influencia diretamente no pleito de 2020. “A pandemia potencializou os problemas sociais, econômicos, emocionais e até espirituais da comunidade periférica. Eu acredito que no momento em que temos as nossas mazelas potencializadas podemos nos tornar presas muito facilmente, porque acabamos nos fragilizando enquanto pessoas, enquanto sujeitos dentro de um contexto social. A maneira com que a pandemia influencia é deixando cada vez mais desassistidos e propícios a qualquer proposta assistencialista”, analisa.

imagemjoicecursinoUma das formas de evitar que os candidatos a cargos eletivos se aproveitem da crise para se firmar é observar melhor quem se elege. “As pessoas devem avaliar as propostas e condutas de candidatos. Por exemplo, nesta eleição há candidatas inseridas nas lutas de povos pretos e periféricos? É preciso olhar se o sujeito que apresenta as propostas já estava atrelado a lutas, causas e articulações sociais”, reflete Lília.

Por outro lado, a professora destaca que a pandemia deixa lições e as pessoas mais afetadas por seus efeitos sociais e econômicos devem se atentar. “Acredito que todos os acontecimentos que tenham contexto histórico político social são importantes para aprendizagem no que diz respeito à política partidária. Este momento fez com que enxergássemos o quanto as vidas de pretos e periféricos estão nas mãos de quem pouco se importam conosco, com nossa ancestralidade e história. Precisamos valorizar nossas redes de afetos e de construção e considerar que essas redes precisam estar representadas nas cadeiras política também” pontua.

Menos eleitores devem ir às urnas

Na Grande Vitória, no Espírito Santo, a ativista Drica Monteiro, integrante do coletivo Amara e membra do Movimento Negro Unificado (MNU) avalia que a Covid-19 deve inclusive desestimular a ida das pessoas às urnas e que deve crescer o número de faltosos. Drica também acredita que é preciso que as pessoas avaliem o histórico de seus candidatos e candidatas.

“A pandemia mostrou quem é quem. Quem realmente esteve em prol da população periférica. Seja quem lutou pela aprovação do auxílio emergencial e quem mobilizou, se dedicou em ajudar com cestas básicas e máscaras. Mas é preciso saber separar quem usou este momento para palanque e quem sempre fez trabalho social, independentemente de estar ou não em uma pandemia”, considera.

Para a ativista, a crise deixou ainda mais nítido a desigualdade histórica que alguns grupos enfrentavam. “A gente sempre lutou e não tinha como provar essa exclusão. Agora, ficou mais nítido e ninguém pode negar, elementos como a falta de água e de condições mínimas para as medidas de prevenção à doença em locais periféricos. A falta de política de saneamento básico nas periferias”, enfatiza.

A pandemia, entretanto, exigiu uma mudança no comportamento, uma espécie de revisão no posicionamento. “Acho que saímos mais do papel de reclamar e fomos mais para o fazer. Estamos botando mais a cara na rua para fazer. Isso é muito sério e muito necessário”, frisa Drica.

* Foto Interna: Joyce Cursino

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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